De Nuevo Otra Vez

16º IndieLisboa | De Nuevo Otra Vez, em análise

“De Nuevo Otra Vez” é um filme extremamente pessoal, íntimo e complicado, assinado pela artista argentina Romina Paula. Trata-se de um híbrido curioso entre documentário e auto cinebiografia inserido dentro da Competição Internacional de Longas-Metragens do IndieLisboa.

Aqui por Portugal, Romina Paula será um nome que poucos conhecem. Aqueles que sabem e apreciam o trabalho desta artista argentina, provavelmente só a conhecerão dos filmes de Matías Piñero e “La flor” de Mariano Llimas que, apesar de não terem encontrado distribuição comercial no nosso país, passaram pelo circuito dos festivais em Lisboa. Nesses filmes, Paula mostrou os seus talentos como atriz, mas a verdade é que esta é uma força criativa bem multifacetada.

Na Argentina, ela já trabalhou como atriz em vários meios diferentes, assinou três romances, já escreveu e encenou espetáculos de teatro e, recentemente, mostrou também a sua aptidão enquanto realizadora de cinema. “De Nuevo Otra Vez” é o primeiro filme realizado por Romina Paula e nele, a artista aponta a câmara para si mesma, seus dilemas e inseguranças. Trata-se de um híbrido entre documentário e autobiografia dramatizada que foge às tonalidades neorrealistas que projetos do género costumam ter e prefere seguir uma linha mais ensaística.

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Uma escavação arqueológica pelos arquivos de uma família e pelas cavernas da identidade pessoal.

Paula interpreta-se a si mesmo e assim também faz o resto da sua família, incluindo o filho de quatro anos da cineasta. Ramón, o menino, é um ponto central do filme, sendo que, acima de tudo, “De Nuevo Otra Vez” representa uma meditação sobre a identidade pessoal de uma mulher a confrontar-se com a realidade de ser mãe. Como que para revelar sua componente autobiográfica, o filme começa com um monólogo narrado enquanto, no ecrã, vemos a primeira de várias montagens fotográficas feitas à base de fotos da família.

Enquanto perscrutamos os semblantes congelados no tempo de pessoas que já morreram, de antepassados da realizadora e seus contemporâneos também, Romina Paula fala-nos dos seus dilemas. Será que ela já não sabe o que é o sentido comum? Será que a melancolia é um património da juventude? Afinal, quando estamos mais velhos, não há tempo de olhar para trás e ficar triste. Será que a maternidade é como o passar de uma estafeta, de geração para geração, catapultando mulheres para um estado de constante empatia? Será que é possível que demasiado amor se torne em algo insuportável?

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Será, será, será…? Não há respostas para estas perguntas. Pelo menos, nem o filme nem Paula ousam ter a arrogância de as oferecer. A ausência de conclusões não é adversária da reflexão, no entanto, é isso que “De Nuevo Otra Vez” é, uma reflexão. Ela toma várias formas e está em constante mutação. As montagens fotográficas são só uma parte do edifício cinematográfico. Noutras instâncias, Paula usa dramatizações mais convencionais, técnicas de documentário observacional e até algumas entrevistas feitas diretamente para a câmara, com paisagens projetadas a servirem de papel de parede.

A história que orienta estas experimentações centra-se na realizadora que, após um conflito particularmente complicado com o seu parceiro, decide visitar a mãe e levar o filho atrás. Por entre passeios pelo mundo da memória familiar, Paula vai usando a herança germânica que tem para ensinar alemão. Com um dos seus estudantes, um homem judeu que se quer mudar para Berlim pois considera-a a cidade menos alemã da Alemanha, ela até forma uma amizade que, noutras circunstâncias, poderia precipitar-se num envolvimento amoroso. Ele até acaba por ser uma das figuras que fala diretamente para a câmara, com um postal berlinense projetado sobre a sua pessoa.

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O que é ser mãe?

Por muito que a linguagem formal se vá alterando, os temas são sempre os mesmos e há uma coerência concetual que une um filme que, de outro modo, pareceria muito disperso e indefinido. “De Nuevo Otra Vez”, apesar dessa constante mutabilidade, tem certos motivos audiovisuais que se estão sempre a repetir. Um deles é a presença periférica de Ramón, mesmo quando a cena em questão não se relaciona diretamente com ele. Estamos sempre a ouvir o que ele está a fazer, a apanhar a sua figura a mexer-se às margens da composição. Mesmo quando o plano é construído para se centrar na perspetiva da protagonista, Ramón está lá sempre, invariável e sempre cheio de amor.

Para quem nunca teve filhos, é talvez difícil apreciar na plenitude as meditações da realizadora. Quando ela fala de sentir demasiado amor, de sentir que o filho a consegue ver, mas que ela mesma é incapaz de se ver e entender quem é, tudo isso trespassa uma enorme franqueza e vulnerabilidade perante a câmara. São sentimentos complicados que a abordagem avant-garde e vagamente académica da cineasta nem sempre clarificam. No entanto, a verdade emocional das palavras de Romina Paul transcende qualquer barreira, a franqueza do exercício é impossível de ignorar e assim também acontece com o seu impacto emocional. Trata-se de uma alquimia tonal meio estranha, mas não é ineficaz.

De Nuevo Otra Vez, em análise
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Movie title: De Nuevo Otra Vez

Date published: 2019-05-12

Director(s): Romina Paula

Actor(s): Romina Paula, Ramón Cohen Arazi, Mariana Chaud, Esteban Bigliardi, Denise Groesman, Monica Rank, Pablo Sigal

Genre: Drama, Documentário, 2019, 84 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“De Nuevo Outra Vez” é um ensaio comovente sobre uma mulher a ponderar a nova realidade que vem com a experiência de ser mãe. Romina Paula abre o seu coração para o espectador examinar, mas fá-lo através de barreiras de estilização e propostas formais estranhas que oscilam entre o slideshow e a dramatização convencional.

O MELHOR: Estranhamente, diríamos que a imagem final é um triunfo cinematográfico que merece aplausos. Trata-se de uma construção simples, mas, com inteligente uso de foco e um gesto inócuo, a cineasta ilustra todo o conflito interno de alguém que não está perdida, mas também não sabe que caminho seguir.

O PIOR: Por vezes, quase desejamos que “De Nuevo Outra Vez” fosse um pouco menos complicado na sua abordagem, especialmente a nível formal. A sua constante variação é fascinante de um ponto de vista intelectual, mas contribui muito para a potencial indecifrabilidade do exercício.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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