IndieLisboa ’22 | Nude on the Moon, em análise

A retrospetiva de Doris Wishman continua no 19º IndieLisboa. Depois de “Bad Girls Go to Hell” e “Diary of a Nudist,” foi a vez de “Nude on the Moon” passar na Cinemateca Portuguesa, deliciando audiências com uma estranha mistura de sexploitation e ficção-científica.

Quando realizou “Nude on the Moon” em 1961, Doris Wishman ainda trabalhava sob um pseudónimo masculino. Anthony Brooks foi o nome com o qual esta pioneira se creditou, trabalhando aqui em conjunção com Raymond Phelan para criar um dos exercícios eróticos mais divertidos da década de 60. Sua natureza caricata é óbvia desde a primeira cena. Longe de apresentar qualquer corpo desnudo, a cineasta introduz o espetador ao seu cosmos fílmico através do prelúdio musical, Ralph Yoing cantando sobre amores lunares enquanto a noite estrelada brilha no ecrã.

De seguida, o milieu passa do fantástico para o corriqueiro. Ao invés de cumprir logo a promessa patente na publicidade do filme, Wishman e Phelan fazem-nos esperar pela nudez deste “nudie-cutie.” Antes disso, há que estabelecer a premissa da exploração espacial pré-Apollo 11 através dos afazeres quotidianos dos astronautas em cenário terrestre. Estas cenas pecam pelo tédio, mas apontam para uma estranha serenidade na filmografia de Wishman. Quiçá por trabalhar com um corealizador, os seus trejeitos estilísticos mais peculiares são amansados.

nude on the moon critica indielisboa
© Moon Productions

Em todo o caso, estas cenas servem para estabelecer a dinâmica dos nossos protagonistas, dois cientistas prontos a explorar a Lua. Eles são o Professor Nichols e o Dr. Huntley, personagens um pouco mais caracterizadas que o usual herói de filme nudista. São eles que embarcam uma nave que parece feita de cartão pintado e viajam rumo ao espaço. No clímax da missão, os dois adormecem e acordam com a aterragem. Julgam estar na Lua, mas estarão? Como obras mais tardias de Wishman, a possibilidade do sonho existe enquanto justificação eterna.

O que eles descobrem certamente aponta para a loucura onírica. Explorando o terreno em macacões de lycra colorida, os aventureiros enveredam por um clima tropical. Ora por falta de meios ou amadorismo, Wishman atrasa o nosso primeiro vislumbre deste Éden, criando a expetativa de algo extraordinário. O que nos espera, no entanto, é algo mais perto do jardim de esculturas Floridiano do que um novo mundo fantasioso. Só algumas construções rochosas marcam a natureza alienígena do lugar. Isso e seus habitantes, pois claro.

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Até onde a vista alcança, só se veem esbeltas senhoras em topless e alguns homens também. O figurino é diminuto, encimado por antenas reluzentes que ora servem como meio de comunicação telepático ou moda extraterrestre. Há algo de Bíblico na imagética que Wishman produz, um Génesis reinventado para os anos 60 que surpreende pela castidade. O intuito do filme pode ser o despertar de prazeres lascivos, mas a encenação dos corpos prefere o simulacro de casualidade em contrapartida de jogos eróticos.

Essa qualidade engloba o texto também, sua parca estrutura e rejeição de enredo propriamente dito. Acontece que, após a chegada à Lua, pouco mais acontece em “Nude on the Moon.” Acompanhamos os cientistas na sua observação sem nunca cair em tramas ou qualquer tipo de engenho dramático. O que mais se aproxima de tais modelos é o florescer do romance com a rainha do povo lunar. Mesmo aí, a resolução é rápida e feita sem grande aparato, proporcionando um final feliz compatível com o regresso à Terra, com o necessário abandono do Paraíso.

nude on the moon critica indielisboa
© Moon Productions

Há gentileza nesta proposta kitsch, neste erotismo inocente onde o ato sexual não é consequência imediata da nudez coletiva. Wishman não era, de forma intencional, uma autora progressista, mas o seu cinema revela ideias que se poderiam caracterizar assim. “Nude on the Moon” talvez seja o píncaro de tal faceta no trabalho da realizadora, apelando a uma vivência epicúria e hedonista, onde a harmonia reina e as hierarquias de género privilegiam o feminino. A banda-sonora de Daniel Hart sustenta esse desejo, concedendo a fluidez do jazz aos quadros bucólicos.

Como sempre quando falamos do cinema de visionários naïf como Doris Wishman, há que assumir os limites do filme em questão. Por muito sereno que “Nude on the Moon” possa ser, verificamos uma enorme falta de primor na montagem, com o uso de planos aleatórios para cobrir falhas na sincronização de som e imagem. As cores vibrantes enganam o olho, mas não há forma de ignorar a rudimentaridade de todo o design cénico. O objeto final é imperfeito enquanto cinema. Contudo, é perfeitamente fascinante como um artefacto do sexploitation americano feito antes da revolução sexual que se viria a sentir mais tarde na década de 60.

Nude on the Moon, em análise

Movie title: Nude on the Moon

Date published: 30 de April de 2022

Director(s): Doris Wishman

Actor(s): Marietta, William Mayer, Lester Brown, Pat Reilly, Ira Magee, Lacey Kelly, Shelby Livingston, Robert W. Kyorimee, Charles Allen

Genre: Fantasia, Ficção-Científica, Romance, 1961, 83 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

Um monumento de erotismo fantástico, de ficção-científica sexualizada e inocência despida, “Nude on the Moon” é joia preciosa na coroa cinematográfica de Doris Wishman, rainha do sexploitation. Para quem se sinta com vontade de explorar kitsch dos anos 60, trata-se de visionamento obrigatório.

O MELHOR: O bizarro tom que o filme alcança logo com seu prelúdio musical.

O PIOR: A resolução com ares de “Feiticeiro de Oz” deixa muito a desejar, parecendo forçada em comparação com a fluidez casual da restante fita.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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