Ana García Perrote (©Ana Viotti)

Hinds no Musicbox: Um raio de sol oriundo de terras castelhanas

Ainda que a inconsistência técnica e carência de identidade própria prevaleçam na sua música, as Hinds demonstram ter amadurecido como banda ao vivo, recorrendo a uma ousada e festiva performance para comprová-lo.

A cinco minutos da hora estabelecida para o encontro, o exíguo Musicbox já se encontra completamente lotado. À primeira vista, os copos de cerveja derramados, cigarros partilhados e discussões semi-intoxicadas parecem banalizar o facto de que um concerto esgotado está prestes a dar início na plataforma do clube lisboeta. Todavia, os ocasionais olhares de relance na direcção do palco comprovam exactamente o oposto – o comparecimento das Hinds e do seu fervoroso rock de garagem é severamente aguardado pela audiência farrista e motivo único para tal enchente.

Com apenas dois álbuns lançados até ao momento – Leave Me Alone (2016) e I Don’t Run (2018) – a banda de Carlotta Cosials (guitarra e vocais), Ana García Perrote (guitarra e vocais), Ade Martín (baixo e vocais de apoio) e Amber Grimbergen (bateria) já começa a cimentar a sua posição de destaque na actual indústria da música independente (em grande parte devido ao contracto assinado com a gravadora norte-americana Mom+Pop, que inclui bandas/ artistas como Courtney Barnett e FIDLAR no seu vasto catálogo), ainda que ambos os discos não tenham recebido a aprovação unânime da crítica e público (com muitas das apreciações negativas a destacarem a incapacidade do quarteto espanhol de se diferenciar, sonoramente, das suas inspirações musicais). Não obstante a divisão de opiniões quanto ao seu trabalho em estúdio, a música ao vivo das Hinds aparenta reunir consenso geral positivo ou, no mínimo, curiosidade e convicção de que possuem o que é necessário para proporcionar um prazenteiro e vibrante espectáculo (não há melhor presságio do que um recinto abarrotado de pessoas, numa noite de sexta-feira, quando as opções de lazer disponíveis no Cais do Sodré são abundantes e de carácter tão variado).

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As sorridentes madrilenas surgem em cena e, de imediato, conquistam a atenção e corações do público, que as saúda com um caloroso aplauso colectivo. Carlotta chega-se à frente das demais, empunhando, destemidamente, a guitarra eléctrica e em nome de toda a banda promete arrasar, mais uma vez, um espaço que já lhe é familiar e pelo qual nutre particular carinho (citando a artista: “uma gruta com pessoas a fumar lá dentro”). Ana – alma-gémea e eterna comadre na liderança do grupo – não tarda em juntar-se a seu lado, enquanto Ade vai praticando a célebre bassline de “Bamboo”. A falsa postura de rockstars é desmentida por constantes gargalhadas inocentes ou o zelo que têm em interagir com os espectadores como se de amigos chegados se tratassem. Um sujeito alvoroçado tenta a sua sorte e grita algo na direcção de Carlotta que, para seu pasmo, lhe responde de volta. A troca de palavras em espanhol é apurada por toda a audiência como um muito apreciado gesto de modéstia. De certo modo, as Hinds não pretendem ser levadas a sério. Muito menos veneradas. O seu principal objectivo é o de garantir que a boa-disposição e vivacidade que carregam nas suas almas nitidamente latinas são absorvidas, na íntegra, por cada uma das pessoas que hoje investiram e confiaram na qualidade da sua performance como colectivo.

