Kurt Vile, Bottle It In | em análise

Kurt Vile continua a elevar-se em cada álbum que compõe. Bottle It In é o oitavo e possivelmente o melhor álbum de estúdio até hoje.

Depois da colaboração com Courtney Barnett em Lotta Sea Lice no ano passado, Kurt Vile, multi-instrumentalista, ex-guitarrista de The War On Drugs, a 12 de Outubro lança Bottle It In, mais um álbum com o seu grupo The ViolatorsCom a etiqueta da Matador Records desde 2009, Kurt Vile aspira a lançar a sua obra-prima. O próprio o define como o seu “melhor, mais profundo (e possivelmente mais esquisito) álbum até hoje ”, uma afirmação ousada, tendo em conta o crescente êxito dos seus dois últimos álbuns, Wakin On A Pretty Daze e b’lieve i’m goin down…. Ainda assim, tem razão no que afirma. A sua fama cresce e os álbuns que saem acompanham a ambição em qualidade.

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Por detrás de um imenso cabelo despenteado, caído sobre os ombros, descortinamos um sorriso e um olhar que diz: bottle it in! Não temos alternativa senão soltar a rolha e engarrafarmo-nos com 1 hora e 19 minutos de Kurt Vile. Para um mundo com cada vez menos capacidade de atenção, é bastante para digerir, tanto tempo condensado em apenas 13 canções, algumas a exceder os 10 minutos. Prolongam-se quase como se, a certa altura, os músicos se tivessem esquecido de que ainda estavam a gravar, absortos nos seus instrumentos. Também rapidamente o ouvinte se sente atraído por esses mesmos instrumentos e os 80 minutos passam num piscar de olhos. A hipnótica “Bassackwards”, a canção mais longa, apresenta-se como uma compilação de devaneios matinais, onde o passar do tempo é um tema central: “I was on the ground, lookin’ straight into the sun/But the sun went down and I couldn’t find another one… for a while”. A sua música é um estilo de vida, uma atitude. Assim, 10 minutos não é muito tempo. Depois de ouvida pela primeira vez, torna-se tempo de tal maneira insuficiente que é preciso ouvir de novo. Percorrendo a estrada na bicicleta, carro ou skate, “Bassackwards” (ou mesmo todo o álbum) é música de fundo na viagem da vida.

KURT VILE, BOTTLE IT IN | “BASSACKWARDS”

As letras das canções são uma janela aberta para a mente de Kurt Vile, esta que não se deixa toldar por emoções ou pensamentos negros. Procura o conforto, afastando a ansiedade. Entre ocasionais interjeições e assobios, a voz é casual, como quem conta o que tem feito aos sábados à tarde. As rimas arrastam-se num sotaque carregado de musicalidade. A bateria, acompanhada pelo baixo, estabelece um ritmo agradavelmente cardíaco, mantendo vivas as canções. O que não permite que a melancolia impere são as melodias, habilmente dedilhadas na guitarra, vindas da alma. O ambiente revela-se descontraído, transborda espontaneidade e ao mesmo tempo uma infantil atitude preguiçosa e despreocupada. Kurt Vile aplica ao álbum a fórmula do seu maior êxito, “Pretty Pimpin’,” e sofistica-a, criando instrumentais complexos. O devaneio do tema titular desenrola-se ao som da harpa de Mary Lattimore; em “Come Again” a guitarra cede o lugar ao banjo; um penetrante eco electrónico introduz “Check Baby” – que recua para segundo plano para dar espaço ao mais ambicioso trabalho de guitarra de todo o álbum.

KURT VILE, BOTTLE IT IN | “ONE TRICK PONIES”

A preguiça e infantilidade que demonstra nada mais é do que fachada. Desde 2008 que Kurt Vile não deixa passar mais de um ano sem lançar um álbum, o que pelo contrário demonstra seriedade, dedicação e profissionalismo da sua parte. Fundem-se Neil Young e Tom Petty num só; um Lou Reed sem o lado depressivo. Como se todos estes gigantes vivessem dentro dele, prometendo chegar onde no seu tempo não conseguiram, agora na pele de Kurt Vile. Nem demasiado, nem aquém, Bottle It In é uma injecção de boa disposição que contagia todos os que o ousam ouvir.

KURT VILE, BOTTLE IT IN | AO VIVO

Kurt Vile, Bottle It In | em análise
Kurt vile - Bottle It In

Name: Bottle It In

Author: Kurt Vile

Genre: Indie-rock, Indie-folk, Lo-fi

Date published: 2018-10-12

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  • Tomás Marques Pereira - 86
  • Maria Pacheco de Amorim - 81
  • Rui Ribeiro - 86
84

Um resumo

Bottle It In surpreende o ouvinte: o que a priori parece intenso e condensado transforma-se numa experiência fluida e relaxada.

Tomás Marques Pereira

Vindo da galáxia da História da Arte, tenho um gosto particular por música (tudo o que envolva o triângulo amoroso entre bateria, baixo e guitarra). Disposto a viajar ao passado para visitar um clássico, mais disposto ainda em percorrer as órbitas do presente para conversar sobre os artistas do futuro.

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