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O que importa é participar | Hugo Van Der Ding com novo espetáculo de comédia no Festival Política

O Festival Política regressou a Lisboa em abril e voltámos a festejar esta ocasião com uma visita ao Cinema São Jorge. Quem também esteve por lá, uma vez mais, foi Hugo Van Der Ding, o afamado humorista apaixonado por obituários e história de Portugal. 

Uma das atuais referências da radiofonia portuguesa, apresentador das Manhãs da 3 e escritor de comédia publicado, Hugo Van Der Ding é uma figura proeminente na cena da comédia nacional, com particular ênfase para o seu podcast conhecido, compilado a partir dos textos lidos na Antena 3, “Vamos Todos Morrer”.

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O casamento entre humor sarcástico, fatalismo e uma invulgar paixão por história tornam Van Der Ding uma figura da comédia peculiar e capaz de conquistar um lugar muito próprio entre o entretenimento nacional. Em 2024 esteve no Festival Política, em Lisboa, para apresentar o espetáculo de humor “O que importa é participar”, mas esta não foi a sua primeira participação no certame.

Van Der Ding no Política 2024
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Antes pelo contrário, em 2022 havia apresentado “A grande mentira”, num ano em que o Festival Política tinha por objetivo combater a desinformação. Dessa vez falou-nos dos grandes mitos da história de Portugal em jeito de aula. Desta vez, “O que importa é participar” alinha-se novamente com o tema do festival e reforça a relevância da participação cívica e os muitos casos, ao longo da história, em que a força da manifestação popular teve impacto real no rumo do país e da política.

O que importa, como sabemos, é participar. Ainda que, por vezes, não levemos a taça para casa. A História de Portugal está cheia de participações especiais. Como daquela vez que os padres se passaram com o rei e o puseram a andar (1245). Ou quando o povo de Lisboa mandou o bispo de Lisboa em voo pela janela da Sé (1383). Ou aquela vez em que as fiandeiras do Porto se revoltaram contra o rei, que era espanhol (1629). Ou quando, no Brasil, o Zumbi dos Palmares lançou luta contra os portugueses (1695). Ou quando os trabalhadores das obras do Palácio de Mafra cruzaram os braços até que lhes pagassem o que deviam (1732). Ou quando os pescadores de Olhão se revoltaram contra as tropas dos franceses (1808). Ou quando um grupo de mulheres do Norte quis à força enterrar uma velha numa igreja (1846). Ou quando os tipógrafos de um jornal fazem a primeira greve fabril em Portugal (1849). Ou quando umas curandeiras burlonas chinesas quase derrubaram a República (1911). Ou quando andou tudo à batatada pela falta de batatas (1917). Ou quando, contra a ditadura do Estado Novo, se assaltou um barco (1961), um avião (1961) e um banco (1967). Terminando tudo, faz agora cinquenta anos, num dia inicial inteiro e limpo (1974).




Com a sua paixão por detalhe histórico, Hugo Van Der Ding assenta que nem uma luva na programação do Política e foi novamente capaz de encher a sala Manoel de Oliveira. Ao longo de cerca de duas horas levou-nos numa viagem pela história de Portugal, da época medieval à ditadura. Pelo caminho houve espaço para alguma (bastante) sátira política e social, para alusão a episódios mais obscuros nas narrativas lusitanas e também para algumas histórias intercontinentais, nomeadamente o episódio de Zumbi dos Palmares e a sua agridoce luta contra os portugueses no Brasil do século XVII.

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“O que importa é (mesmo) participar”, como a sua narrativa episódica deixou bem claro. A ideia de Hugo Van Der Ding foi aqui simples e eficaz: a história não se faz só de reis, de presidentes e de grandes figuras de estado. Faz-se das primeiras greves, faz-se de manifestações, faz-se de revoluções e de momentos em que dizer “basta” é essencial. O seu espetáculo de comédia distorce episódios da cultura e história nacional com um claro propósito humorístico, mas o comediante é muito capaz na delimitação de linhas. Ou seja, o absurdo é tão absurdo que nunca se faz passar por verdade.

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E se para bom entendedor meia palavra basta, Van Der Ding foi realmente acídico e mordaz em alguns dos momentos da sua intervenção, equilibrando o discurso com outros instantes mais “tolos” e capazes de manter o tom leve que atravessou esta apresentação. A ilustrar, claro está, marcaram presença os desenhos que o acompanham nas redes sociais.

Dos seus trocadilhos a um ou outro anacronismo intencional, passando por alguns risos involuntários genuínos, todas as “marcas de fabrico” estiveram lá, à medida que, do Estado Novo ao episódio das fiandeiras do Porto  (1629), Hugo Van Der Ding escrutinou episódios díspares e todos eles capazes de se alinha perfeitamente na temática desta edição do Política.

O Festival Política passou por Lisboa em abril (no Cinema São Jorge). No início de maio chega a Braga, entre dia 2 e 4, e esta mesma apresentação de Hugo Van Der Ding poderá ser vista uma vez mais. 



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