Concluídas as primeiras confissões e folgadas convivências da noite, as muchachas recordam-se de que têm um concerto para dar. Pedem ao staff do Musicbox que intensifique a iluminação em palco, dialogam animadamente entre si por breves momentos e, para ânsia do público, liberam os acordes iniciais de “Soberland”, deixando-os vibrar, por todo o espaço, sob o formato de ardentes tons de Verão. Inevitavelmente, a temperatura do clube sobe e, com isso, os agasalhos começam a ser despidos, estando já grande parte da audiência de t-shirt aquando da transição do tema de abertura de I Don’t Run (e um dos pontos altos deste novo álbum, na minha opinião) para “Chili Town”  – presença habitual nos seus alinhamentos e apropriada sequela para o clima tropical que agora se vivencia no local. Este surf rock das Hinds – fortemente caracterizado por jangle guitars, harmonias desajeitadas, mas apaixonantes entre as duas vocalistas e letras sobre relações românticas mal-sucedidas, indecisões e emoções reprimidas – força-nos a recuar alguns meses no tempo; contrastando, assim, com as ondas de frio que se fazem sentir no exterior. O Musicbox torna-se num refúgio aquecido não só pelo produto musical em si, mas também por boas e más memórias associadas à estação passada, distintamente projectadas no conteúdo lírico do grupo.

Hinds (©Ana Viotti)

“Esta é a primeira vez que tocamos o novo disco em Portugal”, frisa Carlotta; assegurando, logo de seguida, que o alinhamento do concerto será composto por um misto de algumas das mais recentes canções com clássicos do álbum de estreia – declaração que parece convencer tanto os novos fãs, como aqueles que já acompanham o percurso das Hinds (ou Deers, como se chamavam inicialmente) desde a fase primordial da sua carreira.

A banda propõe-nos que bailemos ao som de “San Diego” e, de bom grado, acedemos ao pedido, decompondo-se então o recinto em múltiplas interpretações coreográficas (inclusive alguns slows íntimos, por inconcebível que pareça). O cambalear da guitarra como ponto de partida rítmico, aliado ao gradiente progressivo do baixo soam-me, de imediato, a uma combinação sonora que julgo já ter ouvido no passado (ou variantes suas). Eventualmente, chego à conclusão de que a resposta se encontra no instrumental de “We Saw Jerry’s Daughter”, sexta faixa do álbum homónimo dos Camper Van Beethoven, de 1986.

A associação entre as duas composições, ainda que ponderada no calor do momento e de carácter precipitado, auxilia na validação de um ponto que considero fulcral na análise ao processo criativo das Hinds. O conteúdo lançado pelas espanholas em nada é inovador. A sua fórmula consiste, exclusivamente, de indubitáveis adaptações de sonoridades passadas (daí a impossibilidade de ouvir as suas músicas como produtos isolados, já que inúmeras referências nos preenchem a mente ao primeiro acorde tocado). Há que reconhecer, contudo, uma certa perspicácia inerente ao seu método de trabalho. Tendo em conta a actual popularização dos “music genre revivals“, o poder de persuasão vinculado a tácticas de baixo risco e previamente testadas por outros artistas acaba por ser, certamente, um dos percursos mais apetecíveis e rentáveis a ter em consideração por bandas contemporâneas.

Ade Martín e Carlotta Cosials (©Ana Viotti)

Um muito bem recebido cover de “Spanish Bombs” (é sempre um deleite ouvir “the only band that mattered” e ver evocada a memória de Joe Strummer nas vozes de colegas de profissão), serve de acto introdutório para “British Mind”, a mais recente música das Hinds, lançada no passado mês de Outubro. Seguem-se “Easy” e “Garden”, tocadas back-to-back, duas fanfavorites incluídas no álbum de estreia. Os coffee-breaks entre hits revelam-se demasiado curtos para que sejamos capazes de recuperar o fôlego na totalidade. No entanto, este factor não aparenta ser razão suficientemente forte para que se gerem desistências, entre membros do público, no que toca à árdua tarefa de acompanhar o frenético ritmo da banda. As Hinds poderiam tocar, incansavelmente, durante horas a fio, que “la fiesta” prosseguiria com o mesmo ânimo e força de vontade inicial. Penso falar não só por mim, como por todos as almas boémias que me rodeiam na sala.

Visivelmente agradadas com a intrepidez e dedicação manifestadas no comportamento geral da audiência, as Hinds decidem presentear-nos com um breve momento de ócio (se assim lhe podemos chamar) sob o formato de uma balada à The Strokes (“Linda”) e do melancólico arranjo sonoro de “The Club”. O ritmo cardíaco cai para valores regulares. As cantorias persistem, agora de forma mais pessoal, dispensando miscigenação de vocais. Contudo, este muito necessitado interlúdio não tarda em terminar. “A partir de agora, só alegria”, avisa Carlota, dedicando “Tester” – música que, segundo a própria banda, quebra tabus directamente relacionados com a abordagem lírica, quando proferida de um ponto de vista feminino, a conceitos libertinos – a todas “las niñas” da primeira fila e convidando as restantes a dirigirem-se para a linha da frente, de modo a poderem participar e usufruir de uma afável condição de maior proximidade com a banda.

