13º IndieLisboa | O Lugar que Ocupas, em análise

Em O Lugar Que Ocupas, o realizador Pedro Filipe Marques, constrói um retrato fatalista da cultura em Portugal, a partir de imagens de um teatro a ser demolido como que por dragões mecânicos, os animais cativos e em vias de extinção do Jardim Zoológico e as figuras de vários atores portugueses na intimidade de seus camarins.

o lugar que ocupas

Com o seu enfoque nos bastidores de inúmeros espetáculos, assim como o seu hipnótico olhar sobre a demolição do Teatro ABC, seria fácil assumir-se que O Lugar que Ocupas, o sexto esforço enquanto realizador de Pedro Filipe Marques, seria um filme sobre teatro. Isso é uma falsidade, pois longe de se preocupar com a complexidade de tal arte, a câmara de Marques apenas tem olhos para os atores que ela integram, seguindo-os mesmo para plateaux de filmagens e estúdios de dobragens. No entanto, poder-se-ia dizer ainda que o retrato aqui concebido não é também simplesmente reduzido a uma observação do ator, mas sim a uma dissecação documental e metafórica do estado da cultura em Portugal e sua resistência contra uma ameaça de destruição e esquecimento que, a cada dia que passa, se vai tornando mais persistente. Essa já referida observação que se torna veículo da dissecação, é feita sobretudo em bastidores nos momentos que antecedem ou se seguem a uma apresentação, encontrando assim os atores nos seus camarins, em preparação para a performance ou no seu rescaldo, falando entre si enquanto preparam as suas faces para o artifício teatral, ou se despem de seus figurinos e fumam um cigarro enquanto se queixam e vitimam devido a algum comportamento desagradável de um membro do público ou o estado do Teatro em Portugal.

Não é somente entre a demolição do teatro e as cenas da vida de atores que o filme se vai alternando. Também imagens dos animais do Jardim Zoológico de Lisboa são uma inescapável constante neste exercício cinematográfico. Seu propósito no filme é incerto, mas parece apontar para uma comparação entre si e os atores, ambos criaturas em constante estado de observação por olho alheio, ambos tornados espetáculo e ambos aqui examinados de perto pela câmara de Pedro Filipe Marques. Nesse panorama de pensamento, há, contudo, que referir como os próprios atores se tornam audiência de si mesmos, sendo que, de modo extremamente explícito, isto é traduzido na sua constante apreciação e examinação das suas próprias imagens no espelho.

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Seguindo esta ideia de observadores e reflexos espelhados, olhe-se a última imagem do filme em que o quotidiano deste jogo de observações se torna algo quase abstrato, com o tempo a distender-se e a imagem virtual do reflexo no espelho dos bastidores. Na banda-sonora, esta fragmentação da realidade destas criaturas observadas é acompanhada por várias vozes que tentam descrever alguma impercetível obra de arte, arquitetónica ou escultórica. Nessa exploração verbal, a palavra teatral é conjurada, não como a realidade visceral que temos vindo a observar ao longo de O Lugar que Ocupas, mas como um conceito distante, uma ideia tão virtual como o reflexo da atriz meio distorcido pelos jogos de espelhos, câmara e luz de camarim. Nestes momentos finais, o ato de observar é assim posto em destaque, o de observar e analisar, como se o realizador estivesse a sublinhar as suas intenções ensaísticas sobre o sujeito do ator português.

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Apesar de toda esta carga de ensaio quase académico, o verdadeiro triunfo do filme devém da simples observação que faz, onde a câmara é ignorada pelos seus sujeitos de tal modo que seria de esperar uma maior noção de constante falsidade performativa. Porém, isto aparentemente não ocorre ou então é escondido pela montagem, e assim os atores vão-se expondo numa relativa intimidade para o realizador, sua câmara e, consequentemente, a audiência de cinema. Tal aproximação não é contudo, apenas um estudo em misérias e profundas realizações sobre a condição humana, pois uma boa parte do valor de puro entretenimento que este documentário consegue alcançar é a sua captura do ridículo de muitos destes indivíduos. O pretensiosismo intelectual manifesta-se em inúmeras ocasiões, expondo a sua feia face e mostrando uma inesperada insularidade na perspetiva de muitos destes seres do palco. Na verdade, quase poderíamos apontar uma hipocrisia elitista em alguns discursos, um distanciamento do mundo exterior, uma visão egocêntrica da vida que é tão mais ridícula pelo modo como as mesmas pessoas que exibem tais declamações de pseudo intelectualidade serem muitas vezes os primeiros a criticar tais fragilidades no discurso de outras pessoas.

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Tais palavras poderiam apontar para um retrato de vilificação generalizada da figura do ator, mas tal está longe da realidade de O Lugar que Ocupas. Pelo contrário, o filme é mais elegia que qualquer tipo de análise crítica das figuras que tão intimamente filma. Na mesma cena em que tais absurdos ideológicos e estéticos são proferidos, podemos observar as mesmas figuras a debaterem as suas idas à casa de banho antes do início da récita. Em muitas cenas em que se fala da condição presente do ator enquanto artista neste país, ou outros tópicos de semelhante conteúdo, ouvimos inúmeras generalizações: “eles, os produtores, eles, os burocratas, ele, o miúdo do Conservatório, eles, o público”. Apesar disso, Pedro Filipe Marques mantém-se distanciado dos seus sujeitos nesse aspeto, apresentando-os como uma coletividade de impossível generalização, cheia de indivíduos e vidas tão idiossincráticas como fascinantes.

