"Destello Bravío" | © FEST

FEST ’21 | Destello Bravío, em análise

Destello Bravío”, também conhecido como “Mighty Flash”, é a primeira longa-metragem da realizadora espanhola Ainhoa Rodriguez. O filme está na competição pelo Lince de Ouro no FEST 2021.

A Páscoa é para celebrar a vida, quer seja como rito herdado de tradições pagãs em prol da Primavera ou na sua conceção Cristã em que se festeja a ressurreição do messias. Até seus símbolos, ovos e coelhos entre muitos outros, remetem para uma ideia de terra fértil, santa fecundidade. No entanto, a nota do calendário não dita a forma do mundo e há certas Páscoas que de vital nada têm. Assim é o tempo primaveril em “Destello Bravío” de Ainhoa Rodriguez. Apontando a câmara para uma Estremadura onírica, a cineasta documenta os festejos da Páscoa numa comunidade assombrada pela Morte absoluta.

Perto da fronteira entre Espanha e Portugal, a paisagem ibérica que Rodriguez regista parece saída de algum filme de ficção-científica, quiçá uma fantasia sobre explorações lunares ou planetas amaldiçoados. Sob a abóbada de céus perpetuamente cinzentos, a terra é árida e seca, infértil e fede a degredo. A ruralidade da aldeia sem nome traz ideias de agricultura, mas neste cosmos em mil tons de cinza e prata não conseguimos imaginar nada a nascer, crescer, vingar. No entanto, as celebrações continuam em jeito funério, procissões com ícones floreados que parecem gozar com o infortúnio das pessoas. Em “Destello Bravío”, a Estremadura é assim zona pós-apocalíptica, pintura de desolação levada a extremos bíblicos.

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Possivelmente, um espetador imaginativo encontrará beleza nestas visões sepulcrais, mas Rodriguez reforça a miséria quando dá contexto humano ao seu reino de gente moribunda. Sem perder tempo com decorosos eufemismos, este é um filme sobre populações envelhecidas, sobre zonas despovoadas e condenadas ao esquecimento. Os novos foram-se, ora migrados para a cidade ou para fora do país, enquanto os idosos permanecem nas suas casas ancestrais. Talvez esperem melhores dias, talvez esperem o fim. O resultado é uma aura de pesadelo fantasmagórico, onde toda a figura humana se afigura um espectro cujo coração ainda bate, mesmo que muito fracamente.

Não admira que, neste estudo de solidão e existências estagnadas, a possibilidade do supernatural floresça. Em certa medida, é quase uma manifestação da angústia plena que julgamos ver na gente da aldeia, especialmente suas mulheres. Encurraladas em costumes retrógrados, elas desejam silenciosamente pela mudança, pela intervenção de algum ser celestial que seja salvação para essa terra despovoada. São elas que contribuem com a voz para a narrativa, que nos contam sobre dias passados e vidas perdidas, que sugerem o que já foi e jamais voltará a ser. O filme seria um poço sem fim de apatia, não fosse a intervenção dessas senhoras queridas.

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Diários e notas, sussurros quase inaudíveis que são ditos em jeito de monólogo secreto, compõem o nosso acesso às senhoras de “Destello Bravío”. Assim conhecemos Isa que usa um gravador para captar mensagens, profecias preservadas antes que ela desapareça ou sua memória sucumba à demência. Cita, por sua vez, está encarcerada no matrimónio infeliz como tantas outras mulheres daquela localidade, vigiada pelos olhos das santas de porcelana que lhe ocupam a casa. Se ela quer escapar, fugir dali, Maria quer regressar a um idílio perdido, quando o marido ainda era vivo.

São elas e outras mulheres que compõem os quadros mais inesquecíveis do filme, parte quimera Expressionista parte coro Grego. Falamos, por exemplo, do plano brincalhão que abre a fita, onde o ato de despir é libertação e a distância da câmara propõem uma leitura quase épica da conversa casual. Mais tarde, em interlúdios com câmara lenta, a comunhão das mulheres estremenhas assemelha-se a um ritual, poesia do gesto sustido por tempo indefinido. É um transe suscitado pela partilha do espaço e das mágoas, com a câmara e umas com as outras. Fala-se da dor, mas também se fala dos sonhos de felicidade, daquilo que se desfrutou e do que ficou para trás.

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Numa cena muito bela, até a fantasia sexual é partilhada como a prece, colares de pérolas feitos em terços da luxúria. O murmúrio cresce e sobrepõe-se até que toda a paisagem sonora é um palimpsesto avassalador de confissões eróticas. Seria sacrilégio se não fosse também uma misericórdia, a prova de vida que mostra quanto estas pessoas de uma localidade sem nome querem resilir. Frente às forças do esquecimento e da Morte, o próprio engenho cinematográfico torna-se num milagre salvador. A partilha cura a ferida e atenua a dor, acalenta a alma e atrasa o dia em que mais ninguém se irá recordar destas senhoras e suas histórias de vida. No fim, até humor e ironia saem do cocktail de forças fílmicas.

E aí está a suprassuma beleza e mais misteriosa alquimia de “Destello Bravío”. Apesar da solenidade asfixiante da estética, da sugestão apocalíptica da paisagem, há um calor humano que teima em não sumir. A lenda e a maldição mancham a terra com agoiros, mas a magia ominosa jamais rouba humanidade às figuras cujas feições são aqui cristalizadas para toda a eternidade. Rodriguez usou principalmente não-atores neste exercício, esbatendo os limites entre documentário e drama, entre a ficção do folclore e a verdade do cinema. Pode ser tudo um trabalho muito presente na construção da atmosfera, do formalismo imersivo, mas o resultado final assemelha-se mais a uma canção de amor que a um hino de funeral.

Destello Bravío, em análise
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Movie title: Destello Bravío

Date published: 5 de October de 2021

Director(s): Ainhoa Rodríguez

Actor(s): Isabel María Mendoza, Carmen Valverde, Guadalupe Gutiérrez, Isabel Valverde, Isabel María Giraldo, Ángela González, María Sosa, Petra Parejo, Valentina Jiménez, Noelia Montero

Genre: Drama, 2021, 98 min

  • Cláudio Alves - 80
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CONCLUSÃO:

Com sua primeira longa-metragem, Ainhoa Rodriguez assume-se como uma das artistas mais interessantes do cinema espanhol contemporâneo. “Destello Bravío” ou “Mighty Bang” é o retrato do desespero de uma comunidade despovoada, um testemunho da dor e do raio de esperança que no seu meio emerge. Espera-se a mudança, um grande bangue, um milagre. No fim, é o filme que serve de salvação, cristalizando o presente efémero e concedendo-lhe a imortalidade divina.

O MELHOR: O humanismo que emerge do formalismo fantasmagórico, como que um tesouro desenterrado da lama, reluzente, uma joia perdida cheia de história antiga e esplendor ancestral.

O PIOR: Ver o filme e experienciar toda sua mágoa torna.se numa experiência de desconforto quase visceral, como se o nosso instinto animal persentisse o fedor da mortalidade e nos puxasse para longe. Por outras palavras, por muito sublime que a obra seja, não é cinema para todos os gostos.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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