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Gaza Meu Amor, em análise

Tarzan e Arab Nasser deram a conhecer ao mundo a história de “Gaza Meu Amor”, numa obra protagonizada por Salim Daw!

PALESTINIANO, FIRME E HIRTO. HOMEM DE PENSAMENTO LIVRE, NUM TERRITÓRIO SITIADO!

Palestiniano, pescador solitário, romântico e apaixonado, sonhador, com um subtil sentido de humor e um inegável carácter, firme e hirto como o deslumbrante membro erecto da estátua do deus Apolo que certo dia, ou melhor, certa noite, ele retira das perigosas e cercadas águas sombrias que banham a faixa de Gaza. Território que ele habita com as dificuldades inerentes ao dia a dia de um povo sitiado pela ocupação israelita. Estou a falar de Issa (interpretado com grande rigor, cuidada descontracção e contundente sentido de humor por Salim Daw), um dos protagonistas do filme GAZA, MON AMOUR (GAZA MEU AMOR), segunda longa-metragem dos irmãos Tarzan Nasser e Arab Nasser, produzida em 2020 e que agora chega aos ecrãs nacionais pela mão da ZERO EM COMPORTAMENTO.

Gaza Meu Amor
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Issa está perdido de amores por uma mulher, Siham (Hiam Abbas), que ganha a vida atrás do balcão de uma loja de moda feminina, para além de fazer um ou outro serviço de corte e costura. Siham, mesmo quando em público observa os códigos de conduta aceites pela sociedade que a rodeia, lá bem no fundo parece estar sempre prestes a quebrar a loiça, leia-se, a mudar de vida, a dar a si própria uma oportunidade de ser feliz, subvertendo as regras do jogo social e religioso. Perante a aproximação amorosa, mais ou menos singela, que Issa lhe faz, um rapapé de sedução por vezes muito atabalhoado que vai dar lugar a alguns episódios divertidos, meio caricatos na sua quase juvenil ingenuidade, se não corresponde imediatamente aos desejos do homem, sempre que esboça um ligeiro sorriso dá a perceber que até lhe sabe bem a atenção que o velho pescador e parceiro de mercado lhe atribui. Issa vende o peixe que pesca não muito longe da loja de Siham. No mercado, ele possui amigos e conhecidos com quem desabafa, mas nunca fala da sua secreta paixão. Fala do passado, fala do presente, ouve o que os comerciantes lhe dizem e aconselha os mais próximos a não acreditar em quimeras. Num desses encontros fala com um amigo que procura uma solução viável mas arriscada para melhorar as suas condições de vida, solução que passa pela fuga da faixa de Gaza para embarcar numa aventura que o leve dali para fora rumo ao “sonho” europeu. Europa, o apelo desse continente mais mitificado do que mítico, que impregna o pensamento dos palestinianos com sonhos e ilusões mas que, muitas vezes, acaba por fechar o paraíso sonhado na cara dos que lhe pedem refúgio e asilo. Isto se antes não encontrarem o inferno dos centros de detenção e não ficarem pelo caminho engolidos pelas águas do Mediterrâneo, como quase diariamente acontece. Precisamente dessas águas irá surgir aquilo que parecia ser a salvação económica do remediado pescador. Um acontecimento inesperado, que Issa interpreta como um sinal do destino, um golpe de sorte que pode mudar as suas rotinas quotidianas. De facto, numa das suas surtidas nocturnas para a faina da pesca, em vez de uma quantidade de peixe sai-lhe nas redes a estátua do deus Apolo.

