"Poppy Field" | © FEST

FEST ’21 | Poppy Field, em análise

Poppy Field”, também conhecido como “Câmp de maci”, viajou pelo mundo, de Talin a Taipei, e chegou a Portugal através do FEST 2021 em Espinho. Esta obra romena do realizador Eugen Jebeleanu foi um dos melhores filmes do festival.

Em 2013, o Museu do Camponês Romeno em Bucareste programou a exibição de “Os Miúdos Estão Bem”, filme nomeado para os Óscares e realizado por Lisa Cholodenko. Devido ao conteúdo queer da obra, que retrata as dinâmicas familiares entre um casal lésbico, seus filhos e o dador de esperma, o evento foi causa para alarido reacionário. Fundamentalistas cristãos invadiram o cinema, impedindo que o filme fosse mostrado e cuspindo retórica homofóbica na cara dos espetadores. Além disso, os manifestantes também eram parte de grupos de ódio com origem nos movimentos ultranacionalistas e de extrema-direita que continuam a ganhar poder nos dias de hoje.

Apesar de a Roménia ter descriminalizado a homossexualidade em 2001, o país continua a ser extremamente conservador e o incidente de 2013 é prova disso mesmo. De facto, o crescente poder das fações conservadoras tem levado a tentativas de contrariar as mudanças legislativas em prol dos direitos humanos. Em 2018, um referendo para emendar a constituição levantou a hipótese de uma nova criminalização da homossexualidade. É neste clima e entre estes valores, dentro do medo e do ódio, que o realizador Eugen Jebeleanu construiu a sua primeira longa-metragem. De facto, o protesto contra “Os Miúdos Estão Bem” é recriado em “Poppy Field”.

poppy field critica fest
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Contudo, antes de se chegar ao inferno homofóbico dessa noite, o filme explora um registo lânguido, plácido quase pachorrento, encontrando grande erotismo na reunião de amantes à longa-distância. Cristi é um polícia romeno que, quando o conhecemos, dá as boas-vindas a Hadi, seu namorado francês que está de visita. Sua química é aparente, uma corrente quase elétrica a vibrar no espaço partilhado, quer seja o ar que os separa na rua ou as paredes que os aconchegam em privado. Sentimos algum nervosismo inicial, mas isso é mais charmoso que periclitante. Basta encontrarem-se nos confins de um elevador para que seja impossível estarem separados e um beijo escaldante deflagra em sigilo.

Filmando com película de 16mm, Jebeleanu e seu diretor de fotografia, Marius Panduru, sugerem um paraíso insular dentro daquele apartamento partilhado por dois homens apaixonados. Os atores Conrad Mericoffer e Radouan Leflahi certamente dão o corpo ao manifesto, ilustrando a intimidade de quem se sente na plenitude do prazer, do romance, da paixão. Conversas mantidas enquanto um se banha e o outro repousa na cama, pele iluminada pelo azul pálido da matina, são especialmente belas. Pouco a pouco, somos hipnotizados pelo filme, como que perdidos num feitiço que só pode existir quando os dois amantes estão sozinhos.

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Os primeiros sinais de problemas revelam-se com perguntas não respondidas, com verdades que Cristi não quer admitir, ansiedades que se recusa a partilhar. A visita inesperada de Mircea, irmã do polícia, ainda atrapalha mais a dinâmica, mas a intrusão fraternal é depressa ultrapassada. Não obstante o desconforto que permanece no ar como fumo depois do fogo, este primeiro ato de “Poppy Field” é definido pela paz de espírito, pela comunhão de corpos, pelo sexo e pelo mundo secreto que existe entre cada casal de namorados. Tudo muda quando o cenário muda, quando o filme abandona o apartamento e Hadi, seguindo Cristi numa noite de trabalho. Depressa descobrimos quão a sua existência fora do lar se define pela performance de masculinidade heteronormativa.

Por outras palavras, o polícia esconde a sua sexualidade e mascara tudo com uma pátina de motinosa agressão, um ar machista e disposição calada, retraída, fechada sobre si mesma para não dar parte fraca a ninguém. O que surpreende na relação com os colegas é quanto Jebeleanu complica as nossas perceções. Dentro da carrinha dos agentes, a conversa revela quantos laços de amizade unem os homens, como o preconceito de um ou dois elementos não significa uma unilateralidade homofóbica, pelo menos no que se refere a Cristi. À medida que a noite avança, entendemos que há quem saiba do seu segredo, mas todo o diálogo se faz de eufemismos regidos pelo medo, de Cristi para com os colegas e quiçá do grupo para com o indivíduo.

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É uma situação tensa e multifacetada que explode quando a polícia é chamada para intervir na invasão do cinema. Aí, um antigo amante de Cristi confronta-o e, em pânico, o polícia agride-o, despoletando um estado de crise entre os agentes, a comunidade, os manifestantes e as dinâmicas internas dos colegas. Tudo filmado em longos takes sem montagens desnecessárias, esta secção de “Poppy Field” é como que um exercício em suspense e nervosismo, a coreografia de câmara a promover a desorientação do espetador e a asfixia de uma respiração suspensa. Estamos todos à espera da calamidade, em sintonia com Cristi, mas também contra o seu ódio internalizado. Passado algum tempo, é quase impossível relembrar a beleza daqueles momentos sonhadores no apartamento.

Até a nível cromática existe um cisma poderoso entre os dois atos principais da fita. Se a intimidade é um cosmos de luz matinal sobre pele suada, tons frios de azul e cinzento celestial, o cinema é todo um pesadelo de vermelho aveludado. Por instantes, quase nos perdemos na imensidão do carmesim e sentimos estar dentro de algum corpo gigantesco, quiçá o organismo ensanguentado da sociedade romena. Tal como a masculinidade, aquele cinema torna-se numa prisão, uma bomba de energia comprimida pronta a explodir a qualquer momento. Os atores fazem um trabalho brilhante, especialmente Conrad Mericoffer no papel principal, mas este clímax, tal como todo o “Poppy Field”, é uma mostra de virtuosismo cinematográfico do realizador Esta pode ser a sua primeira longa-metragem, mas Eugen Jebeleanu aqui se afirma como uma das vozes mais promissoras do Novo Cinema Romeno.

Poppy Field, em análise
poppy field critica fest

Movie title: Câmp de maci

Date published: 22 de October de 2021

Director(s): Eugen Jebeleanu

Actor(s): Conrad Mericoffer, Alexandru Potocean, Radouan Leflahi, Cendana Trifan, Ionut Niculae, Alex Calin, Rolando Matsangos, George Pistereanu, Florin Caracala

Genre: Drama, 2020, 81 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Formalmente virtuoso e politicamente calcinante, “Poppy Field” põe o dedo na ferida de uma nação contemporânea onde o ódio corrói a vida do indivíduo, vitimando até aqueles que se autodefinem enquanto autoridades estatais. Entre o estudo de personagem e o drama social, o filme é um dos melhores trabalhos de cinema queer do ano.

O MELHOR: Toda a sequência dentro do cinema, no rescaldo da agressão. O trabalho de câmara é especialmente primoroso, mas é a dinâmica complicada do elenco que realmente eleva a obra aos píncaros da tensão psicológica.

O PIOR: O final é deliciosamente ambíguo, especialmente no que se refere aos significados múltiplos da última fala – “Beijos”. Contudo, teria sido preferível, a nível estrutural e sentimental, se a figura de Hadi reaparecesse.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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