Georgia (foto de Joseph Connor)

Georgia à MHD | “Encontrei conforto na música”

Numa animada conversa com Georgia tivemos a oportunidade de percorrer o seu passado, explorar o próximo álbum e partilhar gostos pessoais. 

Na semana do lançamento do seu novo álbum, Georgia decidiu presentear-nos com mais um single, “24 Hours”. Este novo tema, que vem acompanhado de um vídeo realizado por Joseph Connor, mantém o registo eufórico que já transparecia em “Started Out”, “About Work The Dancefloor” e “Never Let You Go”. O novo álbum de Georgia, Seeking Thrills, será lançado já nesta sexta-feira, dia 10 de janeiro, via Domino. Foi sobre este novo registo e o processo que o concebeu que conversámos com a cantautora.

Georgia começou o seu caminho no mundo da música a tocar bateria para artistas como KwesKate Tempest, mas foi só em 2015 que se lançou sozinha com um álbum homónimo. Passados quatro anos está prestes a surgir o seu segundo álbum, Seeking Thrills, cujos singles nos têm vindo a contagiar ao longo deste ano.

Seeking Thrills nasce de um esforço por emergir de um período difícil e de uma transformação efetiva na vida de Georgia. Nesta tentativa a artista encontra-se imersa nos ritmos ferventes e melodias cativantes da dance music numa celebração eufórica que realça o momento presente. Mas perante este álbum concebido para “manter a emoção” e para a transmitir, começamos aos poucos a descobrir, juntamente com a própria cantora, escondidos por detrás dos ritmos borbulhantes e temas explosivos, versos melancólicos que espelham fragmentos de uma vida em mudança. Uma mudança que, afinal, mais não é do que um regresso às origens.

GEORGIA, SEEKING THRILLS | “24 HOURS”

MHD – Teres começado a carreira como baterista para outros artistas influenciou de algum modo a tua carreira atual? Ajudou-te?

Georgia – Sim, totalmente. A bateria foi uma maneira de facilitar a minha própria música, a razão por que me tornei uma baterista de estúdio. Adoro tocar bateria mas foi também para financiar a minha própria música. Mas as circunstâncias em que me encontrei e os artistas com que me descobri a tocar foram incrivelmente inspiradores. Aprendi tanto com o tocar com outras pessoas, penso que esta experiência fez parte da minha formação.

MHD – O que te levou a dar o primeiro passo e arriscar uma carreira a solo?

Georgia – Foi uma coisa que sempre planeei fazer. Mas suponho que me levou mais tempo a dar esse salto de fé, porque se pode ficar bastante confortável a desempenhar certos papéis. Ainda assim, ser uma musicista de estúdio é muito duro e, na realidade, embora andasse a tocar para artistas incríveis, financeiramente ia tendo altos e baixos, não havia maneira de encontrar estabilidade, era muito duro. Mas tive sempre em mente começar a minha própria carreira.

MHD – Li que algures entre o último álbum e este mudaste alguns dos teus hábitos: paraste de beber álcool, tornaste-te vegan e passaste a evitar alimentos com glúten. Estas alterações acarretaram alguma transformação profunda em ti?

Georgia – Sim, completamente. Tomei mesmo a decisão de me pôr em forma, perder peso, tornar-me saudável e orgulhar-me disse. Para mim comer faz provavelmente parte desta coisa de estar em controlo. Com o álcool foi a mesma coisa, suponho. Senti que tinha de ter mão nestas coisas para permitir que o processo criativo acontecesse da melhor forma possível. Penso que estas canções são um reflexo disso. A abordagem à composição deste álbum foi quase como a abordagem ao pôr-me em forma. Foi muito disciplinado. O cuidado com certos aspectos do processo criativo foi seguramente um reflexo do cuidado comigo mesma. Aprendi muito sobre mim ao fazer este álbum. É estranho. Ao falar com os jornalistas, como agora, olho para trás, para o tempo em que pensava “Estou a compor estas canções para documentar as emoções”, e começo a dar-me conta de que estas canções são um reflexo profundo da minha vida pessoal, projecções de mim mesma. É quase como se a música fosse um instrumento terapêutico.

MHD – Este é um álbum muito festivo e dançável. Porquê este investimento em ritmos tão ferventes e intensos?

