"Giants Being Lonely" | © LEFFEST

LEFFEST ’19 | Giants Being Lonely, em análise

O artista plástico Grear Patterson virou-se para a realização de cinema e assina, com “Giants Being Lonely”, a sua primeira longa-metragem. O filme está em competição no Lisbon & Sintra Film Festival.

Os anos da adolescência são a obsessão de muitos artistas. Trata-se de um período curto na nossa vida, mas é uma era marcante e transtornante. Tanto muda e tanto se transforma. De crianças ingénuas somos forçados a tornar-nos adultos, os corpos mutados na forma de alguém mais crescido que o menino que ainda vive na mente. Desejos novos explodem, criam cismas e a vontade por vezes é maior que a capacidade de cada um. Emoções são vividas à flor da pele e o mundo parece existir como uma indefinição sensorial a orbitar à volta de um sol de egocentrismo juvenil. Não admira que os artistas tanto se virem para esta fase da vida.

Ou somos jovens ou já fomos. Para todos os que vivem, esta é uma verdade absoluta, mesmo que as experiências de juventude possam ser muito distintas de pessoa para pessoa. No entanto, por muito que todos tenhamos passado pela metamorfose da adolescência, é fácil esquecermo-nos dos excessos dessa idade. O que parecia tão eletrizante na altura, depressa se torna numa memória nostálgica, um sonho mal lembrado, uma recordação distante. L.P. Hartley bem dizia que o passado é um país estrangeiro. O que é a adolescência senão o passado coletivo de todos os adultos?

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Adolescentes são aliens e são espectros de alguém que já fomos, são o desconhecido e o familiar, tudo concentrado num cocktail de contradições difíceis de entender. Considerando tudo isto, não admira que os artistas os queiram explorar, quais destemidos exploradores em busca de terras desconhecidas, quais exorcistas a tentar dominar os espíritos violentos dentro de nós. No cinema, tal exploração tem vindo a resultar em obras de particular valor e quantidade. Talvez isso provenha da condição do cinema enquanto entretenimento popular, talvez seja a sua conglomeração de possibilidades audiovisuais.

O que é certo, é que poucas artes conseguem tão bem evocar o fantasma da adolescência como o cinema. Terrence Malick e Gus van Sant, Gregg Araki e Richard Linklater, Sofia Coppola e outros que tais. Há imensos cineastas que já tentaram a sua sorte com tais temas e concretizaram autênticos milagres do grande ecrã. São majestosos feitos de imersão sensorial e arrebatamento emocional, são uma lembrança pessoal e uma memória generalizada, um golpe de autenticidade presente e um suspiro do passado. São tudo e são nada, são o cinema sobre o adolescente.

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Contudo, são o cinema do adolescente feito por adultos. É desse pormenor precioso que vêm os contrastes e incongruências do subgénero. Se fossem reais jovens a contar as suas próprias histórias, certamente não se pintariam a si mesmos com os tons de melancolia elegíaca que se encontram em filmes como “As Virgens Suicidas” e “Badlands”. Com “Giants Being Lonely”, Grear Patterson segue os exemplos desses filmes e acrescenta mais uma obra ao panteão do cinema da adolescência. Não há surpresas e os códigos habituais marcam presença, mas isso não significa que o projeto esteja isento de valor. Narrativamente, trata-se de um objeto bastante prosaico.

A ação passa-se na Carolina do Norte atual, no seio de uma comunidade suburbana. Aí se seguem as vidas de três adolescentes, dois rapazes que jogam basebol e a rapariga que forma com eles um triângulo romântico. São personagens esboçadas, dominadas por impulsos primordiais e pouco mais, presas numa espiral de tragédia improvável. De facto, ouvir os seus diálogos anódinos é algo que relembra o tédio de se estar sóbrio na companhia de bêbados verbosos. O que a primeira longa-metragem de Patterson carece em termos de originalidade textual, tem de sobras no que se refere a audácia formalista, primor visual e requinte sonoro.

giants being lonely critica leffest
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A câmara do realizador captura detalhes fragmentados e é capaz de tornar um toque no despoletar de uma reveria onírica. Os rituais do desporto são uma sinfonia de grandes planos entre cacifos, uma cacofonia de discursos gritados e o ritmo do jogo sofrido. O desejo que estas figuras sentem também se expressa através do engenho cinematográfico, com observações naturalistas a serem retorcidas pela montagem até resultarem num sopro de impressionismo hormonal. Tão etéreo é este mecanismo estilístico que as vidas retratadas no filme parecem quase abstratas, sonhos efémeros ao invés de uma realidade material. Esta abordagem fascina e hipnotiza, mas os seus limites são insuperáveis.

Pelo menos assim é quando o texto é tão anémico e os atores tão desinteressantes. Só o cancro da presença adulta dá interesse à história humana deste “Giants Being Lonely”. Mães de meia-idade dormem com os amigos do filho e patriarcas rabugentos são fonte de fúria constante. De repente, quando um homem levanta a voz, vemos uma tapeçaria de abuso e trauma intergeracional. É algo espantoso e calcinante, que dói e cura, como um ferro quente a cauterizar uma ferida pulsante. Não é suficiente para dar forma a esta experiência, mas quase lhe dá propósito. Por isso mesmo, ficamos em expetativa ansiosa pelo próximo filme de Grear Patterson. “Giants Being Lonely” mostra o potencial para a grandeza, não obstante a sua relativa pequenez.

Giants Being Lonely, em análise
giants being lonely critica leffest

Movie title: Giants Being Lonely

Date published: 2019-11-19

Director(s): Grear Patterson

Actor(s): Jack Irv, Ben Irving, Lily Gavin, Gabe Fazio, Amalia Culp, Tal Chatterjee, Alejandro Castro Arias, Joey Thurmond

Genre: Comédia, Drama, 2019, 101 min

  • Cláudio Alves - 65
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CONCLUSÃO:

“Giants Being Lonely” é um sonho de adolescência corrompida e há muito perdida. Formalmente, há uma leveza intoxicante ao projeto, uma qualidade etérea que é difícil de descrever, mas impressiona. O problema é o argumento simplista e a clarividente inexperiência de Grear Patterson a trabalhar com atores.

O MELHOR: A fotografia solarenga e difusa, os sons sussurrados que instalam um feitiço de intimidade e a montagem capaz de tornar o mundano num acontecimento mágico.

O PIOR: Os atores jovens são vácuos de carisma, totalmente incapazes de contribuir, aos seus papéis, a interioridade que o guião não tem a gentileza de fornecer.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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