Veneza 73 (Dia 2) | São Jorge, uma descida aos infernos

‘São Jorge’ do realizador Marco Martins a concurso na secção paralela Orizzonti é um extraordinário drama social sobre um Portugal ‘esmurrado’ pela troika e um rigoroso ensaio sobre a ficção do real em tons de ‘film noir’, sobre um homem desesperado com a crise. Aqui as entrevistas com os protagonistas.

São Jorge

Marco Martins misturou actores profissionais com gente de um bairro problemático do Bairro da Bela Vista, em Setúbal, para construir São Jorge, um filme onde não há bons e maus, mas antes pessoas em dificuldades e desesperadas por uma crise económica que abalou Portugal em 2011, fechou muitas empresas, aumentou o desemprego e impossibilitou muitas famílias de cumprir os seus compromissos.

Entrevista com Marco Martins

Foram cinco longos anos de pesquisa e preparação para chegar a este argumento parco em diálogos escritos em conjunto pelo realizador, o escritor Ricardo Adolgo e muita cumplicidade com o actor Nuno Lopes, que desde Alice (2005), tem acompanhado Martins nos projectos de cinema e teatro.

São Jorge

É neste contexto — muito semelhante às As Mil e Uma Noites de Miguel Gomes e com Martins de passagem igualmente pelos estaleiros navais de Aveiro , com o boxe apenas em fundo, que se desenvolve esta história de um homem à deriva (como em Alice), um pugilista desempregado (Nuno Lopes) que sem outras alternativas, trabalha numa empresa de recuperação de créditos, para evitar que a ex-mulher (Mariana Nunes), uma imigrante brasileira, regresse ao Brasil com o filho de ambos (David Semedo).

Entrevista com Nuno Lopes

O homem acaba por entrar numa vertiginosa espiral de violência e perdição que conduz a uma inevitável tragédia à portuguesa.

São Jorge

O protagonista é Nuno Lopes em mais uma brilhante interpretação ao nível físico (com longos meses de preparação num ginásio de boxe e mais quase 20 quilos de peso) já que Jorge é homem silencioso filmado sobretudo à noite e em grandes planos sobre a nuca e a cabeça, sempre graças à mobilidade da câmera digital, que o segue insistentemente.

Entrevista com Mariana Nunes

No elenco destaque ainda para as interpretações secundárias, mas marcantes no desenvolvimento do drama de José Raposo (como pai de Jorge), do miúdo David Semedo, da actriz brasileira Mariana Nunes — vimo-la em A Febre do Rato (2012), de Cláudio Assis, um dos grandes filmes brasileiros da actualidade — e do luso-francês Jean-Pierre Martins (A Gaiola Dourada).

JVM (em Veneza)

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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