"Koibumi" | © Shintoho Film Distribution Committee

IndieLisboa ’22 | Koibumi, em análise

O primeiro filme realizado por Kinuyo Tanaka é conhecido por muitos nomes. Ora lhe chamem “Koibumi,” “Love Letter” ou “Cartas de Amor,” este drama romântico representa um episódio importante do cinema japonês do pós-guerra. O filme integra o Programa 5L do 19º IndieLisboa.

Para a generalidade dos cinéfilos, Kinuyo Tanaka será reconhecida enquanto uma das grandes atrizes japonesas do século XX. Ao longo de uma extensa carreira, ela trabalhou com os maiores nomes da época como Kurosawa, Ozu, Naruse, Knietoshi e, é claro, Mizoguchi. Os filmes que fez com este último realizador elevam-na a um estatuto de musa artística, quiçá um ícone proto feminista no contexto do cinema japonês feito após a Segunda Guerra Mundial. No entanto, Tanaka foi mais do que atriz, chegando a trabalhar por detrás das câmaras.

Quando assinou a primeira obra como realizadora, a consagra estrela foi reconhecida como a segunda mulher a ocupar tal cargo na História da indústria cinematográfica do Japão. Aliás, durante o seu período de atividade – entre 1953 e 1962 – ela foi a única mulher registada enquanto tendo trabalhado como realizadora no seu país. A fama ganha enquanto atriz serviu para lhe pôr um holofote sobre os esforços na cadeira de realizadora, resultando no reconhecimento internacional logo em início de carreira. A sua primeira longa-metragem competiu em Cannes, por exemplo.

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© Shintoho Film Distribution Committee

Considerando tudo isto, é estranho quanto o seu trabalho na realização parece ter sido esquecido, mesmo por aqueles que se declaram fãs dela enquanto atriz. Acontece que todos os seus filmes são difíceis de encontrar e, até muito recentemente, a maioria encontrava-se num estado deteriorado que exigia restauração. Neste momento, vivemos um período de redescoberta no que se refere a Kinuyo Tanaka, realizadora de cinema. Em Nova Iorque, faz-se uma retrospetiva com novas restaurações digitais e, em Lisboa, celebra-se a sua estreia na Cinemateca Portuguesa.

Partilhando muitas semelhanças com o trabalho dos seus passados colaboradores, “Koibumi” quase se pode ler como uma resposta feminina a perspetivas masculinas. Veja-se quanto seus temas se sobrepõem com “Uma Galinha no Vento” de Ozu, filme que Tanaka protagonizou. Tal como nessa fita de 1948, a obra da realizadora preocupa-se com o rescaldo da guerra no Japão. Especificamente, a relação de um par amoroso é dissecada enquanto símbolo da nação ou, pelo menos, sinédoque para algumas das suas fações.

Baseado num romance de Fumio Niwa, tudo começa e acaba com o homem regressado da frente de combate, para sempre mudado pelo que viu. “Koibumi” segue Reikichi Mayumi, um veterano das forças navais que, incapaz de arranjar emprego, depende do irmão, Hiroshi, para se sustentar. Agrilhoado a um passado perdido e seus sonhos de outros dias, Mayumi passa os dias numa deambulação sem fim. Sua constante companheira é uma carta enviada pela mulher que ainda lhe atormenta os sonhos. Na missiva antiga, a bela Michiko sua amada escreve sobre estar noiva de outrem. Passados tantos anos desde o envio, ela certamente desposou.

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De facto, está viúva, mas isso não significa que Reikichi a possa reencontrar. Numa nação a tentar reconstruir-se, é difícil localizar aqueles com quem não falamos há anos. Porém, este poço de tristeza ilumina-se pela oportunidade financeira quando o veterano descobre nova maneira de ganhar a vida. Dando uso aos conhecimentos linguísticos e coração romântico, Reikichi começa a escrever e traduzir a correspondência de mulheres Japonesas aos seus amantes americanos. Ele sente escárnio por elas, mas não deixa, por isso, de lhes cumprir e cobrar serviço. Assim é até ao dia em que Michiko lhe aparece como cliente.

