13º IndieLisboa | Entrevista a Leonor Teles

Com a exibição de Balada de um Batráquio no IndieLisboa e sua iminente estreia comercial, falámos com Leonor Teles, a premiada autora desta notável curta-metragem.

Desde a sua surpreendente vitória em Berlim, Balada de um Batráquio e Leonor Teles, sua autora, têm estado nas bocas do mundo, sendo motivo de conversa para uma infinidade de cinéfilos portugueses. O filme, galardoado com o tão desejado Urso de Ouro do Festival Internacional de Berlim, tem feito o circuito dos festivais de cinema, tendo já sido premiado também em Hong Kong.

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O filme, uma curta-metragem documental com cerca de 11 minutos, toma como seu principal tema, a xenofobia de que são vítimas as populações ciganas no nosso país. Já o anterior filme de Teles, que é de etnia cigana, Rhoma Acans se focou no mundo destas comunidades, mas Balada de um Batráquio retrata especificamente a vil prática em que comerciantes colocam sapos de loiça nas montras e portas de seus estabelecimentos, na esperança de afugentar estas comunidades devido a antigas superstições. Ao longo dos seus escassos minutos, vemos imagens das comunidades em questão, assim como de Teles a destruir esses odiosos batráquios de porcelana, em repetidos momentos de justificada indignação.

Leonor Teles Berlinale

Partindo deste mundo de superstição e preconceito, esta jovem realizadora concebeu um notável filme marcado pela ironia e por tonalidades de fábula e até farsa. Gloriosamente registado com as rudes texturas do Super 8, Balada de um Batráquio é uma obra imperdível, inventiva e deliciosamente simples, apesar dos seus complexos temas.

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Presentemente, audiências interessadas poderão ver o filme no Indie Lisboa, antes da sua estreia comercial a 28 deste mês, com distribuição da NOS. A Magazine HD aproveitou esta iminente estreia para entrevistar Leonor Teles.

Leonor Teles


 

 

(MHD) Esta deve ser a mesma pergunta de sempre, mas como é que se iniciou este projeto d’A Balada de um Batráquio?

(LT) Como é que começou? A ideia para o projeto já vem bastante de trás. Quando tive conhecimento desta situação dos sapos foi através da minha mãe e depois, a partir dessa altura, isto já foi para aí há uns dez anos… A partir dessa altura nós tínhamos uma brincadeira em que dizíamos que íamos entrar nas lojas e partir os sapos todos. Aqui há cerca de dois anos eu estava a jantar com os meus produtores, com a Filipa Reis e o João Miller de Guerra. Nós entrámos num restaurante que tinha um sapo e eu perguntei-lhes “se vocês sabem qual é o significado dos sapos de loiça?”. Eles não sabiam e eu expliquei-lhes que estavam lá para afastar ciganos e depois contei-lhes esta história de eu e a minha mãe dizermos que um dia íamos partir estes sapos todos. Eles acharam imensa piada à história e começaram a insistir comigo para desenvolver a ideia do filme.

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A produção e a filmagem do filme foi um processo difícil, especialmente tendo em conta algumas das limitações que existem em Portugal?

Não foram muito difíceis. Não em termos de conseguir filmar, porque nós tivemos poucos dias de rodagens, tivemos para aí uns seis ou sete, que acabam por ser muito poucos. O mais difícil foi mesmo a situação de partir os sapos. Isso sim, isso foi bastante complicado. Mas a nível de produção foi bastante simples.

 

Há um caráter bastante interventivo nas imagens e ações do filme, especialmente na destruição dos sapos. Consideras-te uma realizadora de cinema político ou ativista?

Se eu me considero…? Não, acho que não. Acho que este filme podem-no considerar político ou ativista, mas eu em particular não me considero nesses termos. Eu digo isto porque nos meus próximos filmes não estou a pensar fazer coisas deste género.

 

Leonor Teles

Já tens um projeto futuro em mente?

Tenho, mas ainda não falo sobre ele.

 

Mas planeias continuar por este registo documental, ou planeias explorar outro tipo de cinema?

