Amanda

16º IndieLisboa | Amanda, em análise

“Amanda” é um comovente drama francês do realizador Mikhaël Hers com o fabuloso Vincent Lacoste no papel principal. É também um dos filmes na secção Silvestre do IndieLisboa.

Apesar de ter uma filmografia ainda curta, Mikhaël Hers está gradualmente a afirmar-se como um mestre contemporâneo da representação de perda em cinema. “Ce sentiment de l’été” de 2015, retrata o modo como uma morte inesperada reverbera pelas vidas dos entes queridos, dando azo a um luto que não se resolve com grandes gestos ou rituais sociais, mas vive perpetuamente e em constante mutação. “Amanda”, o mais recente trabalho do cineasta, regressa tanto aos temas como aos mecanismos formais dessa obra anterior. Desta vez, contudo, Hers redirecionou o seu olhar para novas dinâmicas familiares. Ao invés de termos irmãs e namorados, temos um tio forçado a cuidar da sobrinha no rescaldo da tragédia.

Não que o filme assinale o horror que se aproxima. Muito pelo contrário, numa escolha que reflete como a vida não segue ordens narrativas ou engenhos dramáticos, “Amanda” passa quase meia-hora a desdobrar-se como uma comédia parisiense, tão casual como solarenga. O protagonista é David, um jovem que em tempos foi tenista, mas agora divide o seu tempo entre dois empregos sem grande futuro. Ele é feliz e tem uma relação próxima com a irmã, Sandrine, que é uma professora de inglês e mãe solteira. Quando a narrativa tem início, deparamo-nos com David a chegar atrasado para ir buscar a sua sobrinha, a Amanda do título, à escola. Entendemos rapidamente que este tipo de situação não é incomum, mas a dinâmica entre a família não é afetada negativamente por isso.

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Um retrato de perda e as muitas permutações do luto.

Através de um registo naturalista, despido de dramatismos gritados, “Amanda” lá vai desenhando o universo de David, suas preocupações mundanas e o círculo social que o rodeia a ele e à irmã. Veja-se por exemplo, como, graças ao seu trabalho para um proprietário que arrenda apartamentos, o nosso protagonista se depara com Léna, uma rapariga que veio viver para Paris e com quem ele rapidamente desenvolve um diálogo tão charmoso e doce que parece sair de uma comédia romântica. A única mácula na existência idílica de Sandrine e David é a sua falta de apoio familiar. O pai de Amanda não é, de todo, um fator na vida deles e os pais dos irmãos também não. Só uma tia amistosa tem alguma presença.

Em pouco tempo, os atores desenham toda uma teia de relacionamentos e história partilhada, orientando o espectador pela tapeçaria emocional das personagens. Em simultâneo, Hers e sua equipa concebem uma visão encantadora de Paris, que evita imagens turísticas em prol de uma fotografia granulosa e cálida que recorda o melhor de Éric Rohmer. A banda-sonora, por seu lado, seduz os ouvidos do espectador com melodias simples e não pouco melosas. Podíamos facilmente apontar para estas escolhas musicais como um dos poucos passos em falso do filme, mas o realizador sabe usar esta ferramenta e emprega o seu otimismo sinfónico para dar contrastes tonais a “Amanda”. Além disso, quando chega a altura de romper com a felicidade da história, Hers reforça o acontecimento com o choque do silêncio.

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A câmara, em contraste com o som, não carrega na anomalia sanguinária que é a imagem de um parque parisiense coberto de cadáveres e pessoas a chorar. Somente o conteúdo seria suficiente para violar toda a linguagem e o tom do edifício cinematográfico. É como se o filme não soubesse como assimilar o que acabou de acontecer, seguindo o exemplo de David, atónito e sem palavras face a um ataque terrorista que ceifou a vida da irmã e deixou amigos e amantes feridos e traumatizados. O pior, no entanto, não é o choque. O pior é viver com o que aconteceu, tentar aprender a seguir em frente com um vazio onde antes estava Sandrine.

Tal como já havia feito em obras anteriores, Hers mostra que tem um olho particularmente perspicaz para as várias permutações do luto. Ao invés de cenas dramáticas com diálogos pesados, “Amanda” estabelece os parâmetros da dor através de gestos tão aparentemente insignificantes como a escolha de quando, ao certo, tirar a escova de dentes de Sandrine da casa-de-banho. Noutra cena, por exemplo, David é confrontado com uma amiga de família que ainda não sabe da tragédia que lhe redefiniu a vida e fica, por momentos, sem saber o que dizer, olhando em volta como que a pedir ajuda a algum transeunte milagreiro. Tais momentos são dolorosos, mas a dor que transmitem ganha a sua força pelo modo como é fácil vermo-nos refletidos em David e sua dificuldade em se ajustar a uma nova realidade.

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Vincent Lacoste é um dos grandes atores do cinema francês contemporâneo.

De certa forma, “Amanda” vive ou morre na interpretação central que serve de âncora a toda a sua exploração emocional. Felizmente para Hers e a audiência, o papel de David está nas mãos de um dos mais promissores atores do cinema francês contemporâneo. Vincent Lacoste é principalmente conhecido pelos seus dotes cómicos, mas, nos últimos anos, tem vindo a exibir uma maior flexibilidade de registo e tom. Em “Amanda”, ele dá vida a uma autêntica sinfonia de mágoas interiores. Não se trata de um exercício em melodrama barato, por muito chorosos que alguns dos seus melhores momentos possam ser. A cena em que, por exemplo, David não consegue mais sustentar a máscara de um sorriso falso e perde controlo numa estação de comboio ganha poder no modo como o ator retrata quanto este homem está a lutar para seguir em frente e ser uma presença estável para a sobrinha.

No papel de Amanda, Isaure Multrier tem uma excelente química com Lacoste e nunca cai no erro de ser demasiado precoce ou afetada. Há, contudo, certas limitações no modo como o filme examina o arco narrativo da menina. Isto é uma consequência de um argumento escrito essencialmente como um estudo de personagem focado no tio. Essas mesmas limitações manifestam-se quando a história tenta brevemente olhar na direção das repercussões que ataques terroristas têm na sociedade francesa. Um comentário passageiro de David e uma conversa sobre religião parecem sugerir que tais questões são periféricas à dor das personagens. “Amanda” é assim um filme que vai de encontro a um dos mais controversos e políticos dilemas da França atual, mas decide deixar às margens aqueles assuntos que fazem manchete e prefere examinar as vidas que se escondem por detrás de tais contos de horror. Tal decisão não é necessariamente boa ou má, mas há valor nas ambições humanistas de “Amanda” e sua tapeçaria de dor e perda, de afeto familiar e resiliência depois de uma tragédia.

Amanda, em análise
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Movie title: Amanda

Date published: 2019-05-04

Director(s): Mikhaël Hers

Actor(s): Vincent Lacoste, Isaure Multrier, Stacy Martin, Ophélia Kolb, Marianne Basler, Jonathan Cohen, Nabiha Akkari, Greta Scacchi, Bakari Sangaré

Genre: Drama, 2018, 107 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Amanda” é a história do que vem depois de uma tragédia impensável, do processo pelo qual a vida segue em frente e as feridas emocionais cicatrizam, mas nunca deixam de marcar presença. Prestações fabulosas e um argumento inteligente ajudam a elevar a obra acima de algumas das suas limitações concetuais e dramáticas.

O MELHOR: A fotografia solarenga e a prestação de Vincent Lacoste.

O PIOR: O final quase trai a casualidade antidramática da história, mesmo que Lacoste e Multrier façam muito para evitar incoerências tonais.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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