Georgia – O meu pai toca numa banda e a minha mãe é também uma grande apaixonada de música, pelo que fui educada numa casa muito musical. Nos finais da década de 80, início dos 90, deu-se uma espécie de revolução musical no UK. Era como se a música rave, de dança, fizesse parte de toda a cultura. Mais do que apenas um movimento musical, era também quase um movimento cultural, que passou das caves ao grande público, e o meu pai fez parte dessa cena. Por isso, quando nasci na década de 90 fiz também parte dessa cena toda. Bateria, ritmo e baixo fazem na realidade parte da minha formação, porque fui criada na proximidade dessa cultura de ritmos rápidos e variadas linhas de baixo e sintetizadores. Quando estava a tentar encontrar a direcção para este novo álbum, a ponto de me pôr em forma e tudo isso, julgo que no fundo o que estava a fazer era a regressar às minhas origens, encontrar-me a mim própria. Pareceu-me mesmo interessante voltar aos criadores da música de dança, a Chicago e Detroit – havia cenas intituladas Chicago House e Detroit Techno que se deram no início dos 80 na América e que marcaram o início da música de dança. Na minha espécie de investigação deste movimento, da história da música de dança, descobri o meu gosto pelo ritmo.

SEEKING THRILLS | “STARTED OUT”

MHD – O título Seeking Thrills é uma homenagem perfeita à demanda hedonista. Este desejo entra na lógica epicurista? É esta uma exigência de prazer para te ajudar a “stop feeling that blue”?

Georgia – Penso que tenho de ler um pouco sobre isso.

MHD – Lembrei-me disto porque estou agora a ler Fernando Pessoa, um poeta português, e em alguns poemas ele pretende mostrar que acredita mesmo nesta lógica epicurista. Epicuro foi um filósofo grego que acreditava que a coisa mais importante que temos de fazer é procurar a felicidade, para o que é preciso focar-se no momento presente e nos seus prazeres.

Georgia – É mesmo isso, tens toda a razão. Quer dizer que ao longo da minha loucura, existe lógica, a lógica epicurista. Isso é completamente um dos aspectos do que estou a dizer em Seeking Thrills. Muito obrigado, isso é mesmo fixe.

MHD – Quem é este “tu” que interpelas ao longo do álbum, principalmente em “Honey Dripping Sky”?

Georgia – Bom, o “tu” representa parceiros, uma noção de amor e alguém próximo de nós. Não me refiro a ninguém em particular. Estou apenas a referir-me à ideia de amor e a explorar o tema da relação. Suponho que estou a tentar que o ouvinte se relacione pessoalmente com a canção. Todas as canções são bastante emotivas, não consigo provavelmente escrever uma canção que não seja emotiva, é muito difícil. Trata-se sobretudo de induzir no leitor um sentido pessoal emotivo por meio da canção.

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MHD – Depois da meditação em torno do divórcio dos teus pais, sentes-te capaz de acreditar no caráter eterno de uma relação? Pareces, pelo menos, acreditar que vale a pena esperar por alguém: “although your skies keep changing, I ‘ll still be waiting”.

Georgia – Sim, completamente. Penso, claro, que há escuridão na vida de toda a gente e que é um facto da vida que algumas relações acabam, mas penso que há também um caráter eterno, há sempre aquela pessoa que vem e deixa um impacto profundo em alguém. Não estou a dizer que uma coisa está certa e a outra não, mas a vida é mesmo assim, certo? Toda a gente passa por experiências diferentes e julgo que canções, a música, a arte são uma grande maneira de explorar todas estas emoções. Para mim é como uma espécie de terapia. Quando os meus pais estavam a atravessar esse período intenso, encontrei conforto na música. Fui capaz de explorar alguns desses temas que estava a testemunhar nestes seres humanos através da música e das letras. Sempre me interessei por artistas que pegam nisso e exploram-no por meio de canções, como a Joni Mitchell, a Kate Bush ou a Björk. A Björk é a rainha disto, consegue mesmo escrever álbuns de rompimento amoroso (não que este meu álbum o seja). Ela captura numa canção as emoções humanas com perfeita precisão. A Joni Mitchell é também uma rainha nisso e gosto da maneira como a Kate Bush explora tudo isto com música que é propriamente o contrário disso. E a música de dança é assim, as letras são muito melancólicas enquanto a música é muito positiva. Sempre tive interesse na união da luz e da escuridão numa única peça.

