"Super Natural" | © Ukbar Filmes

IndieLisboa ’22 | Super Natural, em análise

Depois de várias curtas, Jorge Jácome finalmente assina a sua primeira longa-metragem. Depois de passar na Berlinale, onde venceu o prémio FIPRESCI, “Super Natural” faz parte da competição nacional no 19º IndieLisboa.

Todos procuramos a conexão, ora com outras pessoas, com o mundo que nos rodeia ou connosco. A sociedade digital do presente nasceu desse mesmo desejo, do modo como o progresso veio corresponder à vontade humana. Se, no processo, acabámos por nos desumanizar, é outra questão. Desfragmentamos a realidade na procura da ligação instantânea, diluímos o espaço e o tempo até que tudo nos parece imediato sem o ser. Quiçá esta eterna procura seja maior que o próprio ser humano. Quem sabe? Poderá ser experiência universal de todo o ser consciente de si mesmo.

Com o início no vazio do ecrã escuro, “Super Natural” estende-se para além da natureza conhecida e vai buscar locutores a dimensões além da Terra e seus habitantes. O vazio é cinematográfico, mas também pode ser espacial, talvez até existencial. Do nada surge luz e cor, uma abstração que traz consigo o som e um diálogo. Só que este último não se faz por voz, mas escrita, legendas brincalhonas que conversam em tom de pesquisa cósmica. Serão alienígenas que falam e nos discutem? Poderão ser deuses, ou o cinema em si que pondera o espetador.

super natural critica indielisboa
© Ukbar Filmes

Jácome, André Teodósio e José Maria Vieira Mendes posicionam o texto enquanto convite para a audiência. É um convite para a participação ativa de quem vê o filme – ou o experiencia melhor dizendo – e assim se vê envolvido num outro nível de encontro que transcende o mero confronto cara-a-cara. Trata-se do diálogo da arte com aqueles que lhe dão razão de ser, uma peça sobre conexão que é, por si só, um exercício em conectividade multimédia. Durante 85 minutos, suas questões embalam-nos até estado hipnótico, repetindo-se em ciclos temáticos.

Os menos generosos poderão caracterizar tal mecanismo enquanto queda na redundância. Contudo, há que se reconhecer os seus efeitos e compreender a utilidade que podem ter. Aplaudimos, por exemplo, como o entorpecimento de alguns sentidos leva ao atiçar de outros – um fenómeno que tal exposição cinematográfica estimula. Somos imersos no cosmos de “Super Natural” por via da repetição, até que, de consciências mescladas, o diálogo na tela e o diálogo na mente são um só. Entre a alucinação e o sonho, sentimo-nos puxados para a janela dimensional do grande ecrã.

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É evidente que o jogo de Jácome e companhia não será para todos. De facto, as mesmas maravilhas ainda agora descritas certamente podem ser interpretadas de outra forma. Tanto a fita procura a conexão que acaba por se fechar sobre si mesma, resultando em algo insular e alienado. Apesar de não concordarmos com essa leitura, é uma daquelas inevitabilidades sempre que se fala de cinema experimental que ousa estender-se além da curta-metragem e exalta grandes ambições. Pelo menos, diríamos que o filme nunca exige deciframentos.

Obviamente, isso não significa que alguns o encararão como um puzzle e assim acabarão frustrados. Até os autores têm noção disso, brincando com a hipótese do espetador insatisfeito no seu próprio argumento. A certa altura, perguntam-se as vozes sem voz se ainda estamos aqui. Noutra ocasião, fazem súplicas para deixar o filme acabar. O sentido de humor é sempre bem-vindo e ajuda a aligeirar um projeto difícil. Dito isso, até o mais carrancudo dos espetadores terá que admitir algumas qualidades inegáveis.

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Como todo o cinema de Jorge Jácome, “Super Natural” é ambrósia para os sentidos, adotando um formalismo puro e duro que quase nos impõe deslumbramento à força. Depois de “Plutão,” “Flores” e tantos outros, a diretora de fotografia Marta Simões prova mais uma vez ser a colaboradora mais importante do realizador. Na mesa de montagem, Jácome não lhe fica atrás, conjugando uma variada cornucópia de imagens, desde a abstração do início a imagens da Madeira, Super 8 granulado e montagens digitais saídas diretamente do Instagram.

A participação da companhia Dançando a Diferença do Funchal contribui a sua mesma cornucópia, esta feita de corpos heterogéneos que fogem à norma da normalidade, mas não estão por isso menos sedentos de conexão. Na mesma medida em que se dança com a câmara de Simões, também a coreografia passa pelo foro sónico. Violet e Raw Forest compõem a música eletrónica que se ouve ao longo de “Super Natural,” mas é a equipa de António Porém Pires e Shugo Tekina que eleva a sonoplastia aos seus píncaros trans-dimensionais. Ao ritmo de tais paisagens do ouvido, a busca pela conetividade do humano de Jácome torna-se em exploração cinematográfica, num poema épico e íntimo feito em nome das máximas possibilidades desta arte que nos é tão querida.

Super Natural, em análise
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Movie title: Super Natural

Date published: 4 de May de 2022

Director(s): Jorge Jácome

Actor(s): Milton Branco, Alexis Fernandes, Diogo Freitas, Bernardo Graça, Bárbara Matos, Celestine Ngantonga Ndzana, Maria João Pereira, Isabel Gomes Teixeira, Mariana Tembe

Genre: Fantasia, 2022, 85 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Em jeito experimental e inebriado de ambição, “Super Natural” é daqueles filmes que procura a imersão do espetador ao mesmo tempo que tenta estimular o visionamento ativo. Jorge Jácome assim passa da curta para a longa-metragem, mas mantém sua veia vanguardista e o sentido estético apurado.

O MELHOR: A fotografia de Marta Simões, suas cores vibrantes e plasticidade mutante.

O PIOR: A repetição que arrisca a redundância é nota a apontar, mas também temos que mencionar quanto as legendas poderiam ter sido mais exploradas. Nas poucas ocasiões em que Jácome brinca com o seu formato, abrem-se novos horizontes de possibilidade a pedirem para ser explorados. Infelizmente, durante a maioria da fita, os cineastas fazem-se de ouvidos moucos para tal pedido.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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