"Shorta" | © FEST

FEST ’21 | Shorta, em análise

“Shorta”, também conhecido como “Enforcement”, é um thriller policial de Frederik Louis Hviid e Anders Ølholm. O filme dinamarquês ganhou o prémio do Público no FEST 2021 em Espinho.

Por muito que se possam apreciar qualidades em “Shorta”, há que se admitir que o filme não ganha pela originalidade. De facto, numa das muitas cenas em que a câmara segue as personagens por paisagens urbanas, um pano de fundo grafitado faz referência direta a outro famoso filme sobre violência policial motivada por preconceitos raciais. O duo de cineastas atrás das câmaras são claramente fãs de “O Ódio”, essa fita seminal de Mathieu Kassovitz que, tal como “Shorta”, constrói um retrato social através de uma sinédoque humana, um trio de personagens a tentar sobreviver nas ruas violentas de uma metrópole europeia.

Uma das muitas diferenças entre os dois projetos incide, contudo, nas figuras a quem os realizadores dão a palavra. No clássico francês de 1995, o foco está sempre na juventude urbana que se sente discriminada pelas autoridades, vítimas das forças corruptivas da violência endémica e de crispações raciais que perduram há gerações. No filme holandês, os paradigmas de relevância narrativa são drasticamente recalibrados. Ao invés de jovens que tentam sobreviver nas ruas, a história centra-se em torno de polícias que querem sair incólumes do caos por si mesmos despoletado. De facto, indo além do mero retrato social, “Shorta” quer ser um conto de redenção.

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Apesar de uma reputação internacional que realça o progressismo e uma comunidade multicultural, pensar que a Dinamarca está isenta da doença do racismo seria um erro. A abertura de “Shorta” isso evidencia quando nos mostra um jovem muçulmano preto a ser agredido pela polícia, um joelho sobre o pescoço como o que aconteceu a George Floyd nos EUA, o ano passado. O rapaz até suplica aos policias, dizendo que não consegue respirar. Apesar da iconografia remeter para um caso americano, os realizadores Louis Hviid e Anders Ølholm não fogem ao horror que se passa, todos os dias, na Dinamarca. Isto é um problema mundial e a parelha de cineastas europeus sabe bem isso.

Dito isto, o cenário da sua fita tenta escapulir-se à especificidade, quiçá numa busca da universalidade fácil. Até a geografia da narrativa evita apontar o dedo a locais específicos, concebendo o estado fictício de Svalegårdena como palco para sua guerra racial. O incidente que serve de introdução ao filme levou ao motim da comunidade imigrante nessa terra imaginada, espalhando ânimos agrestes por todo o ecossistema social. Tanto assim é que as forças policias foram aconselhadas a manter a distância da população, a não contribuir para um clima antagónico que, no fim de tudo, foi sua culpa. Não que os nossos protagonistas, Mike e Jens, liguem a tais diretivas.

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Interpretados por Jacob Lohmann e Simon Sears respetivamente, estes dois agentes representam arquétipos mais do que seres humanos tridimensionais. Mike é o prototípico polícia mau, a transbordar de raiva e uma necessidade de confrontar todos aqueles que lhe olham de lado. Para ele, o poder concedido pela profissão serve de desculpa para se tornar num tirano. Jens, em contraste, é responsável e sensato, uma cabeça fria encarregue de monitorizar o colega e impedir que este piore uma situação volátil. Em termos morais, Mike é fúria preconceituosa no seu mais intenso rubro e Jens afigura-se como alguém desafetado por tais vícios.

No seu gesto mais inteligente, os cineastas deixam que os atores interpretem estas caricaturas com todo o fulgor unidimensional que os papéis parecem pedir. Contudo, ao mesmo tempo que promovem o julgamento rápido do espetador, há uma subversão da espectativa. Talvez Mike não seja assim tão irredimível e Jens pode ter só uma fachada de respeitabilidade a mascarar motivações iguais às do colega. É a adição de um terceiro elemento que nos ilumina essas contradições. Ele é Amos, um miúdo de origem árabe que Mike humilha em praça pública, forçando-o a despir-se em público sob a ameaça de aprisionamento.

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Em reação, a comunidade revolta-se por completo e o bairro torna-se em território inimigo para os dois polícias. Só que Amos não desaparece da história, tornando-se num terceiro protagonista e no guia relutante dos agentes que precisam de encontrar guarida se querem viver mais um dia. Por um lado, esse acrescento é uma vitória para “Shorta” que encontra, no ator Tarek Zayat, sua mais brilhante estrela. Cheio de revolta, ele é uma presença elétrica que ajuda a complicar as dinâmicas da fita. Por outro lado, o argumento escrito pelos realizadores usa-o principalmente como fio condutor para o desenvolvimento dos polícias. Esta devia ser a história deste rapaz e de mais ninguém.

Apesar da homenagem direta à “Raiva” de Kassovitz, “Shorta” assemelha-se mais ao “Les Misérables” de Ladj Ly. Dizemos isso porque este é um projeto amaldiçoado com um problema de perspetiva, tentando explorar o racismo europeu através do prisma policial de tal modo que as comunidades violentadas se tornam em abstratos. Apesar de almejar a visceralidade, “Shorta” funciona como um thriller desconexo da realidade pura e dura, resultando num trabalho que entretém, mas que não tem nada de interessante a dizer sobre os seus temas centrais. A energia da montagem, a moção cinética da fotografia são fogo de vista, ofuscando quão pouco a narrativa tem a dizer. Ao mesmo tempo que louvamos a forma, temos que reconhecer os limites textuais que impedem “Shorta” de alcançar o seu máximo potencial.

Shorta, em análise
shorta critica fest 2021

Movie title: Shorta

Date published: 18 de October de 2021

Director(s): Frederik Louis Hviid, Anders Ølholm

Actor(s): Jacob Lohmann, Simon Sears, Tarek Zayat, Dulfi Al-Jabouri, Issa Khattab, Abdelmalik Dhaflaoui, Özlem Saglanmak, Lara Aksoy, Arian Kashef, Michael Brostrup, Mads Rømer, Josephine Park

Genre: Ação, Crime , Drama, 2020, 108 min

  • Cláudio Alves - 45
45

CONCLUSÃO:

“Shorta” é nome meio derrogatório com que gente árabe caracteriza a polícia. Num panorama europeu, dar esse nome a um filme indica uma vontade de mostrar a violência policial vista através dos olhos daqueles marginalizados por tais forças. Infelizmente, a promessa titular não é cumprida pelo filme em si, perdido na perspetiva dos rufias de farda e trocando o comentário social pelo prazer básico de um drama violento sobre dois polícias a tentarem sobreviver à revolta popular. Trata-se de cinema que finge ser progressista, mas se mostra reacionário, uma gema formalista traída pela vacuidade do seu argumento.

O MELHOR: Como um thriller policial, “Shorta” tem muito para se recomendar, especialmente quando se aventura por passagens mais claustrofóbicas e guia o espetador por nebulosas nuvens de violência, raiva, revolução urbana.

O PIOR: Quanto o argumento tenta redimir Mike. Entre dramas Oscarizados e narrativas jornalísticas, a cultura atual está saturada de histórias de racistas violentos que merecem ser encarados com tanta simpatia como suas vítimas. “Shorta” afigura-se como uma fita que quer subverter espectativas, acabando por corresponder a modelos perfuntórios que não dizem nada de novo ou com valor.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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