"Camuflaje" | © Off the Grid

IndieLisboa ‘22 | Camuflaje, em análise

Estreado no Forum da Berlinale, “Camuflaje” ou “Camouflage,” marca o regresso do realizador Jonathan Perel ao IndieLisboa. O documentário integra a secção Silvestre na 19ª edição do festival.

Félix Bruzzone é um escritor Argentino que cresceu criado pela avó, ouvindo histórias de uma mãe ausente cujo paradeiro é desconhecido. Não é que ela tenha abandonado o filho, mas que as autoridades a levaram quando ele nem um ano tinha. Aconteceu durante a era da Junta Militar, entre os anos 70 e 80, quando inúmeras vozes contra o regime foram sumariamente caladas por meio de prisão, tortura, morte. Na idade adulta, Bruzzone descobriu o fado da mãe, levada para o infame Campo de Mayo nos arredores de Buenos Aires e lá executada.

Quiçá atraído pela curiosidade mórbida ou algum sentido de responsabilidade filial, o escritor comprou casa perto da área que outrora foi o Campo de Mayo, agora reduzido a ruínas consumidas pela natureza, um artefacto histórico que também serve de campa coletiva. Todos os dias ele corre em torno desse espaço, percorrendo a área agora feita de arvoredos e riachos. É o inferno feito paraíso, um paradoxo entre o presente e o passado, entre a beleza pastoral e a memória violenta que a terra guarda. É uma força que puxa Bruzzone e a câmara curiosa de Jonathan Perel.

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O realizador especializado em documentários constrói seu mais recente trabalho em volta das investigações do escritor argentino, encenando conversas que nos levam a uma ideia multifacetada do Campo de Mayo e seu lugar na memória da comunidade. A primeira dessas interações é feita de reminiscência familiar e aponta para a emoção terna no âmago da fita. Falando com a avó que o criou, Bruzzone conhece e honra o fantasma da mãe da qual não tem memória. Fala-se de amor, mas também de medo, do modo como a infância se passou na sombra da Junta e suas atrocidades.

Outros encontros remetem para a mesma colisão de realidades incompatíveis, essa inocência miúda e a sistemática opressão por parte de um regime assassino. Apesar dos testemunhos de prisioneiros sobreviventes terem mais valor histórico, são as lembranças de um homem que trepava pela cerca do Campo enquanto miúdo que mais persistem na memória do espetador. Talvez a causa disso seja quanto esse paradoxo domina a imagem de “Camuflaje.” Acontece que Perel jamais recorre a arquivos para ilustrar aquilo de que se fala, preferindo manter o filme no presente.

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Tais escolhas posicionam o documentário na mesma linha cinematográfica em que se inserem as obras de Resnais e Lanzmann. Falamos, especificamente, do trabalho desses realizadores franceses sobre o Holocausto. Quando chegou a altura de representarem os campos de concentração e seus horrores, ambos os mestres de cinema optaram por um jogo implícito de desassociação. Resnais contrastou modernidades idílicas com os documentos da chacina, enquanto Lanzmann deixou os fantasmas do trauma totalmente invisíveis.

Perel mais se assemelha a Lanzmann nesse aspeto, se bem que existem divergências tecnológicas entre o trabalho dos dois. Em todo o caso, o testemunho direto domina “Camuflaje” em jeito equiparável a “Shoah,” forçando o espetador a encarar o horror no que é contado sem filtros de ilustração. Cabe à mente de cada um assimilar a História, imaginar intimamente o que é que os testemunhos transmitem, as crueldades que revelam. O passado torna-se presente e a audiência se afirma enquanto participante ativo do filme e não somente seu observador passivo.

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Por outras palavras, ao mesmo tempo que Bruzzone conversa com seus entrevistados, também nós conversamos com o filme. Trata-se de uma troca de ideias em fluxo, um estudo de perda e esquecimento, de como um país ultrapassa o inferno terreno e se arrisca a lá voltar. Acontece que a ausência é política também, um reflexo de como as forças políticas da Argentina contemporânea têm perpetuado o apagamento de verdades desconfortáveis. Note-se como não há qualquer memorial ou monumento, qualquer marca que honre os mortos.

Só existe a memória que a cada dia se esbate mais. Isso e as reverberações sociais que vivem na forma de soldados espectrais, campos de tiro e uma cultura onde a militarização ainda ocupa um posto de grande poder. A violência assombra a pintura bucólica do presente e os artistas tentam capturar essa realidade invisível. Fazem-no com realidades virtuais, com escrita, com cinema. Na interseção da história nacional e pessoal, “Camuflaje” triunfa enquanto resistência ao esquecimento. Tal como Bruzzone corre, também corre o filme – na direção da verdade.

Camuflaje, em análise
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Movie title: Camuflaje

Date published: 29 de April de 2022

Director(s): Jonathan Perel

Genre: Documentário, 2022, 93 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Investigando o desaparecimento da mãe em 1976, o escritor Félix Bruzzone leva-nos numa odisseia de descobrimento feito através de conversas filmadas com grande simplicidade. No entanto, a busca pela verdade nunca é simples, e até o mais bucólico cenário esconde segredos tenebrosos. “Camuflaje” serve como monumento cinematográfico contra o esquecimento.

O MELHOR: O momento quando a tensão sobe e queima, quando a placidez da câmara se choca com tiros, com perguntas de militares irados. Nesses instantes, entendemos bem quão imersivo o engenho de Jonathan Perel consegue ser.

O PIOR: É sempre bom deixar o espetador a querer mais. Contudo, “Camuflaje” sente-se demasiado curto para o tema que se propõe a explorar. Não exigimos nove horas à la “Shoah,” mas algo mais substancial que estes fugazes 93 minutos seria ideal.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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