Gaza Meu Amor
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Como dissemos em cima, com um pronunciamento priápico digno de um porn star estilo John C. Holmes. Com muito custo, Issa lá esconde a estátua na sua casa, não sem antes a deixar cair, facto que retira ao peso do bronze, sei lá, para aí um quilo do dito membro que, se devidamente avaliado e vendido a quem o apreciasse, provavelmente com justificada inveja, ainda podia valer umas massas. E meu dito, meu feito. Issa vai avaliar a “coisa” e o avaliador, com ar manhoso, acaba por denunciar a existência de algo estranho na posse de Issa que faz com que a polícia entre na sua casa para a revistar de alto a baixo. Finalmente, o velho pescador será acusado de reter obras de arte de valor incalculável, mas que ninguém sabe definir, e passa uns dias na cadeia. Daqui para a frente, deixo aos espectadores o prazer de se deleitarem com as peripécias vividas pelas numerosas e bem observadas personagens do filme, com especial destaque para a irmã de Issa, que não descansa enquanto não arranja uma mulher para casar com o irmão, mesmo que ele não queira ver nem saber de nenhuns dos coiros que ela lhe apresenta. Para além dela, muitos e bons são os protagonistas de diversas outras actividades que se cruzam com Issa. Nomeadamente, um chefe de polícia que destila poder fátuo, mas deveras incómodo para quem com ele se cruza e um representante de uma instituição oficial que imagina o que pode lucrar com a venda da estátua, mesmo que o avaliador oficial não lhe faça a vontade de revelar o que na sua opinião faria sentido pedir. Figuras controversas, sempre retratadas com a compreensão da sua natureza humana e das suas qualidades intrínsecas numa sociedade plena de contradições onde, para o melhor e o pior, estão inseridas até ao pescoço. No fundo, pessoas de carne e osso, iguais a quaisquer outras, quer elas vivam na Faixa de Gaza, em Israel… ou no fim do mundo. Esse constitui, para os devidos efeitos, um dos sinais mais positivos da visão singular com que este filme foi produzido e realizado. Mesmo quando existem sequências onde as questões políticas são mais prementes, nunca se dá dos palestinianos a noção de que se levantam diariamente a pensar na resistência armada a que são obrigados. São homens e mulheres, não necessariamente militantes, muito menos extremistas, são apenas e só o corpo e alma do povo palestiniano que há muito devia possuir as rédeas de uma nação que, por agora, se encontra ocupada. Mas os seus sonhos, amores e desamores e a sua esperança numa vida nova passam seguramente pela luta e afirmação da sua identidade sócio-cultural, mas igualmente pela paz de uma relação entre dois seres que, no final, juntos e algo escondidos num barco, atravessam as águas para além dos limites das milhas marítimas impostas por Israel. Nessa altura ouvem-se disparos e avisos da polícia israelita, mas os amantes seguem em frente e, nessa assombrada noite de núpcias, irão encontrar a felicidade que a sua condição humana nunca deixou de perseguir.

Gaza Meu Amor
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Um final que fala mais alto dos que as bombas e mísseis artesanais do Hamas e muito mais alto do que os bombardeamentos sistemáticos por parte da aviação do Estado de Israel. Na verdade, da próxima vez que ouvirmos falar deste conflito, lembremo-nos de Issa e Siham, ambos com um brilhozinho nos olhos, deitados na mesma cama, “enrolados” no ventre de um barco, sob as estrelas que pontuam o firmamento daquela faixa situada no Médio Oriente. Lembram-se de quem foi perseguido há mais de dois mil anos e que nasceu por aqueles lugares? Quem sabe se este ou outros casais mais novos não estarão a conceber, aqui e agora, um novo Messias ou um novo Profeta.

Gaza Meu Amor, em análise

Movie title: Gaza mon amour

Director(s): Tarzan e Arab Nasser

Actor(s): Salim Daw, Hiam Abbass, Maisa Abd Elhadi, George Iskandar, Manal Awad, Hitham Al Omari

Genre: Drama, 2020, 85min

  • João Garção Borges - 80
80

Conclusão:

PRÓS: Nota maior e generosa para a suprema alegria de ver como dois palestinianos da faixa de Gaza, os gémeos Tarzan e Arab Nasser, sabem que a melhor forma de apresentar e defender o seu povo não passa apenas pela legítima, mas igualmente redutora, condição de vítimas de uma situação que parece eternizar-se naquela região ocupada por Israel. Bem pelo contrário, as personagens que conceberam, quer como realizadores quer como argumentistas, são multifacetadas, plurais, contraditórias, frágeis e, por vezes, mesmo inseguras no seu percurso existencial. Não são personagens exemplares com certezas absolutas sobre as suas vidas nem sobre a vida colectiva do seu povo. Mas, precisamente por isso, o seu lado humano ganha uma inegável força e a nossa simpatia por elas acaba por se manifestar de forma mais sólida. Finalmente, no filme GAZA, MEU AMOR, AMOR rima com HUMOR, no contexto de uma narrativa inteligente, acutilante, que não esquece a realidade dos factos. Tudo para contrabalançar a nossa percepção de um conflito, sobretudo nos dias canalhas de conflitos de igual intensidade ou ainda mais canalhas. Felizmente, ainda há quem fale de coisas sérias, sem demagogias ou propaganda dúbia e sem pedir mais do que um abraço solidário.

Direcção de Fotografia compatível com o projecto proposto, responsabilidade de Christophe Graillot.

Trata-se de uma co-produção que envolve diversos países: Palestina, França, Alemanha, Qatar e Portugal, neste caso, com a participação da UKBAR FILMES. Há ainda a destacar, no que nos diz respeito, a participação financeira do ICA e da RTP.

CONTRA: Nada.

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