Não. Vou continuar num registo documental.

 

Tens ficado surpreendida com o sucesso que o filme tem alcançado, em Berlim por exemplo?

Claro que sim, não estava nada à espera e francamente não achei possível que fosse acontecer assim uma projeção deste tamanho.

 

Leonor Teles

Tem-se alterado muito na tua vida, pelo menos enquanto cineasta, desde essa vitória?

Enquanto cineasta ainda não. Ainda não vi assim nada a acontecer que estivesse diretamente ligado ao Urso. A não ser, lá está, a estreia comercial em salas, que eu acho que tem muito a ver com o facto de ter ganho o Urso. Mas de resto, para já ainda não. Isto são coisas que depois também acontecem mais a longo prazo e não logo no início.

 

Por falar nessa distribuição que o filme vai ter em salas portuguesas, o que pensas do emparelhamento com o novo filme do Richard Linklater (Todos Querem o mesmo)?

Eu não vi o filme, por isso não posso dizer como eles funcionam juntos. Aqui o mais importante foi tentar estreá-lo no maior número de cinemas, e acho que foi esta a oportunidade que tínhamos e decidimos aproveitá-la. Porque lá está, é muito raro curtas estrearem comercialmente ou quando estreiam comercialmente acabam por ser só em quatro ou cinco cinemas. Não têm este espaço geográfico. Este vai ter.

 

Voltando um pouco atrás, ao filme em si e não à sua distribuição. Os ritmos e estrutura quase que lembram uma farsa, o uso de Super 8 e de imagens pessoais conferem ao filme uma estética e personalidade muito características. Podes falar um pouco das tuas escolhas formais?

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Eu acho que, neste filme em particular, não fazia sentido que fosse filmado em digital, porque a estética do Super 8 dá-lhe um ar, não só de farsa, mas também de fábula. Como nós estamos a falar de superstições e temos contos no filme, tentámos que a própria estética se coordenasse e estivesse em harmonia com aquilo que é a temática e a narrativa. Tentámos também, na estrutura, criar esse estilo de um imaginário que não é possível acontecer, que só existe nas nossas cabeças. Quando nos contam histórias ou ouvimos contos, nós imaginamos assim as coisas noutro sítio que não este onde estamos. Então era preciso fugir muito a uma formalidade e a um visual que nós, à partida, identificamos com o hoje, apesar de aquilo ser filmado hoje. Também para mim, como isto acaba por ser tudo uma temática bastante parva, porque é ridículo que ainda hoje aconteça esta situação de colocarem os sapos para afastar pessoas de etnia cigana, achei que o Super 8, pela sua rugosidade e também por ser um bocado tosco e super colorido, era o formato que melhor se adequava, por essas qualidades, à própria narrativa do filme, à própria parvoíce que o filme reflete.

 

Leonor Teles

Um dos aspetos do filme que mais marca é a utilização da música. No final, vê-se que uma das músicas é da autoria da banda do Emir Kusturica. Ele é um dos teus autores de referência?

Sim, gosto muito do Gato Preto, Gato Branco. Mas sim, a música também era super importante, não só para criar ritmo, mas também para criar este tom irónico que eu acho que o filme também tem um bocadinho.

 

Por fim, há algo que queiras dizer sobre o filme, ou sobre ti mesma, que ainda não tenha sido aqui falado?

Não sei, acho que agora o que é importante é que as pessoas vão ver o filme. Porque, falou-se muito do filme e falou-se muito no tema, mas a verdade é que, cá em Portugal, as pessoas ainda não o viram, porque ele só estreia hoje (dia 21 de abril) e só vai estrear comercialmente no dia 28. Acho que é importante, já que se falou tanto no assunto e o mediatismo à volta do filme, à volta do Urso, à volta do cinema português, que efetivamente as pessoas o vão ver.

 


Segue as palavras desta jovem autora e vai ver a Balada de Um Batráquio, ou no Indie Lisboa, ou nos cinemas, sendo que o filme estreia dia 28 e será exibido antes de Todos Querem o Mesmo. Não percas!


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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