"Diary of a Nudist" | © Dawn Productions

IndieLisboa ’22 | Diary of a Nudist, em análise

“Diary of a Nudist” é o terceiro filme realizado por Doris Wishman, mas é o primeiro no qual a realizadora foi creditada com seu nome. O filme integra a secção retrospetiva do 19º IndieLisboa, em exibição na Cinemateca Portuguesa.

Entre o drama jornalístico e o vídeo promocional, “Diary of a Nudist” ocupa um lugar de importância na filmografia de Doris Wishman. Após ter deixado a sua primeira longa-metragem sem realizador creditado e ter usado um pseudónimo no segundo trabalho, esta fita de 1961 finalmente afirma-se enquanto obra da cineasta. Lá está o seu nome nos créditos, sobrepostos a imagens subaquáticas que demonstram mais rigor formal que o filme principal. Primeiro, contudo, há um prólogo informativo para marcar intenções, onde um grupo de nudistas defende a prática do naturismo.

Feito na alvorada dos anos 60, “Diary of a Nudist” pertence ao subgénero do sexploitation conhecido como “nudie-cutie.” Seu apogeu deveu-se à proliferação de comunidades nudistas nas zonas costeiras dos EUA, clara antecedência das revoluções sexuais prestes a arrancar nos meados da década. Esse fenómeno do nudismo teve origem em vários fatores, mas o que interessa para o cinema de Wishman é seus efeitos no público geral. Nomeadamente, a curiosidade excitada de audiências masculinas desejosas de ver suas fantasias em carne e osso.

diary of a nudist critica indielisboa
© Dawn Productions

Assim se formou o subgénero e seu foco na nudez casual tornada objeto erótico através da câmara curiosa. Foi neste contexto que Wishman começou a carreira e há algo quase documental na estratégia com que ela encara a encenação dos corpos nus. o enquadramento narrativo tresanda a artifício e os atores amadores não ajudam a vender a ilusão do real. Contudo, há fascínio na forma como as cenas de nudez recusam a estruturas dramáticas, desenrolando-se mais como murais do quotidiano boémio do que qualquer tipo de história.

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A isso ajuda o facto de Wishman ter rodado o filme numa real colónia naturista da Flórida. A pouca narrativa que ocorre existe somente como pretexto para as passagens de observação pseudojornalística. Mesmo assim, “Diary of a Nudist” destaca-se no negativo pela mediocridade venal do guião. Se trabalhos como “Nude on the Moon” alcançam o kitsch naïf através da simplicidade absurda, esta fita comete o erro de complicar em demasia o que devia ser elementar. Neste caso, trata-se do conflito entre um jornalista e sua repórter subordinada, conspiradores que infiltram a comunidade após sua descoberta acidental.

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© Dawn Productions

Interpretados por Norman Casserly e Davee Decker, Norman e Stacy são personagens que, não alcançando a tridimensionalidade, pelo menos têm mais que uma dimensão só. O arco narrativo acompanha a sua invasão sobre falsos pretextos, catalogando as bizarrias do campo naturista com o intuito de fazer grande artigo às suas custas. Pelo menos, esse é o plano inicial de Norman e a razão pela qual ele convence a colega a se disfarçar de nudista. Contudo, à medida que Stacy se acostuma ao modo de vida sem roupa, em comunhão com o corpo e a natureza, mais a consciência lhe pesa.

Não fosse já isso carga psicológica a mais para este divertimento sórdido, mas Wishman acrescenta ainda um fator romântico que só se faz sentir no ato final da trama. A reviravolta é inorgânica e precisa de atores mais capazes que aqueles sob direção desta rainha do sexploitation. Em suma, estamos perante uma das obras menos bem conseguidas de Wishman, um exercício desequilibrado que só funciona realmente quando esquece a penosa história, a promoção do nudismo e afins, focando-se somente na plasticidade estética de corpos nus vivendo em idílio Rousseauniano.

Diary of a Nudist, em análise

Movie title: Diary of a Nudist

Date published: 30 de April de 2022

Director(s): Doris Wishman

Actor(s): Davee Decker, Norman Casserly, Dolores Carlos, Una Diehl, Joan Bamford, Maria Stinger, Harry W. Stinger, Charles Allen

Genre: Aventura, Romance, 1961, 72 min

  • Cláudio Alves - 45
45

CONCLUSÃO:

Deixando-se levar pela tentação da estrutura narrativa, Doris Wishman vacila naquele que foi o primeiro filme em que aparece creditada enquanto realizadora. Filmado numa colónia naturista da Flórida, o filme oscila entre a promoção de um estilo de vida alternativo e o drama jornalístico com ares eróticos. Infelizmente, a negociação entre estes tons discrepantes jamais resulta em bom cinema. Pelo menos, assim é no caso deste “Diary of a Nudist.”

O MELHOR: A banda-sonora de Harry Glass, cujos ritmos ligeiros conferem uma pátina de sofisticação ao trabalho de Doris Wishman atrás da câmara.

O PIOR: A história de amor entre os protagonistas, seu mau gosto misógino e ineficácia enquanto mecanismo dramático.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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