Funeral Parade of Roses

15º IndieLisboa | Funeral Parade of Roses, em análise

Funeral Parade of Roses” é um dos filmes mais importantes das vanguardas japonesas dos anos 60, reimaginando a tragédia de Édipo num contexto nipónico através de uma explosão de estilo cinematográfico importado do modernismo europeu dos grandes ecrãs. Este é um dos filmes a ser exibidos dentro da secção Boca do Inferno na presente edição do IndieLisboa.

O início de “Funeral Parade of Roses” é possivelmente uma das cenas de sexo mais belas da História do cinema. Mantendo a sua câmara próxima dos corpos dos seus atores, o realizador Toshio Matsumoto reduz a fisionomia humana a um jogo de volumes luminosos, deixando no ecrã somente as linhas sombreadas da união de duas pernas ou da sobreposição de uma mão noutro corpo. É um espetáculo da sexualidade humana levada ao extremo da estilização, ameaçando tornar-se abstrata, e é também uma cena de fogoso erotismo.

Entre as paisagens de pele e carne, duas faces evidenciam-se, suas bocas num exercício de adoração carnal. Uma delas pertence a um homem de meia idade, a outra, aparentemente é a de uma mulher. Pelo menos é o que o espectador é convidado a concluir, ao vislumbrar um par de lábios pintados e pálpebras coroadas com densas pestanas falsas. É evidente que, sendo este um dos filmes mais transgressivos da Nova Vaga de Cinema japonês, nem tudo é o que parece e, de facto, a figura putativamente feminina é, na verdade, um jovem travesti.

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“Nouvelle Vague sob o efeito de esteroides(…)”

Talvez fosse mais correto caracterizar Eddie como uma mulher transgénero, mas tais categorizações não parecem interessar muito ao filme, uma criação deliberadamente impossível de categorizar que parece ser orientada pela absoluta prioridade de chocar e confrontar o espectador. Tal confrontação vai muito além de questões de identidade ou sexualidade, manifestando-se principalmente numa abordagem formalista tão vistosa quão audaz, mesmo não considerando a belíssima sequência que abre o filme.

Em termos mais concretos, “Funeral Parade of Roses” é uma óbvia obra nascida no seio das vanguardas cinematográficas dos anos 60. O seu estilo e mistura de entrevistas, metacinema, documentário, ficção, abstração e simbolismo é como que um cocktail dos mais vistosos impulsos formais da Nouvelle Vague levados a inusitados níveis de exagero. Por muito extremo que o estilo possa ser, há sempre uma certa beleza na sua execução, uma mistura paradoxal de elegância formal e vontade de subverter códigos sociais.

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A fotografia a preto-e-branco é aguçada como uma lâmina, variando entre grande naturalismo documental e momentos de estilização que parecem saídas das páginas da Vogue. A montagem é um frenesim alucinatório que salta entre os já mencionados registos com descarada impudência, acabando também por mergulhar muito do filme num jogo de flashbacks traumáticos que pressagiam o final trágico. Nouvelle Vague sob o efeito de esteróides talvez fosse uma boa descrição, não fosse também necessário considerar o elemento queer que as personagens edificadas por Matsumoto e seus intérpretes trazem à experiência cinematográfica.

De certo modo, a indefinição de registo cinematográfico reflete as ambiguidades e complexidades identitárias das figuras em cena, quase que levando a ideia do cinema queer a algo que transcende questões de temática e se resume principalmente a uma transgressão formal. Por essa e muitas outras razões é fácil entender a importância e legado do filme, tanto no panorama do cinema queer como dentro de outros circuitos. Inebriado pelas propostas estilísticas de “Funeral Parade of Roses”, Stanley Kubrick teve a ideia de levar “A Laranja Mecânica” das páginas ao grande ecrã e sempre creditou o trabalho de Matsumoto como uma influência, por exemplo.

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“(…)uma obra que tanto perdura nos cânones do cinema mundial(…)”

No final de todas estas ponderações formais e concetuais, não podemos, contudo, esquecer que, não obstante os seus impulsos experimentalistas, “Funeral Parade of Roses” contém um esqueleto narrativo bem presente. Trata-se da história do já referido Eddie, que se encontra envolvido num triângulo romântico perigoso. O seu parceiro sexual do início do filme é Gonda, o proprietário de um popular club gay de Tóquio, o Clube Genet, onde Eddie passa as noites a entreter sob vigilância de Leda. É essa terceira figura que mais epítetos melodramáticos traz à narrativa, sendo ela uma drag queen namorada de Gonda e presente gerente do Clube Genet.

Ao longo do filme, este triângulo vai-se precipitando na ravina da tragédia, ao mesmo tempo que Eddie é atormentado por memórias violentas do seu passado familiar. Esta é, afinal, uma interpretação nipónica e estilisticamente maximalista da tragédia de Édipo e esse passado acaba por apanhar o protagonista nos últimos momentos do filme, proporcionando um espetáculo sangrento que quase catapulta o projeto para o panorama do cinema de terror. Por muito joviais que as experimentações de forma e estilo deste filme possam ser, Matsumoto vai buscar à tragédia clássica a sua conclusão.

Mesmo assim, é interessante ver como o cineasta se recusa a julgar as suas personagens, preferindo sempre encontrar nelas o veículo para a criação de imagéticas chocantes na sua beleza, violência e poder transgressivo. Talvez por tudo isso, “Funeral Parade of Roses” seja uma obra que tanto perdura nos cânones do cinema mundial, continuando a influenciar realizadores ainda nos dias de hoje. Olhando para as imagens conjuradas por Matsumoto e companhia para este melodrama multifacetado, é fácil sentirmo-nos inspirados também, nem que seja a sonhar com os mundos de possibilidade e beleza sugeridos pelas misteriosas e sedutoras figuras da noite de Tóquio.

Funeral Parade of Roses, em análise

Movie title: Bara no sôretsu

Date published: 27 de April de 2018

Director(s): Toshio Matsumoto

Actor(s): Pîtâ, Yoshio Tsuchiya, Osamu Ogasawara, Emiko Azuma, Yoshimi Jô, Koichi Nakamura, Flamenco Umeji, Saako Oota, Tarô Manji, Toyosaburo Uchiyama, Mikio Shibayama

Genre: Drama, 1969, 105 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO

A tragédia de Eddie, Leda e Gonda é um dos grandes feitos do cinema japonês da segunda metade do século XX, tendo vindo a influenciar cineastas durante décadas com o seu estilo maximalista e endiabrada energia experimentalista.

O MELHOR: A beleza marmórea, quase abstrata, da cena de sexo que abre o filme.

O PIOR: Matsumoto usou não atores para interpretar os papéis, o que é uma mais-valia em cenas de entrevista, especialmente um momento maravilhoso em que Peter, que interpreta Eddie, fala das semelhanças entre si e sua personagem. No entanto, nas partes do filme mais tradicionalmente narrativas, este mecanismo prova-se distrativo e a falta de capacidades dramáticas do elenco tende a fazer com que o elemento humano do filme se perca no seu estilo, criando-se uma experiência um tanto ou quanto alienante.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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