Para se entender o peso destas revelações, temos de entender o contexto do Japão dos anos 50. Depois da guerra terminar, os anos imediatos de reconstrução foram marcados pela presença militar Americana. Foi um período de ocupação e muita miséria, quando mulheres desamparadas pelo flagelo bélico se viraram para os homens estrangeiros numa tentativa desesperada para sobreviverem. Mesmo depois do fim dessa ocupação oficial, a presença dos soldados perpetuou-se pela década seguinte, com a Guerra da Coreia a fazer do Japão um antro de Americanos.

A sociedade fortemente misógina de uma nação outrora império não olhou com bons olhos essas mulheres. Indo além do ódio ao inimigo, há muitas gradações de xenofobia envolvidas, uma desconfiança pelo Oeste e a punição daquelas que supostamente traíram as suas origens. Mesmo quem se casou com os militares não se poupou ao julgamento, nem mesmo aquelas que engravidaram e depois se viram legalmente impedidas de exigir sustento ao pai dos filhos. Aos olhos de muitos, todas essas senhoras eram prostitutas a ser encaradas com desdém.

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© Shintoho Film Distribution Committee

Apesar de Kinuyo Tanaka demonstrar algum desgosto pelo trabalho do sexo no modo como filma suas profissionais, a câmara está sempre pronta a questionar a hipocrisia de homens como Reikichi. Quando confrontado com Michiko, o preconceito sobrepõe-se à compaixão e Tanaka nunca enquadra estas atitudes como justas. Muito pelo contrário, apesar de ser uma personagem secundária que nem figura no primeiro terço do filme, Michiko acaba por definir a fita. “Koibumi” torna-se na tragédia dessa senhora que, na viuvez, se deixou levar por um soldado Americano e agora lhe implora para enviar dinheiro enquanto seus compatriotas a julgam.

Cheio de composições elegantes, o filme é sempre belo mesmo quando retrata a feiura do comportamento humano. Nem a conclusão poupa o espetador, escolhendo a incerteza ambivalente a qualquer tipo de final feliz. Através de tudo isto, os atores brilham sob a direção de Kinuyo Tanaka. No papel de Michiko, Yoshiko Kuga é especialmente extraordinária, encontrando gradações de fúria até quando o texto sugere vergonha unilateral. Masayuki Mori, um dos grandes atores da época, também triunfa no papel de um homem que, tal como a sua nação, precisa de encarar o presente como ele é, sem idealismos desumanos. Estar preso aos sonhos e expetativas de outros tempos é inútil quando esse futuro morreu e outro nasce no horizonte.

Koibumi, em análise
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Movie title: Koibumi

Date published: 7 de May de 2022

Director(s): Kinuyo Tanaka

Actor(s): Masayuki Mori, Yoshiko Kuga, Jûzô Dôsan, Jûkichi Uno, Chieko Seki, Shizue Natsukawa, Kyôko Anzai, Yumi Takano, Kikuko Hanaoka, Harumi Kajima, Ichiro Kodama, Ryuzo Oka, Naoko Kubo

Genre: Drama, Romance, 1953, 98 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Numa renegação do moralismo conservador que recriminava aquelas que somente cometeram o crime de sobreviver a todo o custo, Kinuto Tanaka estreia-se na realização. Sua primeira longa-metragem prima pela delicadeza com que encara tópicos tabu, apontando o dedo à hipocrisia dos homens e à sistemática vitimização das mulheres no Japão do pós-guerra. Por entre imagens pitorescas e enquadramentos precisos, os atores triunfam.

O MELHOR: Yoshiko Kuga no papel de Michiko e a fotografia de Hiroshi Suzuki. As conversas da mulher e seu antigo amor, dela e o irmão dele, são milagres de perfeita encenação. Veja-se o uso de um rio para separar aqueles que veem o mundo com diferentes olhos, ou a janela de um comboio a desfazer um casal qual força do destino materializada em forma de locomotiva.

O PIOR: O tratamento das profissionais do sexo peca pelo rasgo conservador. Também pedíamos uma maior centralização de Michiko na história. Seu reaparecimento na vida de Reikichi é um momento forte, mas profundamente expectável do ponto de vista textual. Tanto assim é que a tentativa de surpresa é meio fútil.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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