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Decisão de Partir, em análise

Tang Wei e Park Hae-il protagonizam “Decisão de Partir”, o mais recente filme do realizador Park Chan-wook.

SOBRE A ARTE DE BEM COMPLICAR EM TODA A SUPERFÍCIE DA TELA…!

DECISÃO DE PARTIR
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Notem que na referência genérica que escolhi para esta crítica ao filme HEOJIL KYOLSHIM (DECISÃO DE PARTIR), 2022, com realização e argumento do sul-coreano Park Chan-wook, não me refiro a uma qualquer arte de complicar por complicar, mas sim a uma arte, digamos assim, mais refinada de BEM complicar, usando para isso o realizador as circunvoluções narrativas e as potencialidades da fragmentação gráfica da TELA, na extensão global da sua superfície delimitada pelas dimensões de um grande ecrã. Trata-se na prática de um dos modelos de aproximação ao processo criativo que nos permite ler, por vezes com múltiplos pontos de vista e noutros casos de forma linear, o fluxo ficcional de uma obra onde, nas diversas sequências que o estruturam, se destacam planos compostos por diferentes camadas de percepção áudio e visual. Como exercício puro de cinema não está nada mal. Por isso não deve estranhar-se o Prémio para a Melhor Realização que DECISÃO DE PARTIR recebeu no Festival de Cannes em 2022. No campo da pura fruição cinéfila já não se pode dizer o mesmo: um filme que podia ser contado em hora e meia, na verdade até em menos, arrasta-se para além do que seria expectável nos seus 138 minutos, sobretudo se pensarmos o valor do espaço fílmico remanescente face ao desenvolvimento daquilo que na primeira metade do filme ficamos a saber e que, a partir desse ponto de viragem, já sabemos de cor e salteado. Trata-se na verdade de uma decisão de partir, leia-se, não com o sentido de sair de algum lado e muito menos de quebrar o que quer que seja, mas sim o de separar as águas, o de procurar uma outra via, novos rumos, que não obstante não fiquem apenas pelo quadro de relações ficcionais dos protagonistas. Em DECISÃO DE PARTIR, por um lado, iremos acompanhar o percurso de um detective com qualquer coisa de frustrado e de voyeur, Hae-jun (Park Hae-il) e, por outro, as sinuosas manobras existenciais de uma intrigante mulher, aparentemente de origem chinesa, Seo-rae (Tang Wei). Mas o realizador e o seu co-argumentista, Jeong Seo-Kyeong, não se ficaram pela exposição do possível e até certo ponto previsível cruzamento dos seus percursos individuais numa vulgar investigação policial, em que o crime e castigo pudessem prevalecer como matéria primordial, preferindo antes investir num envolvimento emocional daquelas duas figuras que gradualmente serão empurradas para um círculo íntimo comum e cada vez mais fechado, apesar das numerosas escapatórias, curvas e contra-curvas do argumento.

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Neste processo, a atmosfera do filme adquire um curioso e contundente perfil melodramático, mas nada romântico, ao contrário do que o marketing faz crer para vender o filme como sendo uma sublime história de amor. De facto, se quisermos falar de amor a propósito de DECISÃO DE PARTIR, seria melhor inscrever esse conceito ou sentimento na categoria de amor louco, aqui combinado com uma espécie de amor mórbido, fruto das contradições que explodem no seio e nos contextos paralelos dos círculos mais ou menos familiares, quer de Hae-Jun quer de Seo-era, algo que a realização de Park Chan-wook quis introduzir de forma material e espiritual na definição dos pressupostos ficcionais da sua obra. Para isso, usou da mais profunda energia cinematográfica como se fosse uma corrente que atravessa as águas revoltas de um oceano arrastando os navios em apuros e os náufragos marinheiros na direcção que eles menos esperam, neste caso, múltiplas correntes definidas pela planificação fílmica de um argumento literário que polariza as forças maiores que estimulam a acção. No final das contas, DECISÃO DE PARTIR pode ser visto como o filme de uma separação não consumada, não por causa da colisão existencial de cada um, nem pelas mortes que se vão sucedendo, umas atrás das outras, mas pelo mosaico ficcional que culmina de forma exuberante numa intrigante e enigmática sequência em que a separação finalmente acontece, sem que o espectador a possa confirmar. Numa recente entrevista, disse o realizador: Quando eles (o homem, Hae-Jun, e a mulher, Seo-era) dizem: “Isto connosco não vai resultar”, ambos decidem acabar a relação. Mas embora exprimam essa intenção de forma resoluta, vista de fora ela não parece muito convincente. Eles podem ter desejado e decidido separar-se mas, porque no fundo não se querem separar, DECISÃO DE PARTIR sugere que eles não vão conseguir separar-se. Esclarecidos? Eu avisei que estamos perante uma arte subtil de BEM complicar. Para melhor compreenderem a razão de ser desta opção, falemos agora dos principais conflitos dramáticos que nos são dados a conhecer. Tudo começa com a queda de um senhor de certa idade do alto de uma formação rochosa. Este homem, que se dedica ao alpinismo há já alguns anos, possui a experiência necessária e suficiente para escalar o que parece ser um autêntico falo de pedra. Mas, certo dia, cai das alturas e pouco depois será encontrado morto, esmagado no solo, com formigas e outra bicharada a invadir-lhe a boca e os olhos. Numa primeira abordagem parecia ser um acidente natural mas, não obstante, o caso vai levantar suspeitas e provocar uma legítima investigação para se apurar se houve ou não alguma possibilidade da queda ser consequência de um crime. Será aqui que entra o detective Hae-Jun e logo a seguir a mulher do falecido, a misteriosa Seo-era.

