Democracia em Vertigem

16º IndieLisboa | Democracia em Vertigem, em análise

Democracia em Vertigem” é um assustador documentário sobre Lula da Silva, Dilma Rousseff, o PT e a chegada ao poder da extrema-direita no Brasil. Trata-se de um formidável trabalho da realizadora Petra Costa, que assim volta ao IndieLisboa depois de, em 2016, já ter integrado a Competição Internacional de Longas-Metragens com “Olmo e a Gaivota”.

Na Magazine.HD, tentamos sempre usar uma linguagem que denote a coletividade da publicação, evitando que se denote em demasia o indivíduo que escreve, a personalidade e biografia do autor, o “eu”. Tal regra abrange praticamente todos os nossos artigos, mesmo as críticas que, essencialmente, são exercícios de expressão de opiniões individuais. Tudo isto para dizer que existem ocasiões em que poderá haver valor no abandono momentâneo deste estilo editorial. Olhando para “Democracia em Vertigem”, o mais recente documentário da realizadora brasileira Petra Costa, essa ocasião parece ter-se manifestado. A Magazine.HD não é um blog, mas, permitam-nos este momentâneo devaneio pela relação deste “eu” com os temas do filme.

Eu nasci nos anos 90. Tal dado pode parecer completamente despropositado para a crítica de um documentário político, mas não é. Isso significa que nasci e cresci numa época em que a minha consciência histórica e política sempre encarou a ditadura como algo do passado ou algo conscrito a nações. Não quer isto dizer que não estivesse ciente da História, do passado fascista de Portugal e outros países da Europa, do flagelo soviético e das oligarquias militares de tantas outras nações como o Brasil. No entanto, para mim, tudo era um capítulo na história de origem do mundo moderno e democrático. Para mim, era algo necessariamente deixado para trás, algo que todos podíamos concordar ter sido um pesadelo monstruoso e justamente ultrapassado.

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A política é algo pessoal. Assim é, mesmo para quem pensa o contrário.

Por muito tempo, encarei tal opinião nutrida pelo contexto histórico político em que me inseria, como uma verdade universal, tão constante como o azul do céu. Agora, já adulto e já um participante ativo no engenho político em pleno século XXI, olho em volta e é como se o universo estivesse de pernas para o ar. A recente subida de popularidade de propostas de extrema-direita e antidemocráticos não é só algo que contradiz os meus valores. Se fosse só isso, admito que o choque poderia manifestar-se de forma menos intensa. O que mais me transtorna é como tal realidade viola a ordem do universo em que eu julgava viver.

Em retrospetiva, a minha ingenuidade era imensa e quase me envergonho. Tudo era mais fácil e simples quando estes capítulos horrendos da História estavam perdidos no passado e não se adivinhavam como o nosso futuro, como o meu futuro e o futuro de Petra Costa. Tal como fiz nestes parágrafos, também a cineasta estabelece uma ligação entre a história da sua vida, crescimento e entrada na vida política com os ciclos históricos que levaram a que a democracia brasileira estivesse, mais uma vez, em risco. Para esta filha de militantes de esquerda, política é pessoal e não há nada que qualquer pessoa possa dizer que torne essa afirmação menos verdadeira ou universal, mesmo para quem não partilha as mesmas crenças ou biografia da cineasta.

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O filme de Costa revela assim que não se trata somente de um documento sobre Lula da Silva e Dilma Rousseff, de uma análise da queda em desgraça do PT e da ascensão da extrema-direita que se deu nos últimos anos no Brasil. “Democracia em Vertigem” é uma reflexão pessoal e histórica sobre um país e a relação de uma realizadora com a sua pátria. Repare-se como Costa dedica quase tanto tempo a detalhar o modo como a companhia fundada pelo seu avô prosperou em tempos de ditadura como passa a dar contexto sobre formação do PT. Também é pela história da sua família que a realizadora mais humaniza e sublinha o tipo de divisão que assola o Brasil, mostrando como os oprimidos e opressores podem andar de mãos dadas e partilhar sangue.

Estes esforços autobiográficos nunca parecem incongruentes dentro do estudo que Costa concebe, talvez porque a realizadora nunca se esconde por detrás de uma pretensão de imparcialidade ou objetivismo frio. Num gesto bem marcante, ao examinar conversas telefónicas gravadas sem o conhecimento dos intervenientes, Costa para o fluir do filme e força o espectador a ouvir a repetição de certas passagens. Quase sentimos a indignação da realizadora e é como se víssemos a sua caneta a sublinhar a frase, uma e outra vez, para que apreciemos o horror e a conspiração nela indicados.

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A democracia morre ao som de aplausos.

Noutras instâncias, a cineasta chama atenção para o próprio processo de filmagem, referindo quando as imagens que mostra foram gravadas por outras pessoas e como o seu tempo dentro da residência presidencial foi limitado e acabou com mais uma descoberta sobre a História da sua família. Essas imagens da arquitetura modernista de Brasília são particularmente fulcrais para o tom do filme. “Democracia em Vertigem” é quase uma elegia fúnebre a uma democracia que viveu pouco tempo antes de ser chacinada pelos mesmos demónios com que havia lutado para nascer. Tal solenidade é reforçada pela câmara que flutua lentamente pela capital do Brasil, maravilhando-se com as estruturas carregadas de simbolismo e horrorizando-se com a podridão que se esconde atrás destas superfícies monumentais.

“Democracia em Vertigem” não é um filme ingénuo nem é feito para uma audiência ingénua. Aqui temos um documentário político que se atreve a encarar a necessidade de compromisso na mesma medida que chora essa mesma potencial traição ideológica. Na sala do Cinema São Jorge em que o filme foi exibido, ouviram-se aplausos durante a projeção, marcando ocasiões em que figuras no ecrã pareciam resumir a indignação com que Petra Costa insufla o coração do espectador. Ao som dos aplausos, vemos a democracia morrer e com aplausos celebramos este elogio final, este funeral cinematográfico cuja conclusão é uma final expressão de insegurança e incerteza. Também eu aplaudi, pois temos aqui um grande filme, mas também queria chorar.

Democracia em Vertigem, em análise
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Movie title: Democracia em Vertigem

Date published: 2019-05-08

Director(s): Petra Costa

Genre: Documentário, 2019, 113 min

  • Cláudio Alves - 90
  • José Vieira Mendes - 90
90

CONCLUSÃO:

“Democracia em Vertigem” é uma aterradora autópsia a um sonho moribundo de um mundo livre, de um mundo melhor e idealista. A realizadora Petra Costa revela seus talentos para o jornalismo e para a construção de uma arrebatadora experiência de política tornada flagelo pessoal e História familiar.

O MELHOR: As imagens elegíacas de Brasília. Muitas vezes, documentários políticos fraquejam no que diz respeito a questões estéticas e formais, mas este não é um desses documentários.

O PIOR: A realidade que o filme retrata e o modo como o capítulo final, com a ascensão de Bolsonaro parece relativamente apressado em comparação com o resto de “Democracia em Vertigem”.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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