Peterloo

16º IndieLisboa | Peterloo, em análise

Peterloo” é um épico histórico de Mike Leigh que, no ano passado, competiu no Festival de Veneza. Agora, o filme chega a Portugal, mas, primeiro, teve a sua antestreia no IndieLisboa, onde se inseriu na Secção Silvestre.

Em 1819, no dia 16 de agosto, entre 60 000 e 80 000 pessoas estavam reunidas numa praça pública em Manchester para ouvir discursos políticos em prol de maior sufrágio no Norte de Inglaterra. Em particular, a questão de representação parlamentar era uma prioridade da população que, desde as guerras napoleónicas, se encontrava a sofrer o flagelo da fome e da penúria que as novas leis, implementadas depois de Waterloo, somente tinham exacerbado. Para as forças da autoridade, esta viragem das classes baixas para o radicalismo político era vista como uma ameaça imperdoável ao status quo da nação, sendo que ideais republicanos até já começavam a ser ouvidos e aplaudidos nas ruas. Neste contexto politicamente volátil, foram empregues as forças da cavalaria para dispersar a multidão com violência.

Centenas de pessoas ficaram feridas, homens, mulheres e crianças, e também se registou um número incerto de mortos, incluindo um bebé de dois anos. Apesar de este incidente ter estado na origem de um dos jornais mais famosos do Reino Unido, The Guardian, e de ser um dos capítulos mais importantes na história da política da classe trabalhadora em terras de Sua Majestade, o evento que passou a ser conhecido como o Massacre de Peterloo raramente aparece nos livros de História ensinados na escola. Hoje em dia, é difícil não olhar para o passado e ver os mesmos ciclos políticos a se repetirem, numa dança eterna de opressão dos mais fracos em prol de uma estabilidade que só favorece aqueles que estão no poder.

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Cinema histórico em estado de graça.

Em Inglaterra, existe uma grande tradição de realismo social no grande ecrã. Infelizmente, os artistas que fazem este cinema político raramente olham para o passado, focando os seus esforços em retratar a realidade cáustica do mundo contemporâneo e assim ignorando as fundações históricas destes dilemas modernos, ignorando aquilo que agora se repete num ciclo vicioso. Mike Leigh, com seus trabalhos humanistas baseados em trabalho de ator improvisado, também se insere neste grupo de artistas do grande ecrã. Contudo, ao contrário de muitos outros, ele ocasionalmente dispõe-se a desviar os olhos do mundo atual e virá-los para o passado, suas dinâmicas e injustiças, maravilhas e podridão.

Em 1999, ele visitou os teatros vitorianos com “Topsy-Turvy”. Em 2004, “Vera Drake”, mostrou a questão do aborto no contexto dos anos 40 no seio de uma família de classe baixa. Em 2014, “Mr. Turner” imergiu o espectador no universo pictórico do pintor titular e reproduziu as texturas do século XIX com exatidão quase arqueológica. Agora, Leigh traz-nos o seu filme de época mais político de sempre, abordando o tema do Massacre de Peterloo com o mesmo tipo de indignação gritada que caracteriza o cinema de outros realizadores como Ken Loach. O resultado é “Peterloo”, um filme de época como poucos outros, um épico proto marxista que privilegia o coletivo em detrimento do heroísmo individual, um costume drama que não tenta glamourizar o passado, mas sim recriá-lo com toda a sua bizarra especificidade.

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Tudo começa com imagens da Batalha de Waterloo, no meio da qual nos deparamos com um soldado traumatizado, de olhos esbugalhados face à carnificina em seu redor. Considerando a restante filmografia de Mike Leigh, este momento bélico é inédito na sua carreira. Depois de um prólogo tão breve e chocante, “Peterloo” desdobra-se numa tapeçaria de humanidade, por onde vamos observando as angústias socioeconómicas e políticas de uma enorme massa de gente. O elenco é imenso e Leigh tenta repartir o seu tempo de forma quase igualitária pelas dezenas e dezenas de personagens, algumas meio fictícias, outras construídas com base em documentos históricos. Como consequência de tal abordagem, “Peterloo” é um filme com poucas personagens bem definidas, especialmente durante a sua primeira hora, quando a atenção do realizador está mais dispersa.