Com o concerto a terminar, as Hinds decidem libertar-se de quaisquer correntes que pudessem continuar a delimitar a sua (muito) genuína presença em palco e acomodam o público numa excepcional execução de “Bamboo” (e depois, na mesma onda, “Finally Floating”), caracterizada por rasgos de provocante espontaneidade e, acima de tudo, pela acentuada postura ibérica (identificável na propositadamente instaurada balbúrdia). O Musicbox transforma-se num bizarro concurso sem júri, que premeia os gemidos de volume mais elevado – banda enfrentando audiência. Ana García Perrote entusiasma-se perante este cenário e, aquando da transição para “Davey Crockett”, cover de música das Thee Headcotees, banda de rock de garagem dos anos 90, desce a plataforma do Musicbox, aproximando-se do aglomerado de pessoas compactamente pressionadas contra a grade, enquanto grita a letra (ou compostos de palavras que se assemelham a tal) em conjunto com os excêntricos fãs.

Ana García Perrote (©Ana Viotti)

O elaborado planeamento prévio do encore que fecha o espectáculo – “second-coming” introduzido por um retorno, coreografado, ao som de “Always Look on The Bright Side of Life” (clássico dos Monty Python); uma secção dedicada, unicamente, a caricatas poses para que a audiência possa captar a essencial “band photo” das espanholas com os seus respectivos instrumentos (atitude que transparece, mais uma vez, a ironia com que encaram o “factor estrelado”, associado de modo intrínseco à indústria da música) e ainda a performance de “Castigadas en el Granero” e, por último, de “New For You” – comprova uma enorme convicção, por parte da banda, de que, depois da sua turbulenta interpretação de “Davey Crockett”, abandonariam o palco sob um assegurado pandemónio de aplausos, assobios e desesperados pedidos pelo seu regresso, tendo-se confirmado tudo isto (como seria de prever).

Concluído o encore, as Hinds abandonam, de vez, o Musicbox, agradecendo ao público todo o apoio prestado durante esta intensa noite (“E não se esqueçam de ver sempre o mundo pelo lado positivo”, relembra Carlotta). Olhamos a plataforma (agora vazia) e não podemos deixar de sentir um certo desgosto – todos gostaríamos que o ambiente proporcionado pela banda se pudesse prolongar, no mínimo, pela madrugada adentro. No entanto, tudo o que é bom, a meu ver, deve ter um fim. De que outra forma poderíamos usufruir da poética sensação de nostalgia inerente aos belíssimos agregados de memórias que vamos compondo, em sintonia, com a passagem do tempo e a sua vivência? Daqui a muitos anos, se questionado, direi que recordo as Hinds e a sua música com afeição. Não pela perícia técnica, concepção lírica ou contribuição para uma renovação interna do ramo da música. Antes, por este admirável concerto no Musicbox, onde reconheceram e jogaram com as suas fragilidades, elevaram a audiência, humildemente, ao seu próprio pedestal e aqueceram, manualmente, uma sala inteira, anteriormente dominada pelas correntes frias do exterior. Acima de tudo, a Música, como qualquer peça artística, sente-se. E as Hinds fizeram-se sentir nesta noite de Novembro.

HINDS | MUSICBOX 9 NOVEMBRO 2018

Hinds no Musicbox: Um raio de sol oriundo de terras castelhanas
  • Diogo Álvares Pereira - 85
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Diogo Pereira

Ex-Farmacêutico que envergou pela rota da Sétima Arte. Cinema, Música, Literatura e Filosofia são as minhas áreas de eleição (excepto quando joga o Sporting). Devaneador por natureza, abraço a ideia de que as grandes viagens se desenrolam no cerne do ser.

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