"Greta" | © Queer Lisboa

Queer Lisboa ’19 | Greta, em análise

Greta” é um estudo sobre solidão e desejo, um filme brasileiro com ares de tragédia e as cores de um lúrido melodrama. A obra, realizada por Armando Praça, está em competição no Queer Lisboa 23.

Greta Garbo foi, em tempos, uma das maiores estrelas de Hollywood. Vinda da Suécia, ela era considerada uma beleza exótica seu sotaque escandinavo nunca desapareceu totalmente, nem mesmo depois de anos a interpretar heroínas americanas em tragédias sonoras. De facto, histórias trágicas eram a sua especialidade e, quando ela finalmente, fez uma comédia, até a publicidade dos filmes destacava a discrepância entre o humor e a persona soturna da estrela. O seu último filme, estreado em 1941, foi somente a sua segunda comédia e foi também um desastre crítico estrondoso.

Humilhada e cansada da máquina da fama que era a indústria cinematográfica, Greta Garbo, uma das maiores estrelas do mundo, reformou-se aos 36 anos, deixando 28 filmes completos. No crepúsculo dos anos 40, em pleno pós-guerra, Garbo ainda considerou voltar ao grande ecrã, mas o projeto acabou por não se concretizar e o único artefacto que nos resta dele são os testes de câmara que a atriz fez. Neles, Garbo aparece como nunca antes tinha aparecido, com as linhas de rugas já a se mostrarem por baixo de uma maquilhagem que, já na época, parecia antiquada.

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Nessas imagens, ela é luminosa e magnética, belíssima, mas já não é a mesma mulher que, em 1932, imortalizou a fala “Quero ficar sozinha” em “Grand Hotel”. O espectro desse envelhecimento e dessa fala, o espectro de Garbo, assombram o mais recente filme do cineasta brasileiro Armando Praça. “Greta” baseia-se numa peça de teatro dos anos 70, uma paródia cheia de caricaturas homofóbicas e humor crasso. Praça aborda a mesma história básica através do prisma do realismo emocional e o que aí encontra não é tanto humor, como é lágrimas.

O filme conta a história de Pedro, um enfermeiro brasileiro que toma conta de uma glamourosa mulher transgénero com o nome de Daniela. Ambos estes sujeitos estão já a aproximar-se do fim da vida e os seus corpos bem mostram o flagelo do tempo. No caso de Daniela, o tempo que lhe resta não será muito, sendo que o filme começa com uma viagem urgente ao hospital onde Pedro trabalha. Aí, o enfermeiro cruza-se com Jean, um criminoso jovem, belo e desesperado, com uma ferida sangrenta no torso esculpido e muitas súplicas na língua.

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Pedro liberta-o e deixa que ele se esconda no seu apartamento para fugir às autoridades. Contudo, Jean não é alguém que facilmente desaparece da vida de Pedro e o enfermeiro acaba por se ver na companhia de um novo colega de casa. Chantagens sexuais têm lugar e os dois homens acabam por forjar um peculiar romance que, de início, pode parecer transacional, mas gradualmente começa a ganhar ares de autenticidade sentimental. Jean é, aliás, a única pessoa que voluntariamente obedece aos desejos e fantasias do homem mais velho, chamando-lhe Greta Garbo durante o sexo.

Há algo de sórdido em toda esta situação, pelo que é fácil entender como tal conto pudesse ser a base de uma paródia cruel. O realizador, contudo, não se deixa ficar pelo superficial e disseca impiedosamente essa fantasia sexual no âmago do filme e tudo o que ela nos diz sobre Pedro. O enfermeiro gosta que lhe chamem Greta Garbo, gosta de ser venerado por corpos mais jovens e de, no meio do ato, dizer a frase imortal “Quero ficar sozinha”. Com essas palavras, Pedro parece tomar controlo da solidão que lhe consumiu a vida e corrói o espírito. Com essa fantasia, ele consegue ser dono de si mesmo e não uma vítima do tempo, do mundo e dos olhares cruéis daqueles ainda beijados pela flor da juventude.

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Greta Garbo podia ter qualquer um, mas ela queria era estar sozinha. Pedro diz isso mesmo durante o filme. Ele quer efetivamente ser como a diva do passado e estar sozinho por escolha e não por fado. Afinal, a vida nas margens da sociedade é uma vida solitária e é difícil imaginar alguém mais às margens que Pedro. Ele é homossexual e velho, sem família e sem amigos além de Daniela que o usa como um capataz mais do que como um companheiro. Ele não tem muito dinheiro e até a casa dele é ocasionalmente usurpada pela sua tirânica amiga. Pedro quer ser Garbo e escolher ausentar-se do grande ecrã porque não quer ser famosa e não porque as rugas lhe roubaram a imagem de marca. Ele quer mentir a si mesmo e acreditar.

Esta é uma história triste, mas também tem a sua beleza. Praça filma tudo como se tratasse de um sonho de Fassbinder, cheio de cores artificiais, todo o mundo em “Greta” é um clube noturno. O sexo é explícito e não simulado, é cru, e até os atores são estilisticamente inexpressivos, trespassando a aparência de ansiedade genuína e desconforto em frente à câmara. Tal cocktail nem sempre funciona e há passagens em que “Greta” parece um narcótico em forma de filme. No entanto, quando funciona, o filme é tão extraordinário como os screen tests de Garbo nos anos 40 – algo belo e magnético, que mostra o peso da idade e a resiliência do espírito em igual medida.

Greta, em análise
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Movie title: Greta

Date published: 2019-09-23

Director(s): Armando Praça

Actor(s): Marco Nanini, Denise Weinberg, Demick Lopes, Gretta Star

Genre: Drama, 2019, 97 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Greta” é sobre solidão e é sobre Greta Garbo, é sobre querer estar sozinha por escolha e não porque o mundo nos forçou ao isolamento social. Os riscos formais e tonais do filme nem sempre beneficiam o projeto. Contudo, assinalam-no como uma produção ambiciosa que merece aplausos pela sua audácia.

O MELHOR: O uso dos screen tests de Greta Garbo perto do final da narrativa funciona como um murro no peito para aqueles que conhecem o mito e o legado da atriz.

O PIOR: O ritmo letárgico de “Greta”.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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