A polícia é Sung-ae, é vivida por Jung Ho-yeon, a estrela de “Squid Game”. ©Hope/Noen

Com “Hope” o realizador coreano Na Hong-jin regressa dez anos depois de “The Wailing – O Lamento” agora com 160 minutos de caos, humor negro, ficção científica, aldeões em pânico e a prova de que o cinema popular também sabe entrar em Cannes pela porta grande, mesmo que seja para a arrombar.

Durante dias, Cannes parecia entretida com os seus dramas familiares, os seus silêncios dolorosos, os seus planos longos e aquelas personagens introspectivas que olham para o mar. Ontem à noite chegou “Hope”, do coreano Na Hong-jin, e foi como se alguém tivesse atirado uma granada para dentro de uma sessão de psicoterapia: uma aldeia perto da zona desmilitarizada entre as duas Coreias, um animal morto, rumores de um tigre, comunicações cortadas, polícias em aflição, caçadores cheios de confiança e uma criatura que, como quase sempre no cinema, não leu o regulamento municipal e parte tudo.

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O tigre era só o aperitivo

A premissa podia ser simples: aparece uma ameaça numa localidade costeira chamada Hope Harbor e instala-se o pandemónio. Mas com Na Hong-jin nada é simples. O realizador de “The Chaser – O Caçador”, “The Yellow Sea – O Mar Amarelo” e “The Wailing – O Lamento” não filma um susto como quem toca à campainha. Filma-o como quem invade a casa, parte a loiça, assusta a avó, rouba o carro e ainda deixa uma nota a dizer que podia ter sido pior. “Hope” começa quase como uma investigação policial rural, mas depressa se transforma numa centrifugadora de géneros: thriller, terror, ficção científica, comédia negra, filme de catástrofe, western florestal e, já agora, uma espécie de “A Guerra dos Mundos” com arroz, tiros, más decisões humanas e muita adrenalina durante 160 minutos de duração.

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O polícia, a aldeia e a estupidez humana

No centro da confusão está Bum-seok, um chefe de polícia local interpretado por Hwang Jung-min, um homem que tenta manter a dignidade enquanto tudo à sua volta sugere que a própria dignidade já perdeu a esperança e devia ter fugido no primeiro autocarro de serviço. Ao lado dele surge Sung-ae, vivida por Jung Ho-yeon, estrela de “Squid Game”, aqui numa versão absolutamente deliciosa de polícia furiosa, equipada com armas, insultos e uma paciência muito limitada para monstros que não respeitam a propriedade privada. Ela não entra em cena: aterra e dispara com violência. E quando uma personagem assim aparece, o espectador percebe que o sossego acabou e começou o entretenimento.

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A melhor piada de “Hope” está talvez no facto de quase toda a gente estar errada quase sempre. Primeiro é um tigre. Depois talvez não. Depois há quem ache que basta ir à montanha com armas. Depois percebe-se que o problema não é só o bicho, mas a extraordinária capacidade humana para piorar tudo. A ignorância, planta a semente da desgraça. E o filme leva isso muito a sério, mesmo quando está a fazer-nos rir com gente aos gritos, carros destruídos e personagens que se comportam como se o manual de sobrevivência tivesse sido escrito por um bêbedo num churrasco.

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VÊ TRAILER DE “HOPE”

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Na Hong-jin domina como poucos essa mistura tão coreana entre tragédia, pancadaria e humor escuro. O cinema popular sul-coreano sabe uma coisa que muito cinema europeu esqueceu: o ridículo não anula o horror. Pelo contrário, torna-o mais humano. Há sempre alguém que grita demasiado, dispara cedo demais, percebe tarde demais ou faz a pergunta errada no momento em que devia estar a fugir. E é aí que “Hope” ganha nervo. Não é apenas um filme sobre monstros. É um filme sobre a nossa dificuldade em reconhecer o monstro quando ele não vem com um letreiro ao peito.