Essa ausência de personagens individuais como os pontos focais da narrativa representa uma forma pela qual os ideais políticos deste realizador de esquerda se manifestam na sua elaboração de drama humano. A prioridade, neste caso, é o coletivo e não a glória ou tragédia de uma só pessoa. Há quem vá ficar alienado do projeto devido a tal escolha, mas é impossível negar a coerência concetual que o realizador traz ao projeto. Mais tarde, quando o massacre se começa a evidenciar no horizonte, o foco do filme afunila, dispensando-se dos discursos elaborados que compõem a primeira hora e acabando por sugerir algo semelhante ao thriller histórico. Sabemos que o horror vai rebentar, mas somos obrigados a ver o modo como todos os fatores para a chacina se reúnem gradualmente. O resultado é emocionante e até comovente. Leigh pode ser didático, mas há clarividente paixão por detrás da sua retórica e dos seus mecanismos cinematográficos.

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Provavelmente, o melhor elenco do ano!

Leigh é também um realizador corajoso, sem medo de distanciar o espectador menos generoso. “Peterloo” é terrivelmente comprido e a maior parte do seu tempo é dedicado a diálogos e discursos escritos de forma a reproduzir as várias formas de oratória existentes na Inglaterra da época. Diferenças de classe e género, de privilégio e educação são rasgadas a meio do elenco pelas variações da fala e o realizador tudo isto documenta com o enfoque da obsessão e até algum humor. A certa altura, até as figuras dentro do filme se manifestam contra o palavreado elaborado que aqueles que discursam utilizam para galvanizar o populus, refletindo como até as melhores intenções ativistas podem ser fragilizadas por falta de empatia linguística.

Pela sua parte, o elenco nunca vacila face ao desafio de reproduzir este tipo de discurso extremamente peculiar para um ouvido contemporâneo. Na verdade, ficaríamos muito surpreendidos se, em 2019, um grupo mais fenomenal de atores agraciasse os cinemas portugueses tal é o empenho e virtuosismo que estes intérpretes britânicos demonstram, mesmo aqueles com papéis de uma cena só. De facto, toda a equipa de Leigh, que aqui se reúne com seus colaboradores do costume, o diretor de fotografia Dick Pope, a figurinista Jacqueline Durran e a cenógrafa Suzy Davis, é exemplar. O mundo oitocentista é tão credível e complexo que, por vezes, é difícil não conjeturar se o realizador não terá inventado uma máquina do tempo para ir filmar in loco em Manchester de 1819. Este é cinema histórico do mais alto gabarito, um triunfo que tem algo a dizer e não se restringe a declamar o facto sem um olho crítico. É certo que “Peterloo” representa um sermão ideológico pela parte de Mike Leigh e que padece de alguma subtileza, mas, face a tais horrores, subtileza parece quase algo amoral ou, pelo menos, desnecessário.

Peterloo, em análise

Movie title: Peterloo

Date published: 2019-05-12

Director(s): Mike Leigh

Actor(s): Rory Kinnear, Maxine Peake, David Moorst, Pearce Quigley, Rachel Finnegan, Tom Meredith, Simona Bitmate, Robert Wilfort, Karl Johnson, Sam Troughton, Roger Sloman, Kenneth Hadley, Tom Edward-Kane, Lizzy McInnerny, Alastair Mackenzie

Genre: Drama, História, 2018, 154 min

  • Cláudio Alves - 90
  • José Vieira Mendes - 75
83

CONCLUSÃO:

“Peterloo” leva o cinema realista social britânico e fortemente político para o século XIX e examina um dos capítulos mais horrendos da História do Reino Unido. Mike Leigh usa as suas técnicas usuais para reproduzir um passado específico e bizarro, onde as pessoas falam de modo estranho e se comportam com formalidades bizarras, mas cujas dores e maladias são perfeitamente entendíveis. Trata-se de um triunfo humanista com o aspeto de uma pintura e as texturas de uma escavação arqueológica. Estupendo, mesmo que demasiado comprido.

O MELHOR: A cena do Massacre é horrenda e bela, parece uma série de pinturas oitocentistas em movimento e sua tragédia é exacerbada pelo tempo que a audiência passou com as dezenas e dezenas de diferentes personagens envolvidas na catástrofe.

O PIOR: O filme é obscenamente lento e comprido. Audiências que não estejam em sintonia com o tipo de discurso político e estético do realizador provavelmente irão encontrar em “Peterloo” uma máquina de tortura por tédio.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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