Urban Solutions, de Arne Hector, Minze Tummescheit, Luciana Mazeto, Vinícius Lopes | via IndieLisboa

19º IndieLisboa | Crónicas Curtas #2

Chegou um novo dia, e com ele surgiu uma nova onde de curtas-metragem do 19º IndieLisboa para analisar!

INDIELISBOA 2022 – CRÓNICAS CURTAS #2

Hoje, antecipando a sessão da COMPETIÇÃO INTERNACIONAL CURTAS 6, aqui fica uma análise crítica do que se vai apresentar na sessão única da próxima Quinta-Feira, 5, pelas 21:45 no Pequeno Auditório da CULTURGEST, uma opção de programação que pessoalmente considero legítima mas discutível no quadro geral de programação do INDIELISBOA. Na verdade, se pensarmos que no contexto da COMPETIÇÃO INTERNACIONAL apenas se repetiu uma sessão, e por sinal no mesmo dia, a CI 4, há aqui matéria que merecia algum espaço de debate numa eventual reflexão sobre o modelo que o festival quer privilegiar no próximo futuro. Felizmente, a competição nacional mereceu maior exposição.

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Steakhouse IndieLisboa
Steakhouse, de Špela Čadež | via IndieLisboa

Seja como for, para já, avanço para a curta crónica de algumas curtas do mundo:

JEUDI, VENDREDI, SAMEDI, 2021, Arthur Chan (França): De início vemos um caracol seguindo o seu caminho em marcha lenta (a que mais poderia um gastrópode aspirar?), imagem bucólica que contrasta com uma série de planos de uma máquina que, não sendo infernal, acaba por provocar uma fumarada no interior de uma fábrica, entretanto evacuada numa espécie de alegre sobressalto. Lá de dentro saem dois homens, um deles com um arquear de pernas digno de um cowboy de série B, e ambos vão pelos campos até que um pergunta ao outro se não seria bom, face aos problemas levantados pelo incidente laboral e a possibilidade de a fábrica fechar, poderem passar uns dias a fazer o que provavelmente mais lhes apetecia, ou seja, nenhum. Dito isto, há um outro filme que assim se inicia dando lugar, primeiro, ao segmento intitulado “Jeudi, Le Maillot D’Adémar”. Neste primeiro dia livre, os dois amigos e colegas decidem ir dar umas braçadas num magnífico lago, daqueles de fazer inveja. Mas o das pernas em arco não quer que o vejam no seu calção de banho. Daqui para a frente, o que se vai passar, as situações geradas por causa desta estranha inibição e a reacção das personagens que vão aparecendo nas margens dão lugar a diálogos deliciosos e divertidos que, acredito, provocarão um saudável sorriso mesmo no rosto do mais circunspecto. Eu ri que nem um perdido, garanto-vos. Depois vem o segmento “Vendredi, La Fiévre de Romain”. Nesta altura, a realização decide acalmar os afloramentos de comédia mordaz para incidir a atenção na relação das coisas práticas entre amigos. Um deles, com visíveis sinais de febre, aparece em casa do outro e acaba deitado na cama do colega o dia inteiro. E o plano imaginado para esse dia ficou assim adiado. Há um ou outro curioso pormenor que se mantém do segmento anterior, nomeadamente uma questão relacionada com o correio, assim como uma fina reintrodução do imaginário do reino animal em breves apontamentos mais ou menos simbólicos. Mas o caminho faz-se caminhando, e passamos então para o último segmento, “Samedi, Le Courrier”. Os dois amigos acordam para um novo dia, pouco a pouco desenha-se uma relação entre ambos que já não passa agora apenas pela condição de colegas e logo a seguir, quase a medo, admitem que algo mais se passou naqueles improváveis dias de “folga”. De repente o carteiro, que nunca víramos parar junto da casa, deposita uma carta na caixa do correio. Parece uma criança, o das pernas abauladas, quando mostra a carta ao amigo que entretanto parece saber o que estava para acontecer. E, magnífica ideia, nunca saberemos o que a carta dizia. Mas podemos adivinhar o que seria ao vermos o plano final, que não vou aqui revelar. Uma obra só na aparência simples e ligeira, que merece sem favores a pontuação de 80.

