LEFFEST ’18 | Blaze, em análise

Blaze Foley foi um cantor americano que, nos anos 70 e 80, compôs inúmeras canções que se viriam a tornar standards da música country, muito depois de o seu definhar, do seu fracasso e do seu assassinato. Ethan Hawke traz esta história ao grande ecrã em “Blaze”, um dos filmes em competição no Lisbon & Sintra Film Festival.

Docudramas biográficos sobre músicos há muitos. Ainda este ano, “Bohemian Rhapsody” tomou de assalto os cinemas e, apesar de más críticas, tem-se provado um fenómeno comercial. Tantos são os filmes neste modelo, que quase os poderíamos definir como um subgénero, o “biopic musical”, sempre com as mesmas fórmulas, estruturas e mecanismos. A uniformidade geral destes projetos é tão grande, que, quando um aparece e decide violar os cânones da tradição, esse filme passa imediatamente a ser merecedor de admiração. Assim é “Blaze”, uma biografia cinematográfica do cantor americano Blaze Foley assinada pelo ator tornado realizador Ethan Hawke, que, na sua fuga da tentação sedutora dessas fórmulas, dá ao filme uma estrutura a meio caminho entre a inspiração e a demência.

Trata-se de uma Matrioska de flashbacks e flashforwards, de memórias e premonições, que Hawke utiliza para conceber uma espécie de mosaico estilhaçado da vida desse artista country que nunca ansiou ser uma estrela, mas queria tornar-se numa lenda. Não que, verdade seja dita, os primeiros instantes da fita sugiram essa mesma inovação. Aí, encontramos Townes Van Zandt a promover o seu novo álbum na companhia do tocador de harmónica que acompanhava Foley, Zee. Os dois antigos camaradas do ícone titular estão a ser entrevistados, talvez para um programa de rádio, quando a ignorância do entrevistador face a Blaze Foley os propulsiona num exercício de reminiscência nostálgica.

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Uma biopic fora do comum.

Daí, “Blaze” salta no tempo e chega ao dia do último e mais famoso concerto do músico, um espetáculo humilde e com pouca audiência que viria a ganhar estatuto mítico na forma de uma gravação. Não demora muito, contudo, até que essa reminiscência dê lugar a mais memórias exumadas, desta vez do cantor em si em recordação dos seus dias na companhia da ex-mulher, Sybil Rosen. Se tal confusão de saltitos cronológicos não bastasse, a certa altura, há o advento de ainda mais uma linha narrativa a telegrafar os esforços profissionais e fracassos de Foley antes da sua morte prematura.

A cereja no topo do bolo é o facto que, tirando a entrevista, os fios desta tapeçaria parecem seguir uma ordem ditada pela emoção e não pela lógica causal, resultando em algo que parece um sonho de uma vida passada, incoerente e fluido até que tudo coalesce num final trágico. É um verdadeiro milagre de montagem intuitiva e sagacidade tonal que o edifício do filme não ceda perante a descabida ambição desta amorfia textual. Talvez aí o crédito pertença sobretudo a Rosen, que escreveu o filme juntamente com Hawke baseando-se na sua própria autobiografia.

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De facto, a figura de Rosen é a cola que une todas as partes díspares de “Blaze” e, no fim, lhes confere integridade emocional. A sua relação com Foley não é muito explorada consoante as convenções do romance filmado, preferindo existir no espaço perdido entre montagens de momentos fulcrais e na observação de passagens corriqueiras da sua existência. Pode ser difícil entender as razões que levaram a que os dois amantes se apaixonassem, mas sentimos o afeto que tinham um pelo outro no conforto dos atores, na facilidade com que trocam palavras e partilham silêncios. Pela mesma lógica, nunca testemunhamos a separação, mas temos fragmentos de vida que nos permitem entendê-la a um nível que transcende o facto frio.

Nada disso seria possível, é claro, sem a mestria dos atores em cena. Como Sybil, Alia Shawkat é o coração e a alma do filme, dando-lhe uma espinha dorsal de tom e sentimento que ancoram o espectador até nos momentos em que a estrutura do filme mais se desenrola em ímpetos de ilegibilidade dramática. Um diálogo com os pais judeus de Rosen é particularmente extraordinária devido à maleabilidade expressiva da atriz, que ilustra todo um arco dramático na certeza dura da sua voz, nos rasgos de sorrisos que tenta esconder e no cocktail de rigidez e relaxamento na linha dos seus ombros. A figura da namorada que muito sofre às mãos do artista incompreendido pode ser um cliché, mas Shawkat é capaz de elevar a sua personagem acima de tais mediocridades.

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Ben Dickey é fantástico no papel titular.

Num registo de híper mimese muito mais vistosa que o naturalismo casual e poderoso de Shawkat está Ben Dickey. Também ele um músico, é fácil ver como Dickey transmite ao espectador uma segurança imensa em palco, tanto em canção como durante os monólogos proto filosóficos de Foley. Contudo, o trabalho do ator transcende tais especificidades, edificando aqui um retrato tridimensional de um indivíduo complicado e contraditório, cuja afabilidade rapidamente dá lugar aos devaneios violentos de um bêbado e vice-versa. Hawke está pouco interessado em traçar perfis psicológicos de grande claridade, preferindo observar passivamente, e cabe assim a Dickey fornecer a interioridade da personagem. Felizmente para Hawke, o realizador confiou no intérprete certo.

Nem tudo é perfeito, é claro, sendo que a entrevista em rádio é um desperdício de tempo e a inclusão de um trio de cowboys executivos interpretados por uma inesperada trupe de caras famosas constitui um escabroso passo em falso. Os estilhaços estruturais são audazes na sua fuga à convenção, mas suscitam o advento da repetição e consequentemente do tédio. A segunda hora de “Blaze” é particularmente soporífera, não fossem as suas passagens finais. Aí sim, todo o exercício de Hawke mostra o poder visceral que tinha estado até então a fermentar entre montagens musicais e solarengos tableaux em âmbar e cedro.

De repente, o realizador mostra-nos a sagacidade visual que tem no seu arsenal, sugerindo-nos toda uma viagem física e emocional numa sombra sobre um comboio e toda uma ópera de fatalismo na dança entrecortada entre um homem que morre sozinho na rua e a mulher que o amou. “Blaze” beneficiaria muito por mais uma judiciosa montagem que cortasse os seus aspetos mais desnecessários. Contudo, de forma geral, momentos como esse clímax fatalista e as prestações formidáveis no seu centro, fazem deste biopic uma obra admirável e valiosa, mesmo que tremendamente imperfeita e não pouco entediante.

Blaze, em análise
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Movie title: Blaze

Date published: 2018-11-17

Director(s): Ethan Hawke

Actor(s): Ben Dickey, Alia Shawkat, Charlie Sexton, Josh Hamilton, Kris Kristofferson, Richard Linklater, Sam Rockwell, Steve Zahn, Ethan Hawke

Genre: Biografia, Drama, Música, 2018, 129 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO

Um hino operático e melancólico a uma estrela que nunca foi estrela, mas que talvez venha a ser uma lenda. “Blaze” é uma admirável variação do biopic musical que tende a cair nas indulgências estilísticas do seu realizador, apesar de manter sempre uma integridade emocional que lhe dá poder e acaba por culminar num final que merece aplausos.

O MELHOR: Shawkat numa das melhores prestações da sua promissora carreira.

O PIOR: A entrevista na rádio torna-se crescentemente obsoleta à medida que o enredo avança e devia era ter sido excisada do filme logo à partida.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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