"Victoria"| © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Victoria, em análise

“Victoria” é um documentário teatral que nos oferece uma visão humanística de uma California esquecida. Integra a Competição Internacional  de Longas-Metragens da 17ª edição do IndieLisboa

Esta longa-metragem documental, uma produção belga realizada a três mãos entre Isabelle Tollenaere, Liesbeth De Ceulaer e Sofie Benoot, apresenta-nos um contraponto interessantíssimo para a imagem caótica e repleta que temos da California , apresentando-nos um mundo esquecido.

Acompanhamos aqui a jornada semi-documental de um habitante de Los Angeles, Lashay T. Warren, um jovem afro-americano de 25 anos que procura um novo começo e que chega, pela noite, a uma das maiores e mais vazias cidades da California, California City. Mais um mito do que um lugar real, “Cal City”, como é normalmente apelidada, é uma cidade recente, criada como um capricho.

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Um dia, há não muito tempo, “reza a lenda” há cerca de 50 anos, um visitante descobriu esta terra imensa no deserto e deu-lhe o nome de California City. Queria que esta fosse uma nova Los Angeles, uma terra de oportunidades. Nomeou milhares de ruas e instalou sistemas de canalização neste meio do nada. Não terminou a sua obra e, verdade seja dita, ninguém se quer mudar para o deserto. California City tornou-se assim não uma nova terra de oportunidades, mas um vazio fantasmagórico.

Acompanhamos a jornada de Lashay, que passa mais de um ano neste deserto, recuperando os nomes das ruas, mapeando os seus caminhos, nomeando as montanhas secas que o rodeiam. Faz-se acompanhar do seu pequeno filho e ocasionalmente viajam pelo Google Maps onde recordam as ruas de Compton, em L.A, e todas as memórias que ficaram para traz.

TRAILER | COMPETIÇÃO INTERNACIONAL DE LONGAS METRAGENS – VICTORIA

“Victoria” é um filme incrivelmente indisciplinado, sem rumo condutor, e que procura aparentar ser “naturalista”. Entre câmara às costas e até filmagens verticais feitas através de um telemóvel, a curta longa-metragem de 1 hora de duração procura mostrar a vida a decorrer em Cal City. Não obstante a sua falta de linearidade e aparente naturalismo, a verdade é que os seus diálogos e situação são profundamente manipulados. Fala-se de peregrinos do século XIX na Escola para Adultos, como ponto de comparação. Também Lashay e os seus companheiros são peregrinos que descobrem esta terra no deserto.

Fala-se de novas oportunidades, de campos de golfe abandonados, de canalização que grita por reparação e de arco-íris ocasionais. As ruas desta Victoria são nomeadas uma e outra vez, embora pouco importe. As ruas aqui não têm significado, não como em Los Angeles.

Esta cidade deveria ter recebido centenas de milhares de pessoas. Ao invés disso vivem aqui menos de 15.000 numa área com baixíssima densidade demográfica. Lashay, o nosso herói, adapta-se ao deserto e faz dele uma nova casa. O filme consegue um feito notável, trazer nova vida a este obscuro local perdido no deserto.

Outros realizadores poderiam ter tornado “Victoria” num filme extremamente analítico. Mapeando as ruas, os locais, o que teria sido e o que é na realidade. Facilmente esta poderia ser uma experiência cinematográfica bem mais ordeira e menos humana. Sofie Benoot, Liesbeth De Ceulaer e Isabelle Tollenaere tornaram “Victoria” uma breve obra sobre segregação (espacial, social e racial), descoberta e segundas oportunidades, fazendo nela pulsar sangue e vida. Uma notável incursão aqui se traça.

Victoria, em análise
white riot critica indielisboa

Movie title: Victoria

Date published: 1 de September de 2020

Director(s): Isabelle Tollenaere, Liesbeth De Ceulaer, Sofie Benoot

Genre: Documentário

  • Maggie Silva - 80
80

CONCLUSÃO:

“Victoria” é um filme humano sobre recomeços e promessas de um futuro melhor. Transforma o deserto num local habitável e dá novo significado a velhos locais.

O MELHOR: O retrato de um local esquecido no tempo.

O PIOR: A falsa aparência de neutralidade e a ausência de uma estrutura cinematográfica clara.

MS

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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