Florence, Uma Diva Fora de Tom, em análise

Florence Foster Jenkins ou Florence, Uma Diva Fora de Tom, é uma deliciosa tragicomédia onde Meryl Streep é a pior cantora a alguma vez esfaquear os ouvidos do mundo e Hugh Grant tem a melhor prestação da sua vida.

florence uma diva fora de tom

Já houve tempos em que o público ia ao cinema simplesmente para ver os seus atores preferidos, para apreciarem estrelas de cinema. Isso já não acontece muito nos dias de hoje. Mesmo celebridades como Julia Roberts ou Jennifer Lawrence raramente têm filmes construídos unicamente em função de exibirem o carisma das suas estrelas. Apesar de alguns possíveis contra-argumentos, Florence, Uma Diva Fora de Tom, é um dos projetos recentes que mais se aproxima do clássico star vehicle da era dourada de Hollywood. A audiência ideal deste filme não está em busca de assistir à história de uma figura real, mas sim da presença da atriz cujo nome está bem destacado em todo o material promocional – Meryl Streep. É ela que queremos ver em todo o seu esplendor, a rainha dos atores de Hollywood a parodiar a sua própria excelência ao interpretar a mais horrenda cantora que o mundo já teve a infelicidade de ouvir.

E afinal como é que é a prestação da divina Streep? Como já é usual, ela é fantástica, mas de um modo não muito comum na sua filmografia. Na última década, a carreira desta atriz triplamente Oscarizada tem oscilado entre espetáculos de vistosa virtuosidade (Um Quente Agosto, A Dama de Ferro) e comédias casuais em que a atriz se parece estar a divertir tanto como a audiência (esta obra). Aqui, ela brilha com os seus dotes cómicos mas também nos despedaça o coração com vislumbres de fragilidade sem nunca mostrar marcas de esforço. Ela é Florence Foster Jenkins, uma milionária na Nova Iorque dos tempos da 2ª Guerra Mundial que adora música, mas que, sem saber, tem uma deplorável voz.

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Todos aqueles que a rodeiam trabalham para a manter num mundo de ilusões, onde Florence crê ser uma belíssima cantora. O principal destes criadores de mentiras benignas é o seu marido, um ator inglês medíocre interpretado por Hugh Grant, e, apesar de ele manter uma amante, as suas ações são consequência de um enorme amor e respeito pela sua esposa. Verdade seja dita, Grant é tão protagonista como Streep e numa reviravolta surpreendente, a sua prestação gentil consegue ser ainda mais primorosa que a da sua parceira de cena.

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Mesmo para além de Streep e Grant, o filme é uma coletânea de prestações fabulosas, muitas delas num registo que recorda os character actors dos tempos dos grandes estúdios americanos. Como o pianista Cosmé McMoon, Simon Helberg é uma estupenda conflagração de tiques nervosos, desconforto social e um entusiasmo reticente e contagioso, e as suas reações silenciosas são uma perfeita pontuação para as mais desastrosas calamidades musicais a sair da boca da sua mecenas.

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Em papéis menores, Rebecca Ferguson, Stanley Townsend e David Mills também impressionam, mas é Nina Arianda quem rouba o holofote ao interpretar a desbocada mulher de um gangster num registo que parece um híbrido entre o humor de Judy Holiday e a desenvergonhada sensualidade de Gloria Grahame. Essas ligações ao passado cinematográfico são apenas exacerbadas quando consideramos todo o fausto da produção, como os requintados figurinos, detalhados cenários e uma fotografia pobre em composições interessantes e rica em cores saturadas mas nunca berrantes.

Como já foi estabelecido, Florence, Uma Diva Fora de Tom está a dois passos de ser uma versão contemporânea dos filmes que exibiam o esplendor de Katherine Hepburn, Bette Davis ou Greer Garson nos anos 40, mas convém referir que o filme não é uma convencional e simples sobremesa. Ou melhor dito, Florence é uma sobremesa simples e é precisamente por isso que é tão fascinante e distante das atuais convenções. A figura titular foi uma mulher que existiu e a sua história, persona e o público que a adora constituem um dos mais curiosos paradoxos nos anais do entretenimento no séc. XX. Por um lado, Jenkins é um alvo de chacota e o seu valor está na sua qualidade de humorista acidental, por outro, a figura de uma mulher frágil e cega pelo seu amor à música é genuinamente inspiradora. Entretemo-nos com o seu artifício fracassado, mas apreciamos a honestidade subjacente. Do mesmo modo, o filme balança toda a sua narrativa entre estas duas zonas de tonalidades contraditórias, constituindo uma celebração da mentira, do falso e do artifício teatral em virtude da felicidade humana ao mesmo tempo que é uma obra onde se enaltece a vulnerabilidade que se esconde por detrás dessas fachadas.

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No ano passado, os cinemas internacionais assistiram a outra versão desta história em Marguerite, mas enquanto esse filme francês se rendeu ao melodrama e construiu toda a sua experiência numa série de acusações a uma sociedade parasítica, Florence Foster Jenkisn vai para além disso. Do mesmo modo que os filmes de Miyazaki parecem revolucionários ao lado da Disney quando se recusam a ter conflitos, vilões ou drama forçado, esta delicada tragicomédia encontra genuíno valor na sua gentil abordagem. Aqui não há nenhum apontar do dedo a algo injusto ou podre, e enquanto em Marguerite nós tínhamos pena da milionária desafinada, aqui temos empatia e admiração. A questão do matrimónio pouco ortodoxo entre Florence e o seu marido evidencia ainda mais estas ideias, nunca tomando o caminho fácil da recriminação do homem, mas procurando uma análise mais íntima destas dinâmicas adultas e complicadas onde o amor se manifesta de maneiras que fogem aos padrões habituais.

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Algo tem de ser sublinhado depois de se ter falado de todas essas questões estilísticas e narrativas – apesar desta ligação à Hollywood de outros tempos e dessa referida complexidade concetual, Florence, Uma Diva Fora de Tom é uma delícia de filme, descomplicado e perfeito tanto para um espetador casual como para um cinéfilo mais dedicado. Grant nunca esteve melhor, Streep e Helberg são hilariantes e comoventes em igual medida, Arianda seduz-nos e todo o requinte da produção sacia os nossos olhos. Mesmo a nível musical o filme tem um momento de redenção (copiado de um musical sobre Florence chamado Souvenir) em que finalmente ouvimos o que a milionária imagina sempre que canta. Apenas a direção desinspirada de Frears, no que diz respeito a aspetos mais formais, deixa bastante a desejar, Mas isso não implica que este seja mais um enfadonho exemplo de cinema de prestígio feito somente para ganhar Óscares. Não, na verdade, Florence é um dos mais prazerosos e surpreendentes filmes do ano.

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O MELHOR: A sequência climática no Carnegie Hall é uma montanha-russa emocional. De gargalhados, chegamos a vergonha alheia, inspiradora vitória até comovente tragédia e voltamos aos risos!

O PIOR: As composições fotográficas e a montagem são bastante medíocres e lembram alguns dos esforços mais banais na filmografia de Stephen Frears como Filomena e Tamara Drewe.


 

Título Original: Florence Foster Jenkins
Realizador:  Stephen Frears
Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant. Simon Helberg, Rebecca Ferguson, Nina Arianda
NOS | Drama | 2016 | 111 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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