"Os Verdes Anos" | © Midas Filmes

IndieLisboa ’21 | Os Verdes Anos, em análise

Os Verdes Anos”, obra consagrada como impulsionadora do Novo Cinema Português, passou no IndieLisboa 2021. A exibição fez parte da programação Director’s Cut, servindo de contexto para um novo documentário sobre o realizador Paulo Rocha, “A Távola de Rocha”.

Onde começou o Cinema Novo Português? Académicos, críticos, historiadores, cinéfilos e cineastas têm discordado neste ponto desde tempos imemoriais. Diz a tradição retórica mais consensual que foram “Os Verdes Anos” de Paulo Rocha que assinalaram o início desta vanguarda lusitana. Contudo, tal declaração deixa o “Dom Fernando” De Ernesto de Sousa e os “Pássaros de Asas Cortadas” de Artur Ramos fora da fotografia, o que também não nos parece justo. Se há uma figura central no nascimento do Novo Cinema Português, diríamos que nem foi um realizador, mas sim o produtor António da Cunha Telles. Ou, num ponto de vista mais abstrato, talvez a figura central seja o Estado Novo, a ditadura fascista que propulsiona uma Arte à sua revelia, uma Arte do contra, revolução por meios de película em celuloide.

Algo é certo, no paradigma do Cinema Português, na conceção nacional da sétima arte, “Os Verdes Anos” realmente sabem a novidade. Admitimos que a fita inclui em toda uma conjetura história, um panorama momentâneo de radicalismos audiovisuais, que iria fazer desabrochar o movimento vanguardista com ou sem a sua intervenção. Contudo, nada disso lhe tira valor – muito pelo contrário. Se desnudarmos a obra dessas vestes de importância histórica, talvez até fosse mais fácil apreciar seus efetivos valores, suas qualidades. Acontece que, não obstante a fama e o lugar de primazia em muitos livros, “Os Verdes Anos” não é nenhum ‘trabalho-de-casa’ fílmico. Por outras palavras, vê-lo deveria ser encarado como uma bênção ao invés de como obrigação.

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© Midas Filmes

Em termos narrativos, a história é uma tragédia arquetípica sobre a colisão entre tradição e modernidade, campo e cidade, classe média que sonha em subir e classe trabalhadora que teme descer, violência masculina e vitimização feminina. “Os Verdes Anos” decorre na Lisboa contemporânea de 1963, quando Júlio, um jovem de 19 anos, viaja para a capital na promessa de trabalho que o tio lhe arranjou. É pela palavra do homem mais velho que entramos no universo do filme, no dia em que o sobrinho chega e são lançados os dados para um conto com fado tenebroso. Sua narração é pontuada por observações sardónicas, a perspetiva de um misantropo sábio que contempla os erros da nova juventude.

Por muito que o filme se vá inundar de romantismos fatalistas, o tio Afonso está sempre pronto a despejar um balde de água fria sobre a audiência emocionada. O senhor parece capaz de ver através do nevoeiro do namorisco, percebendo o seu parente jovem bem melhor do que ele se percebe a si mesmo. A perspetiva cosmopolita e cansada assim enquadra a história de amor entre Júlio e Ilsa. Trabalhando no arranjo do calçado, Júlio conhece a moça que lhe traz os sapatos da patroa para substituir solas e saltos. Ela é empregada de uma família abastada, um elemento perdido algures no meio da hierarquia social, movendo-se sem dificuldade por espaços que aparentam ser mutuamente exclusivos. Não demora muito até que Júlio se apaixona pela rapariga. Afinal, quem é que não se apaixonaria pela jovem Isabel Ruth?

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Tal sentimento é mútuo, um primeiro amor para ambos os amantes, aquele tipo de sentimento forte que inebria a mente e mata a razão. Pondo em risco o emprego, Ilda até leva o namorado aos armários, quartos íntimos e zonas privadas, dos patrões. Numa das cenas mais risonhas da fita, faz-se de modelo para o rapaz, fazendo troça da exuberância burguesa ao mesmo tempo que se adorna com seus figurinos. Em certos modos, trata-se de uma sedução, a mostra do corpo em diferentes trajados, mas também uma exibição de mobilidade social. O que inicialmente concilia o relacionamento, será também o que precipitará a desgraça. É que, com o passar dos dias jubilantes, a alegria lisboeta de Júlio apodrece em algo vil.