Tão elegíaco é esse retrato, que O Lugar que Ocupas quase relembra as tonalidades melancólicas e fatalistas de grandes obras-primas do cinema como O Leopardo de Visconti ou O Salão de Música de Ray. Nesses filmes, a aristocracia de duas nações distintas é forçada a examinar a sua obsolescência neste mundo, contra ele lutam, mas acabam por ser derrotados, percebendo o fim da sua era, ou simplesmente perdendo forças para a resistência. Aqui, também os atores são apresentados com a nobreza de guerreiros que se debatem contra o esquecimento, do tempo, do mundo e das audiências. À medida que um teatro é reduzido a ruínas e tornado uma pilha de escombros em que cães errantes defecam, os atores debatem-se com salas quase vazias, mas continuam em frente. Por consequência, por muito que o filme se apresente quase como um apocalipse do teatro em Portugal, tal finalidade está longe de ser iminente, mesmo dentro do tom fatalista do filme. Mais depressa o céu cairá que o teatro irá morrer, poder-se-ia bem dizer, e, tal como o teatro, pois são algo distinto, o trabalho dos atores também se mantém e manterá ereto e insolente face a quaisquer ventos de destruição que tudo tentam reduzir a ruínas perdidas na memória. Tal persistência é de incomensurável admiração, sendo que, por muito ridículas e irritantes que estas figuras possam ocasionalmente ser, nunca deixam de parecer dignas do olhar apaixonado e hipnotizado que lhes é concedido por Pedro Filipe Marques.

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Um caráter nobre de seus sujeitos não impede o filme e sua direção de terem inúmeros problemas, há que se dizer. Como seria de esperar de um realizador que foi responsável pela montagem por alguns dos melhores filmes do cinema português, apesar do seu vagaroso e épico ritmo e duração, O Lugar que Ocupas é uma obra de primoroso domínio e segurança editorial. O mesmo se verifica na fotografia que bem se aproveita do dramatismo dos camarins com seus espelhos e lâmpadas desnudadas, mas tais elogios não se podem dar a componentes mais sonoras e textuais. Fala-se pois claro da narração em voz-off que vai acompanhando todo o filme e que apenas cessa quando as palavras dos atores, ou os rugidos da demolição assim o exigem. Tal recurso verboso retira impacto à sublime relação de imagens conjuradas pelo realizador para além de pouco acrescentar que não seja um desinteressante pretensiosismo sob a forma de uma montanha de referências teatrais. Se os seus sujeitos muitas vezes demonstram um certo elitismo intelectual, então o seu realizador fá-lo com o dobro da intensidade, criando um texto caracterizado por uma miríade de referências literárias e teatrais que serão bastante inescrutáveis para quem não for familiar com a tragédia de Antígona, com o Avarento de Molière, com a obra de Becket e muitos outros que tais. Que tal acrescento textual é muitas vezes um desastrado resumo ou descrição do que estamos a ver ou acabámos de presenciar é algo ainda mais imperdoável, dando ao filme uma redundância e inconsequência que apenas o rouba de valor e complexidade cinematográfica.

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Tal como muitos dos outros filmes nacionais em competição no IndieLisboa, O Lugar que Ocupas pretende fugir a uma convenção cinematográfica que cria dualidades limitantes entre géneros. Afinal, na sua apresentação e narração, Pedro Filipe Marques está longe de ter criado um documento de uma realidade, mas mais uma impressão simbólica dela mesma, moldada e modulada pela sua própria argumentação subjetiva. Uma comparação mais interessante seria, possivelmente, a comparação com outras obras, semelhantes híbridos com linguagem de documental, que tomam o ator como ponto de partida para a sua construção. Fala-se de Kate Plays Christine e Olmo e a Gaivota, duas obras que utilizaram a figura do ator, num caso de cinema no outro de teatro, como principal enfoque da sua exploração humana, ora como mecanismo de pesquisa e questionamento de realidades humanas e performativas, ora como sujeito dramatizado que expõe suas angústias e intimidades a um público de cinema. Ao contrário de ambos esses filmes, O Lugar que Ocupas, por muito que o realizador argumente em contrário, não estabelece um diálogo equilibrado com a sua audiência, sendo mais um vómito constante de ideias tidas como absolutas e imperativas, tanto da parte do seu realizador como de seus verbosos sujeitos. Isto resulta numa obra que peca pela insularidade e uma abjeta limitação ideológica. No final das suas quase três horas, o público fica com a amarga perceção que acabou de ver um filme sobre atores concebido para ser visto e completamente apreciado pelos seus intervenientes ou relativos sujeitos, um elogio fúnebre apenas ouvido na sua totalidade pelo cadáver em homenagem, consequentemente expondo-se como algo que pode ser deveras fascinante e merecedor de análise mas que também é extremamente limitado por barreiras que parece que ninguém que fez este filme se apercebeu que estava a construir.

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O MELHOR: A primeira grande sequência nos bastidores do Alkantara, em antecipação de um espetáculo que acaba por não ocorrer devido a falta de audiência, é uma soberba curta-metragem sobre espera, desilusão, resiliência, cansaço e o efémero ímpeto de seguir em frente.

O PIOR: A odiosa voz-off que, sempre que se manifesta, é como uma lâmina que vai perfurando a integridade do total edifício cinematográfico que é O Lugar que Ocupas.


 

Título Original: O Lugar que Ocupas
Realizador:  Pedro Filipe Marques
Elenco: Lígia Roque, Maria Duarte, Gonçalo Ferreira De Almeida, Crista Alfaiate, Miguel Loureiro, Álvaro Correia 
Documentário | 2016 | 165 min

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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