Fassbender, Vikander e a terapia conjugal extraterrestre

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Depois há o chamariz internacional. Michael Fassbender e Alicia Vikander, casal na vida real, voltam a aparecer no mesmo filme dez anos depois de “A Luz Entre os Oceanos”. Só que quem espera reencontros românticos, olhares húmidos ou conversas conjugais ao pôr-do-sol pode ir buscar o calmante. Na Hong-jin não os chama para salvar um casamento; chama-os para entrar numa mitologia extraterrestre onde os actores ocidentais surgem transformados em presenças estranhas, quase irreconhecíveis, mais próximas de deuses alienígenas do que de estrelas de passadeira vermelha.

É uma bela inversão. Durante décadas, Hollywood tratou actores asiáticos como figuras exóticas, laterais ou decorativas. Aqui, o cinema coreano pega em estrelas ocidentais e diz-lhes: “Muito bem, agora vocês são os outros.” Não sei se é vingança histórica, ironia fina ou apenas uma decisão de casting muito divertida, mas funciona como gesto simbólico. Fassbender, Vikander e Taylor Russell trazem escala internacional ao filme, mas também reforçam a ideia de que “Hope” quer ser maior do que uma aldeia atacada por criaturas. Quer abrir uma porta para uma mitologia, talvez para uma trilogia, talvez para esse território perigoso onde os filmes começam a pensar no futuro antes de resolverem o presente. Mas enfim, em Cannes também há quem pense na segunda garrafa de rosé antes de acabar a primeira, portanto não sejamos moralistas.

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Cannes acordou e levou com um monstro na cabeça

“Hope” não é evidentemente um filme perfeito, e ainda bem. Filmes destes, quando são perfeitos, costumam estar mortos por dentro. Este é excessivo, irregular, comprido, histérico, às vezes demasiado enamorado da sua própria escala. Há momentos em que os efeitos digitais parecem correr atrás da ambição sem a conseguir apanhar completamente. Há uma parte intermédia, um pouco aborrecida, que ameaça perder-se na floresta. Há ideias a mais, monstros a mais, mitologia a mais. Mas também há energia, invenção, sentido de espectáculo, humor, velocidade, uma realização de mão cheia e aquela alegria rara de ver um cineasta a brincar com brinquedos caros mostrando que também se está a divertir.

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Hope
“Hope” é uma centrifugadora de géneros: thriller, terror, ficção científica, comédia negra, filme de catástrofe, western florestal. ©Hope/Neon

E essa é a grande notícia: Cannes voltou a abrir espaço, na Competição, para um filme popular sem vergonha de o ser. Depois de “Parasitas” ter conquistado a Palma de Ouro e o mundo, depois de Park Chan-wook ter refinado o veneno em “Oldboy – Velho Amigo” e “Decisão de Partir”, depois de “Squid Game” ter transformado a cultura coreana num fenómeno global, “Hope” chega como novo sinal de vitalidade: o cinema sul-coreano continua a saber fazer filmes que pensam, correm, mordem, gozam e vendem bilhetes. Não é pouco. Sobretudo grande parte do cinema de autor parece ter medo de suar.

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Na Hong-jin regressa dez anos depois de “The Wailing-O Lamento” e regressa como se tivesse passado esse tempo todo a acumular raiva, ideias, criaturas e cenas de acção num armazém ilegal. “Hope” pode dividir Cannes, pode irritar os puristas, pode entusiasmar quem ainda acredita que a palavra “popular” não é insulto. Mas uma coisa é certa: num festival que às vezes confunde solenidade com profundidade, este filme chega como um animal indisciplinado, para morder em todos. Derruba a cerca, entra na sala, assusta os convidados e os críticos e lembra-nos que o cinema também existe para isto: para nos fazer rir, saltar, duvidar, fechar os olhos e abri-los logo a seguir porque, afinal, não queremos perder nada.

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