O provincialismo dele desperta o desinteresse dela e a ameaça de negligência amorosa é a árvore que produz o fruto da raiva. O texto de “Os Verdes Anos” morde esse pomo com avarícia, despontando uma conclusão que parece saltar de tom em tom, transfigurando a fita num terceiro ato repentino. Contudo, só quem não prestou atenção ao formalismo de Rocha se poderá dizer surpreendido. Renegando uma narratividade dialética, o realizador concilia temáticas políticas com o lirismo da forma. “Os Verdes Anos” passa a perna ao neorrealismo e parte à descoberta de um movimento menos dogmático, esquivando-se do registo panfletário e da psicologia das personagens. De facto, Ilda e Júlio são mais definidos pelo olhar da câmara do que pelas suas ações.

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© Midas Filmes

Esse serão em casa dos patrões é pontuado por imagens de tetos, olhos virados para cima em gesto que simula a escalada social. Uma dança acompanhada pela belíssima música de Carlos Paredes é toda captada num movimento contínuo, horizontal, os amantes subsumidos a silhuetas ensombradas. A luz da cidade reduz o casal à escuridão, um ofuscar que vê o contexto urbano sobrepor-se ao carinho individual. Noutra passagem, uma tarde turística na companhia do tio, ouvimos falar de suicídios e miramos o passeio com distância clínica. Sem nos apercebermos, é como se o enquadramento antecipasse uma morte que só se manifesta no clímax. O estilo não é inimigo da substância. Na verdade, os dois são um.

Há muitas outras análises possíveis para “Os Verdes Anos”, especialmente quando ponderamos a relação arquitetónica entre os amantes e a cidade. Veja-se, por exemplo, como a sapataria subterrânea em que Júlio trabalha abre para a rua através de uma janela comprida, rente ao chão. O retângulo de luz define o seu olhar como um Cinemascope que só vê pés, sapatos, indicadores de classe a caminhar por cima dos trabalhadores enterrados. Esse leitmotiv do sapato é um dos mais poderosos do filme, um desses elementos cinematográficos que tem perpetuado a longevidade desta estreia de Paulo Rocha. Em suma, como marco histórico, a importância de “Os Verdes Anos” é tão proclamada quanto debatida. Enquanto obra-prima do cinema português, o valor do filme é indiscutível.

Os Verdes Anos, em análise
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Movie title: Os Verdes Anos

Date published: 31 de August de 2021

Director(s): Paulo Rocha

Actor(s): Rui Gomes, Isabel Ruth, Ruy Furtado, Paulo Renato, Óscar Acúrcio, Carlos Jesus Alfonso, Manuel Bento, Ruy Castelar, Julio Cleto, Olga De Campos, Manoel de Oliveira

Genre: Drama, Romance, 1963, 91 min

  • Cláudio Alves - 92
92

CONCLUSÃO:

Um poema de amor fatídico, uma canção de Lisboa, uma alegoria do mundo moderno – “Os Verdes Anos” é uma longa-metragem sem igual que imediatamente consagrou Paulo Rocha como uma das grandes vozes do cinema português. Para fãs da sétima arte numa esfera lusitana, esta fita é visionamento essencial. O Novo Cinema Portugês teria existido sem “Os Verdes Anos”, mas nada tira valor a esta belíssima estreia na realização.

O MELHOR: A fotografia de Luc Mirot, com assistência de Elso Roque. O bailado na penumbra é um tableau de especial beleza.

O PIOR: Como acontece com muitos filmes portugueses desta época, a sonoplastia deixa algo a desejar. Nem as restaurações supervisionadas por Pedro Costa ajudaram.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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