MHD – Em “Ultimate Sailor”, o ritmo abranda e a tua voz torna-se mais clara. Podes explicar a necessidade de um momento calmo que, de certo modo, sobressai do universo geral do álbum?

Georgia – Sim, isso veio de um real desejo de espacialidade no álbum. Gosto mesmo de álbuns que ao lado destes temas explosivos têm momentos de quase quietude. “Ultimate Sailor” foi uma canção em que consegui dizer isso, limitar-me a acalmar o ouvinte, dar-lhe um momento para respirar. Gosto mesmo desses momentos num álbum, onde se muda ligeiramente de direcção. Com essa canção também queria transportar o ouvinte num barco, a navegar pelo mar. Estava a tentar trazer esse isolamento para a canção, bem como a ideia de não ter medo do silêncio. O silêncio nessa canção ajuda a criar a atmosfera no seu todo.

MHD – Fala-me um pouco sobre as ideias e o processo por detrás do vídeo que acompanha “About Work The Dancefloor”. Gosto mesmo dele.

Georgia – Sim? Oh, que fixe! Foi uma ideia do realizador. Tratava-se na verdade de um excêntrico realizador espanhol, bastante interessado em explorar a ideia do interior de uma casa, uma relação onde qualquer coisa está a acontecer, mas na cave, onde há este escapismo. Era uma ideia bastante louca, mas acho que ele percebeu mesmo a música. Quando fui ter com ele, quase cantou a letra toda e penso que estava a tentar encontrar uma maneira interessante de apresentar a canção. Tinha esta ideia de criar um vídeo, era só um modelo. Eu actuava num ecrã verde e ele apenas me acrescentava a ele. Suponho que a casa seja uma metáfora da relação com alguém, é fixe. Para além disso, ele gosta mesmo de temas da década de 80 e queria tentar conseguir isso no ambiente do vídeo.

GEORGIA | “ABOUT WORK THE DANCEFLOOR”

MHD – Como aconteceu a capa do teu novo álbum ser uma fotografia da Nancy Honey?

Georgia – Sim, espectacular! Para o meu primeiro álbum também trabalhei com um fotógrafo e queríamos continuar a trabalhar com um fotógrafo, mas o Jamie estava demasiado ocupado e – da melhor maneira possível, ele é meu amigo – acabou por não resultar. Por isso tive um director artístico a ajudar-me com este álbum, que se chama Johnny Lou. Estávamos à procura em livros e vi o trabalho da Nancy e disse logo: “Wow, ela é incrível!” E o Johnny respondeu: “Vamos entrar em contacto com ela, enviamos-lhe um email, falamos-lhe sobre o álbum, enviamos-lhe as canções e vemos se ela gosta delas”. Ela telefonou de volta quase imediatamente e disse: “Adoro. Encontremo-nos. Venham a minha casa para continuarmos a conversa.” Por isso fomos ao andar dela, conversámos por algumas horas sobre arte, música e penso que ela simpatizou mesmo comigo, porque é uma mulher mais velha, um enigma na fotografia, mas tão influente.

É uma fotógrafa de fotógrafos, está nos seus 60 e forjou o seu caminho. Penso que simpatizou comigo porque sou uma mulher a tentar forjar o meu caminho. Ela editou uma série na década de 80 intitulada Women to Women. Foi para o norte de Inglaterra, para perto das comunidades de operários, tirou fotografias deles e essas imagens ecoaram mesmo em mim. O resto é história. É espantoso. Penso que a arte de capa, onde os miúdos estão no ar por um instante, resume a mensagem do álbum: o momento eufórico e a crença de viver no momento. Funcionou mesmo e estou tão contente que a Nancy faça parte da história toda porque é bom ter esta autenticidade no álbum.

MHD – Sei que tens aberto concertos de várias bandas. Como foi abrir concertos dos Interpol?

Georgia – Tem sido incrível! Sou uma enorme fã dos Interpol. Foi espetacular, como um sonho que se realizou. Eles são tão gentis! É uma audiência ligeiramente diferente para mim mas foi fixe encontrar-me com essa audiência.

(The interview’s original text is on the following page)

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