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Indie Lisboa ’21 | Au Coeur du Bois, em análise

“Au Coeur du Bois”, “Ladies of the Wood” , é um documentário francês que nos leva até às profundezas do Bois de Boulogne. Este parque histórico, fundado no Século XIX, faz parte da vida parisiense e a prostituição é uma das suas atividades mais reconhecíveis.

Claus Drexel (“America”) dá-nos a conhecer as mulheres cisgénero (“biológicas”)  e transexuais que povoam este espaço com as suas esperanças e sonhos. 

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A secção Silvestre, a qual celebra filmes singulares, tanto de artistas já reconhecidos como de novos talentos, fomenta a promoção de obras que rejeitem fórmulas e que suscitem conversações diversas e novas linguagens. Aqui insere-se este “Au Coeur du Bois” ou “Ladies of the Wood”, uma longa-metragem documental desprovida de pretensão e que nos mostra as senhoras – mulheres, travestis e transsexuais – a quem pertence o muito parisiense e fundamental  Bois de Boulogne.

Enquanto as trabalhadoras do sexo que povoam este filme tendem a ser ocultadas, censuradas, secundarizadas, aqui Claus Drexel decide subverter este tratamento e dá-lhes espaço, uma voz, uma oportunidade para expressar a sua essência e revelar a sua história de vida. Estas senhoras do bosque são tratadas com bastante respeito e, sem que a conversação pareça influenciada ou viciada, não deixamos de sair com a sensação de que as suas escolhas e perspetivas se vêem algo defendidas pela montagem deste “Au Coeur du Bois”.

As senhoras do bosque são quase as suas ninfas, figuras semi-mitológicas que habitam nas sombras, refugiando-se em carrinhas iluminadas com luzes de natal e em abrigos e tendas improvisadas. A sua atividade, a “mais antiga profissão do mundo”, sempre proliferou na obscuridade. Hoje, com nova legislação que pune o cliente para além da trabalhadora do sexo, eis que cada vez a sua atividade se torna mais difícil. Marginalizadas por todos, segundo elas próprias até pelas feministas que tanto defendem a sua emancipação, eis que o bosque se torna um lugar mais solitário e menos caloroso.

 

indielisboa silvestre au c our du bois
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O egoísmo e indiferença das elites políticas, a falta de Segurança Social, as ameaçadas diárias, todas estas são temáticas centrais mas não dominantes. Na realidade, a capacidade destas figuras centrais como contadoras de histórias é o mais transversal. Ouvimos as suas narrativas, as destas trabalhadoras que em sua grande parte imigraram de outros países – quer da Europa do Sul, do Leste ou mesmo da América Latina.

Ouvem-se diversas línguas, sotaques e caminhos com marcas distintas. Várias destas ninfas do bosque transportam na sua voz e no seu olhar um profundo desalento, uma tristeza que advém da força das circunstâncias que as empurrou para a prostituição. Outras, em particular as mais velhas, recordam certos dias de glória mais livres, com menos estigma e perseguição política, associando o ato de prostituição a um de libertação. Uma escolha, um manifesto. A riqueza deste documentário vem, precisamente, do encontro inesperado entre perspetivas totalmente opostas e que co-existem nestes mesmos bosques.

 

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Como maior defeito temos a simplicidade de “Au Coeur du Bois”, uma obra filmada sem grandes gestos dramáticos ou inventivos. Câmara em frente ao sujeito sentado e toca a filmar. Todavia, para manter o respeito pelo espaço e pela presença destas trabalhadoras quiçá esta fosse, deveras, a forma mais adequada de as filmar e entrevistar. Ao fim de contas, o sumo do filme reside mesmo nos seus ricos e interessantíssimos testemunhos. Resta-nos esperar que esta obra documental veja a devida distribuição que merece.

 

O Indielisboa ’21 continua a decorrer na capital até 6 de setembro, com sessões de vencedores nos dias 7 e 8. Entre a programação traz diversos destaques, com as suas variadas secções desde a Competição Internacional, Nacional, passando pelos Novíssimos, Retrospectivas, IndieMusic, Silvestre, Boca do Inferno e muito mais…

Au Coeur du Bois, em análise
Ao Couer du Bois 18º indielisboa

Movie title: Au Coeur du Bois

Movie description: O princípio desta história é um bosque que rodeia a cidade e, nele, circulam estranhas personagens que contam as suas histórias, mas também recebem os seus clientes. No coração do bosque, são elas as suas senhoras.

Date published: 27 de August de 2021

Country: França

Director(s): Claus Drexel

Actor(s): "Ao Coeur du Bois"

Genre: Documentário, 2021, 90 minutos

  • Maggie Silva - 80
80

CONCLUSÃO:

“Au Coeur du Bois” é uma obra que coloca o invisível a olho nu, realçando no processo toda a beleza que pode por vezes passar despercebida e julgada por fealdade. Estas mulheres, estas prostitutas, têm todas elas histórias ricas e uma enorme vontade de singrar, não obstante a perspetiva da sociedade relativamente a uma profissão que divide opiniões, inclusive à até esquerda do espectro político.

Apesar de este ser um documentário apenas moderadamente politizado, deixa claro que os verdadeiros intervenientes (e interessados) deste debate não estão a ser ouvidos e vistos pelo status quo. É com nobreza do gesto que Claus Drexel se propõe a inverter esta lógica.

O MELHOR: A riqueza dos relatos e a diversidade de perspetivas que aqui se conseguem encapsular.

A liberdade de discurso das intervenientes, que falam livremente sem que a sua palavra seja aparentemente cortada, controlada ou condicionada. Um esforço documental assente na compreensão e na transparência, é isso que “Au Coeur du Bois” parece querer atingir.

O PIOR: A linearidade do formado documental, com entrevistador e entrevistado sempre frente a frente, quase sempre com som síncrono e sem grande experimentação. Tal não tira o impacto emocional ao documentário, mas é uma fraqueza a apontar.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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