"Águas do Pastaza" | © Oublaum Filmes

IndieLisboa ’22 | Águas do Pastaza, em análise

“Águas do Pastaza,” também conhecido como “Waters of Pastaza” e “Juunt Pastaza entsari,” é um projeto etnográfico da realizadora Inês T. Alves. Depois de passar na Berlinale, o filme insere-se na Competição Nacional do 19º IndieLisboa.

A primeira longa-metragem de Inês T. Alves começa com uma citação do filósofo português Agostinho da Silva. Nela, exaltam-se as qualidades das crianças e a necessidade de as preservar logo depois destas se tornarem adultas. Fala-se da imaginação que se sobrepõe ao conhecimento, brincar em vez de trabalhar e a totalidade em lugar de separação. Tais palavras ecoam pelos 61 minutos do documentário, projeto de interesse etnográfico rodado por Alves no rio Pastaza entre o Equador e o Peru.

Segundo a autora, sua visita a tais lugares não foi feita com o intuito decidido de fazer um filme. Contudo, o olhar é puxado da paisagem para as crianças que nela vivem, figuras independentes que existem numa harmonia periclitante com o ambiente natural. São elas as gerações mais novas do povo indígena Achuar, crescidas na floresta, mas não em reclusão insular do mundo moderno. Por várias vezes os vemos sacar dos smartphones para ver e partilhar vídeos, para se entreterem no silêncio sonoro da Amazónia.

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© Oublaum Filmes

Sem adultos à vista, a câmara segue-as, rasgos de pele ruborizada num infinito verde. Não é bem aquele registo cinema vérité em que os sujeitos se comportam como se o aparato cinematográfico fosse invisível. Temos noção da presença intrusa, nem que seja pelo peso dos passos e os olhares que os protagonistas ocasionalmente direcionam para a objetiva. Contudo, sente-se cumplicidade entre a trupe menina e seus observadores. A certa altura, são eles mesmos que fazem o seu cinema, filmando Alves por detrás das câmaras.

Dito isso, a maior parte do documentário passa-se junto às titulares águas do Pastaza. Guiando-nos pelo arvoredo fluvial, os meninos andam destemidos com suas facas machete, cortando a vegetação que lhes bloqueia o caminho. Também apanham a fruta que a terra lhes dá e pescam no rio por peixes para comer. No fim dos seus afazeres diários voltam para casa de barco. Uma cena caricata mostra-nos até o problema da embarcação que se afundou. Saltando de um lado para o outro, a menina lá escorre a água, como se de uma dança se tratasse ou uma brincadeira infantil.

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Esses instantes em que o pragmático e o lúdico se combinam representam algumas das melhores passagens do documentário. Aí, o pretensiosismo patente na ideia do “nobre selvagem” ou da criança enquanto ideal pseudo-Rousseauniano deixa trespassar realidades mais complexas, mais francas e honestas. Também o vislumbre da vida fora da liberdade natural nos indica que os binários escritos no início não têm necessariamente que ser levados à letra. Pode-se brincar com esses valores, confiar na flexibilidade e resiliência das crianças sem as tornar em abstração.

Oxalá a fita se deixasse levar pelo espírito dos pequenos e fosse tão brincalhona, tão maleável, quanto eles. Apesar de momentos como o do barco desafundado, a generalidade de “Águas do Pastaza” tomba para a seriedade monótona. O olhar de Inês T. Alves jamais se deixa levar pelo julgamento condescendente, mas também não resolve a desconexão intrínseca do documentário. Por outras palavras, o filme em si não incorpora de forma total ou orgânica as qualidades que reconhece naqueles que observa. É um exercício relativamente inflexível.

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© Oublaum Filmes

Não que se traia a si mesmo, há que dizer. Apesar de não evoluir ao longo da sua escassa duração, permanecendo sempre no plano da observação passiva, “Águas do Pastaza” é realizado com sensibilidade. Não há tonalidades colonialistas, por exemplo – o que é sempre um risco neste tipo de projeto. Além disso, Alves evita o moralismo, deixando as crianças existirem enquanto seres humanos e nunca como símbolo cinematográfico de algo maior que elas. Assim a fita se afirma como um produto do Humanismo no grande ecrã.

Deixando o tema e passando à forma, “Águas do Pastaza” é uma boa montra para os talentos da realizadora enquanto diretora de fotografia. Os verdes aquosos que dominam a imagem são belos sem reduzir o mundo natural a postal. Também a sonoridade da floresta se sente no corpo, como uma cacofonia que envolve e, passado algum tempo, serve de estranho conforto. Mesmo com produção custosa e sem muitos recursos, o documentário apresenta-se enquanto objeto polido, feito com rigor e considerável sofisticação.

Águas do Pastaza, em análise
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Movie title: Juunt Pastaza entsari

Date published: 5 de May de 2022

Director(s): Inês T. Alves

Genre: Documentário, 2022, 62 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

Uma canção da liberdade juvenil e uma carta de amor à maravilha das crianças, “Águas do Pastaza” marca a estreia de Inês T. Alves no mundo da longa-metragem. Seu olhar é rigoroso, mas também trespassa compaixão, a procura pela empatia e pela exaltação do sujeito documental. Nas suas observações sem forma, a cineasta deixa-nos viver ao lado das crianças que vivem às margens do rio titular, encarando sua independência como uma oportunidade para considerar a meninice no estado natural.

O MELHOR: O espírito indomável dos jovens Achua. Isso e as cenas do barco meio-afundado e o virar da câmara como manifestação do olhar infantil sobre a realizadora. Também o último quadro nos aquece o coração, terminando o filme em nota alta.

O PIOR: Falta a “Águas do Pastaza” alguma da leveza do caráter infantil, alguma predisposição para o júbilo e para o jogo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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