"Bad Girls Go to Hell" | © Juri Productions

IndieLisboa ’22 | Bad Girls Go to Hell, em análise

A grande retrospetiva do 19º IndieLisboa é dedicada a Doris Wishman, cineasta independente que fez nome no foro erótico. “Bad Girls Go to Hell,” originalmente estreado em 1965, é o primeiro filme do programa.

Apesar de repudiar aqueles que a queriam definir enquanto artista feminista, a própria existência de Doris Wishman no mundo do cinema remete para análises de género e exaltações do feminino. Numa era em que Hollywood raramente concedia oportunidades a mulheres na cadeira de realizador, Wishman afirmou-se enquanto uma das cineastas mais prolíferas do seu género de preferência. Género esse era o sexploitation, onde o erotismo reinava de mãos dadas com um certo jeito de amador, orçamentos baixos e atores sem treino.

Além disso, o propósito do trabalho era sempre o mesmo – excitar o espetador masculino na procura de nudez gratuita. Por conseguinte, mais ainda que a indústria mainstream, esta vertente lasciva do cinema americano era um mundo dominado por homens. Assim sendo, o sucesso de Doris Wishman é algo tanto ou quanto bizarro, quase sem precedentes. É nesse sentido que temos de defender a apologia feminista do seu trabalho, mesmo que a autora em si o negasse. Dito isso, tal conclusão não é o único ponto de interesse no legado desta pioneira pornográfica.

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© Juri Productions

A carreira começou com uma série de filmes putativamente dedicados ao retrato de comunidades e mulheres nudistas, os ditos “nudie-cuties” dos anos 60. No entanto, os filmes de Wishman raramente correspondem aos padrões do subgénero erótico, mesmo que estivessem cheios de nudez feminina. Acontece que, na via do amadorismo, a realizadora encontrou o caminho para um cinema disruptivo e sem regras. Há quem a compare a Ed Wood pelo modo como, sem intenção, Wishman fez filmes tão “maus” que são visionários.

“Bad Girls Go to Hell” é um perfeito exemplo do fenómeno. Feito e lançado em 1965, o filme representa um ponto pós-nudista na carreira da realizadora. Depois de se mudar para Nova Iorque a meio da década, Doris Wishman levou as histórias anti narrativas da oeuvre para um lado mais obscuro e violento, abandonando a inocência atrevida dos “nudie-cuties.” Estes trabalhos em cenário urbano chamavam-se “roughies,” e centravam-se no sofrimento de heroínas em constante suplício. Violação e homicídio eram temas recorrentes.

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Assim se verifica nesta fita cuja história tem início quando Meg Kelton mata o seu violador num claro impulso de autodefesa. Subitamente, o mundo colapsa em torno desta dona-de-casa desesperada e ela vê-se forçada a fugir à lei. De Boston viaja para Nova Iorque, mas, sem dinheiro ou emprego, depende da caridade alheia para sobreviver. Ao longo de pouco mais de uma hora, acompanhamos a sua pérfida odisseia por Manhattan, cada novo lar um novo antro de degradação. Humilhada e violentada, Meg está a viver um pesadelo para nosso entretenimento.

Verdade seja dita, é difícil encontrar muito júbilo nesta procissão de sofrimento alheio e não há suficientes rendas transparentes no mundo para tornarem a história de Meg numa narrativa que dá prazer. Por outro lado, a premissa sórdida é somente a ponta do iceberg no que se refere a “Bad Girls Go to Hell.” A verdadeira estrela do espetáculo não é nenhuma personagem ou atriz. A vedeta é Doris Wishman, cujas escolhas audiovisuais são um poço sem fundo de fascínio. Até o modo como ela filma um singelo diálogo nos arrebata.

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© Juri Productions

Longe de um esquema clássico de grandes planos alternados, o esquema de montagem está sempre a desviar o olho para objetos circundantes. Em ambientes domésticos, os humanos parecem alienígenas incapazes de suster a credulidade de um observador distraído. Em exteriores como o Central Park, a mais anódina conversa transmuta-se numa série de estilhaços. A mesma frase pode ser cortada entre um perfil convencional, paisagem, partes do corpo e sabe-se lá mais o quê. Também o som assombra, sendo todo feito em pós-produção e sem recursos.

O baixo orçamento significa que há pouca fuga ao real, mas a gramática formal faz tudo parecer irreal. Inadvertidamente, Doris Wishman faz de “Bad Girls Go to Hell” uma viagem onírica às profundezas mais moralmente degradadas de Nova Iorque. Todo o mundo é feito de monstros que querem abusar de Meg, gerando uma paranoia geral em direta antecedência aos thrillers da década de 70. Mais do que isso, a cena final dá justificação para a loucura do enredo e sua qualidade onírica. Entre o sonho e a profecia, a inconsciência e o mundo acordado, Meg é vítima eterna.

Bad Girls Go to Hell, em análise
bad girls go to hell critica indielisboa

Movie title: Bad Girls Go to Hell

Date published: 29 de April de 2022

Director(s): Doris Wishman

Actor(s): Gigi Darlene, Charles E. Mazin, Sam Stewart, Gertrude Cross, Alan Feinstein, Barnard L. Sackett, Darlene Bennett, Marlene Starr, Harold Key, Dawn Bennett

Genre: Crime, Drama, 1965, 65 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

Não chegamos ao ponto de classificar “Bad Girls Go to Hell” como alguma obra-prima injustiçada, mas é um objeto de grande interesse mesmo assim. Doris Wishman tropeça na convenção erótica para cair na aberração experimental, fazendo arte do sexploitation. O seu cinema merece ser estudado!

O MELHOR: A montagem tresloucada.

O PIOR: O enredo misógino e a inegável incompetência do elenco.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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