Steakhouse IndieLisboa
Steakhouse, de Špela Čadež | via IndieLisboa
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STEAKHOUSE, 2021, Spela Cadez (Eslovénia, Alemanha, França): Uma animação com um estilo gráfico curioso mas algo convencional sobre um homem que na sua cozinha prepara um bife, algo que passou pela cabeça dos autores desta curta como sendo uma surpresa para a sua companheira que faz anos e se atrasa, provavelmente por causa da pequena festa organizada pelos colegas, mas sobretudo pelos engarrafamentos e ineficácia dos autocarros na hora de ponta. Lá como cá. Uma vez em casa, a mulher mal consegue vislumbrar o marido dada a quantidade de fumo gerada por uma decisão completamente bizarra do desastrado cozinheiro, ou seja, quem se lembraria de grelhar um bife na chapa antes da aniversariante, ou fosse lá quem fosse, chegar a casa? Não precisamos de ser um “chef” com não sei quantas estrelas Michelin para saber que um bife se faz no momento e se possível, digo eu, mal passado. No filme há ainda um episódio meio surrealista que faz com que a língua do homem acabe por substituir o bife que ficara reduzido a um pedaço de carvão. Estou a contar a história desta curta para salientar um aspecto que costuma atacar uma boa percentagem de curtas. Neste caso, o argumento parte de um pressuposto frágil, fragilíssimo mesmo, dificultando a vida ao espectador que naturalmente perde o interesse pelo resultado final. Falta a este filme o que falta a muitas curtas, não investimento criativo mas sim lógica narrativa. Mesmo assim, louvando sobretudo o domínio da animação de volumes, aqui fica a pontuação: 50

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URBAN SOLUTIONS, 2022, Arne Hector, Luciano Mazeto e Minze (Alemanha-Brasil): No início vemos a Natureza e os insectos que nela habitam. Uma voz off fala da combinação natural das coisas, da beleza da selva, mas igualmente dos olhos inchados pelas alergias e o anseio por um banho retemperador no contexto, pois sim, da mais “segura” selva urbana. Não o diz assim mas vai dar ao mesmo. E de que selva estamos a falar através dos olhos de um europeu? Do Brasil, meus caros, o país onde a classe abastada vive atrás das grades que a protegem dos azares e contrariedades do caos civilizacional. No interior dos condomínios fechados existem aqueles que, segundo se diz, são “pessoas sem grandes posses que protegem as posses dos outros”. Depois a curta evolui para uma verdadeira simbiose de diversas matérias que dizem respeito ao contexto político, económico e social do Brasil combinando, numa espécie de ensaio sobre as divisões de classe na sociedade brasileira, imagens antigas da escravatura com as dos homens que assumem a profissão mal paga e extenuante de serem porteiros, vigilantes e guardas dos edifícios que ostentam nomes chic, estrangeirados, e onde muitos moradores nem sabem o nome dos proletários que no fundo são a primeira e última fronteira entre a falsa segurança dos apartamentos e o medo da agressão exterior. Homens – curiosamente não se encontram mulheres neste serviço – proletários contratados por doze horas diárias durante as quais só entram no espaço dos ricos quando são solicitados para desempenhar uma qualquer missão que nem sequer lhes compete assegurar, como por exemplo desentupir um cano ou coisa similar. Num breve momento, a curta não evita alguma demagogia imagética e ideológica, mas felizmente o impulso para um olhar mais fácil passa rapidamente e logo corrige o fluxo criativo dirigindo-o para uma resolução final plena de esperança, alegria e energia militante de que a letra da canção do genérico final, “O Dia Em Que o Morro Descer e Não For Carnaval” (composta e interpretada por Wilson das Neves, nos idos de 1996), não podia ser mais explícita. De facto, os problemas do Brasil, e não só, não são de agora. E a pergunta fica a pairar, até quando vão durar? Pontuação: 80

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STARFUCKERS, 2021, Antonio Marziale (EUA): Teoricamente, estamos no quarto de uma hipotética figura conhecida no firmamento do que resta da fama Made in Hollywood, e antes de atingirmos o nicho do “Hollyweird” iremos acompanhar a relação de um rapaz (provável prostituto de luxo) com um homem mais velho com uma séria pancada por fetiches urinários. Mais para a frente, os dois depenicam um exemplo da melhor gastronomia Made in USA, ou seja, um prato de almôndegas com massa, e a certa altura o anfitrião decide entrar num jogo de direcção de actores onde prevalece a deixa “Oh God, you are so beautiful”. Só que, pouco antes, sabemos nós espectadores, qualquer coisa iria acontecer para perturbar aquele pacífico face a face. E zás, o “grande” actor cai de bruços desmaiado. Nessa altura uma figura até ali misteriosa pega nas rédeas da acção e acaba a dar um autêntico show de drag queen contaminado por raios e coriscos de vingança e dirigido, ou melhor, imposto ao mais adulto que assiste ao dito, amarrado e amordaçado, mesmo que não queira. Moral da história: da próxima vez que seduzires um aspirante a STAR não lhe prometas mundos e fundos e fica-te pelo mais seguro, a saber, NADA. Pontuação, pelo esforço depositado em alguns valores de produção e na interpretação dos actores: 40

E assim fica concluída mais uma sessão do INDIELISBOA que, não fosse o “fucking film” sobre “starfuckers”, até podia ser globalmente e na prática uma das melhores, mais poderosas e mais coerentes da competição internacional.

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