"Sekundenarbeiten" | © Christiana Perschon

IndieLisboa ’22 | Silvestre Curtas 5

Do retrato da artista ao retrato da cidade, o programa de curtas-metragens da secção Silvestre termina com quatro formidáveis obras. O IndieLisboa continua a surpreender e deliciar com suas seleções.

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© Christiana Perschon

SEKUNDENARBEITEN de Christiana Perschon

Christina Perschon tem dedicado os últimos anos à criação de perfis cinematográficos de mulheres artistas. Em 2014 assinou “Noema” e em 2018 veio “She Is the Other Gaze.” O seu trabalho mais recente, “Sekundenarbeiten,” é a continuação do projeto, dedicando-se ao retrato e Lieselott Beschorner, senhora reclusa que nasceu em 1927 e iniciou carreira artística em 1945. Na década de 50, ela também se tornou na primeira mulher dentro do movimento Wiener Secession que, ao longo da sua História, incluiu tão variados nomes como Gustav Klimt e Renate Bertlmann. Desde o uso do “found object” ao rascunho rápido, a sua oeuvre é vasta e de difícil classificação.

Na tentativa de capturar tão especial criadora, Perschon estabelece um diálogo de formatos cinematográficos. “Sekundenarbeiten” resulta da intercalação de passagens sonoras sem imagem e interlúdios visuais sem som compostos por grandes planos de Beschorner improvisando desenhos abstratos. A qualidade da imagem é granulosa, fruto de uma câmara antiga que Perschon opera à manivela, conferindo qualidades táteis e quase artesanais ao registo. A própria Beschorner comenta a técnica, estendendo o diálogo formalista do filme a uma conversa de colegas criativas. Apesar de separadas por tempos e meios diferentes, há espaço comum entre as duas.

 

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© Mo Harawe

WILL MY PARENTS COME TO SEE ME de Mo Harawe

Parece que todos têm perguntas para Farah. “Como estás? Como te sentes? Tens medo de agulhas? Estás pronto? Que queres comer hoje?” ressoam pelo dia do jovem prisioneiro e ele a tudo responde de forma concisa. Está tudo bem, promete o homem, aceitando o gesto gentil dos perguntadores. Mas Farah também tem uma pergunta a fazer – “Os meus pais vêm ver-me?” O silêncio serve de resposta, a incógnita e incerteza. Mas não há tempo a perder, pois o rito continua qual linha de operações numa fábrica onde o produto é Farah.

Estamos numa prisão na Somália e, ao longo do fatídico dia, uma guarda de cara severa faz vigia ao prisioneiro, desde a visita ao médico ao encontro com um Imã. A câmara de Mo Harawe tudo captura com serenidade, a luz de Steven Samy pintando o processo em tonalidades severas. Há beleza austera no que nos apresentam, mas a tensão sobe a cada minuto, manifesta na banda-sonora e na performance de Xaliimo Cali Xasan no papel principal. A morte aproxima-se a passo ponderado e não há nada a fazer. Farah é um condenado e seu destino está traçado.

Nos seus ritmos precisos e minimalismo estético, “Will My Parents Come to See Me” é um drama de traços Bressonianos. Assim, Mo Haware demonstra imenso controlo de tom e forma, cristalizando a crueldade da execução com frieza poética. Como exemplo, sugerimos o tableau da guarda tentando abafar o som dos disparos, o corpo de Farah prostrado no fundo da imagem. É daqueles momentos cinematográficos que não se conseguem esquecer, que atormentam e assombram o espetador muito depois de o filme acabar.

 

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© Sumito Sakakibara

IIZUNA FAIR de Sumito Sakakibara

A questão de como adaptar uma instalação vídeo a um filme só é uma daquelas questões recorrentes no circuito dos festivais de cinema. Tenta-se manter a experiência museológica ou reformata-se a obra a um novo formato? E quando é impossível seguir uma via de fidelidade? No caso de “IIzuna Fair,” o processo de adaptação faz da câmara espetador, replicando a possível jornada da audiência pela obra original. Acontece que este novo filme de Sumito Sakakibara começou por ser uma grande tela a 360 graus, passando por ciclos de pintura animada numa tentativa de conceber algo semelhante ao quadro em movimento.

Ao estilo dos trackings lendários de Mizoguchi, a câmara traça uma observação horizontal, movendo-se da direita para a esquerda – a mesma ordem seguida na leitura de rolos ilustrados japoneses. O próprio registo textural remete para a imagem pintada à mão, um grande mural de origem artesanal sobre uma feira em Iizuna, seus costumes e traduções. Aqui a pincelada marca presença, mas não se intromete na fluidez gestual. As cores, por seu lado, são meio infantis, mas adequam-se à ideia de festa coletiva. Além do mais, a natureza cíclica do engenho remete para o modo como estes eventos baseados na tradição ancestral perpetuam um ciclo histórico que liga passado, presente e futuro.

 

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© Lois Patiño

EL SEMBRADOR DE ESTRELLAS de Lois Patiño

Perdoem-nos a hipérbole, mas estamos prontos para declarar o novo trabalho de Lois Patiño como a mais esplendorosa obra do programa Silvestre. De regresso ao IndieLisboa depois de já cá ter mostrado longas, o cineasta espanhol agracia a audiência com uma contemplação sobre a baía de Tóquio. “El Sembrador de Estrellas” representa um retorno de Patiño ao seu tema querido da paisagem. Aqui, contudo, troca-se a natureza pelo ambiente citadino e este é levado à abstração através da noite escura e uma câmara que captura a sombra como buraco negro e faz de cada luzinha distante uma estrela na galáxia do ecrã.

A certa altura, essas constelações parecem desafiar os limites físicos do desenho urbano, transmutando o abstrato em algo mais surreal. Tal é a maravilha deste efeito que o filme poderia ser só observação plácida. Contudo, Patiño leva o engenho mais longe, usando o mecanismo da narração para hipnotizar e deslumbrar. Lendo textos dos mais variados autores, Yumika Teramoto e Tetsuro Mareda convidam-nos a afundar no sonho virtual, na deambulação onírica de um dos nossos grandes cineastas independentes. A leitura de haikus sobre condenados à morte intensifica o surrealismo e dá-lhe nota fatalista, ligando também “El sembrador de Estrellas” às outras curtas do programa. Quiçá, ao invés de um sonho, estejamos a ser guiados ao fim absoluto e as estrelas não são estrelas, mas sim a luz ao fundo do túnel.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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