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Munidos do melhor software e hardware, a polícia e os investigadores convocam a dita chinesa para prestar declarações, e ela mostra-se impassível perante a morte do marido, chega mesmo a rir de uma ou outra situação descrita e, acto contínuo, fica logo referenciada como suspeita na cabeça do detective, assim como na cabeça dos espectadores. Para além disso, há inúmeros sinais que não favorecem a sua presunção de inocência, a saber, a pronunciada ferida de um arranhão na mão, nódoas negras no corpo e uma marca cravada na pele que indica que ela seria propriedade de alguém. E de quem? Bom, o malogrado alpinista fora empregado nos serviços de imigração sul-coreanos, o seu nome era Ki Do Soo, e Ki era o nome que a marca punha em evidência. Será pois com estes diferentes estigmas em cima de Seo-era (mulher jovem por contraste com a idade do morto, mais um preconceito para reforçar a suspeita) que passaremos a assistir ao desenvolvimento das relações entre os referidos protagonistas, o investigador e a investigada. Pouco a pouco, Hae-Jun, casado e com uma vida aparentemente estável no plano familiar, será lenta mas decisivamente seduzido pelos labirintos quotidianos onde se movimenta a mulher marcada. O detective passa a espiolhar a sua vida, o seu comportamento, observando-a através das janelas convenientemente abertas do apartamento, como são as dos filmes quando querem fazer valer as suas necessidades narrativas esticando a credibilidade ao máximo. Pouco a pouco, Hae-jun imagina-se fazendo parte daquela vida e, mais cedo do podia prever, acaba a partilhar a intimidade da mulher suspeita numa vertigem de perdição e redenção, cujo ponto fulcral se pode assinalar a partir da visita que fazem a um santuário budista, uma das sequências mais deslumbrantes e bem coreografadas de DECISÃO DE PARTIR no que diz respeito ao posicionamento relativo dos actores no décor e face ao enquadramento dos planos e respectivas escalas, definidos com assinalável bom gosto e rigor para os devidos efeitos dramáticos. Daqui para a frente, o que importa salientar são aspectos que preferia convidar os potenciais espectadores a descobrir, porque o filme vai por caminhos sinuosos, quase sempre de grande impacto áudio e visual, que merecem ser percorridos e apreciados com a devida surpresa. Direi apenas, como referi ao início, que Park Chan-wook, juntamente com o seu Director de Fotografia, Kim Ji-yong, e o seu montador, Kim Sang-bum, dá-nos a ver na vasta superfície de um ecrã as possibilidades maiores de manipulação imagética e sonora no cinema contemporâneo, com uma série de sequências desenhadas com a intenção de nos dirigir o olhar a partir de uma visão multifacetada da matéria dada que supera em muito, sem no entanto anular, a importância relativa do que ouvimos nos diálogos, sendo a assombrada história de amor entre dois seres construída com base na conjugação das linhas de força de diferentes géneros que por ali pairam, como o Suspense, o Film Noir, o Thriller, e o Policial, com uma derradeira pitada de surreal.

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DECISÃO DE PARTIR

Movie title: Heojil kyolshim

Director(s): Park Chan-wook

Actor(s): Tang Wei, Park Hae-il, Go Kyung-pyo, Teo Yoo

Genre: Drama, 2022, 139min

  • João Garção Borges - 75
  • Maggie Silva - 80
78

Conclusão:

PRÓS: Neste caso, o puro exercício de cinema, oferecido e garantido pela competente realização de Park Chan-wook.

CONTRA: Nada, a não ser uma pequena vontade de complicar aquilo que, por vezes, podia ser mais linear, leia-se, mais eficaz do ponto de vista emocional. De resto, nada contra a ARTE de BEM complicar, quando se assume essa estrutura no contexto de uma produção, precisamente, de arte e ensaio.

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