John Wick 3 - Implacável

John Wick 3 – Implacável, em análise

John Wick 3 – Implacável” é um bailado febril e psicadélico de golpes marciais hiperbólicos, que vende resmas de violência como um ato artístico indulgente. Keanu Reeves encontrou o seu novo “Neo” no alter ego de “John Wick”.

Pois é, após um interregno de cerca de dois anos, o “Baba Yaga” e o seu Pitbull estão de volta àquela correria desenfreada pela calçada nova-iorquina ensopada de suor, lágrimas e sangue. A frase bem que poderia ser adotada como preâmbulo de uma daquelas histórias medonhas para atormentar criancinhas inocentes durante o sono, mas Wick (Keanu Reeves) é um bicho-papão de uma estirpe letal que só presta visitas a monstros como ele. Agora, “excomunicado” pelas suas retaliações mafiosas aos pés da escadaria neutra do Continental, Jonathan passa a ter a sua cabeça milionária a prémio e toda a nata de assassinos vorazes no seu encalço. São as regras absolutistas emanadas pela regência obscura da “High Table”, que se faz representar no terreno conflituante por uma daquelas implacáveis magistradas de apetite fúnebre (Asia Kate Dillon), nada complacente com brincadeiras fúteis ou perdas de tempo improfícuas. Mas o seu lastro inquisidor não se esgota nas condutas desviantes do assassino mor idealizado por Kolstad, abrange eventuais cúmplices no seu plano de fuga. Sim, porque a partir do momento em que o ponteiro do relógio administrativo colocar aquele contrato de 14 milhões pela sua captura em vigor, contar-se-ão pelos dedos os favores que Wick conseguirá cobrar.

John Wick 3 - Imparável
John Wick (Keanu Reeves) e “A Diretora” (Angelica Huston) recordam o passado.
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De facto, o enredo não poderia revelar-se mais simplório e vulgar na evocação mais primitiva das emoções humanas, mas Derek Kolstad consegue desbanalizá-lo desse estigma comum se conseguirmos aceder ao seu plano mitológico. O formato retilíneo de pancadaria vertiginosa em catadupa, não favorece em nada uma apreciação mais séria da realidade utópica em que a mesma se insere, mas quando nos é permitida a veleidade de uma respiração para enquadrar o seu Pathos (emoção) com o seu Logos (razão), somos capazes de deslindar todo um vasto universo alegórico ininteligível. Assim, se o primeiro silogismo regulamenta o colorímetro de toda a ação ultra estilizada, o segundo estipula a sua imanente hierarquia peculiar, e é nessa conformidade idiossincrática, que somos compelidos a aceitar Wick como uma proposição especial, dentro do seu espectro mundanal. Com o hotel Continental de portas fechadas – o santuário faustoso que Kolstad quimerizou como um espaço de lazer civilizado, aonde dois agentes rivais podem beber o seu copo descomprometidamente, a carcaça rija de John com um pedaço de ombro pendurado à pressa, irrompe ansiosamente pela Biblioteca Pública de Nova Iorque para ter o seu primeiro grande momento litúrgico.

John Wick 3 - Imparável
John Wick (Keanu Reeves) na Biblioteca Pública de Nova Iorque.

Em prol da preservação da literatura clássica, o mano a mano que se segue poderá descrever-se sucintamente como a arte de bem agredir um intruso à leitura alheia sem arrancar uma única folha da lombada, já que para o engenhoso Wick, até o “book-fu” encerra em si mesmo uma verdadeira técnica marcial. Não estivesse ele na companhia do gigante basquetebolista sérvio dos Philadelphia 76ers (Boban Marjanovic), que durante as gravações da dita cena, teve de ensaiar um primeiro pontapé na cara de um duplo, antes de conseguir aplicar a sua pegada cinquenta na querida face do seu maior ídolo de cinema. Claro que o desfecho do combate já todos sabemos qual é, mas não fosse a modelagem artística infundida naquelas coreografias escabrosamente espalhafatosas de Chad Stahelski (o stuntman de Reeves em “The Matrix”), e não teríamos, por ventura, aquelas que são as mais intensas e inventivas lutas corpo a corpo alguma vez produzidas por um estúdio made in Holywood.

(…) Wick é uma espécie de James Bond em esteróides no país das maravilhas.

Mas grande parte desse sucesso deve-se à dedicação extrema de Keanu, que já na respeitável casa dos cinquenta e quatro, é uma autêntica máquina de treino. Oito horas por dia durante seis semanas a bailar judo, jiu-jitsu, sambo, shoot wrestling e kali, só para deixarmos cair a boca e os olhos com o seu reportório de “fatalities”. Seja a cravar tímpanos num lápis aguçado ou a pregar testas num punhal antigo, tudo é “fu” para John Wick, que é como quem diz: – vais morrer de qualquer jeito! E é neste jogo de pés desajeitadamente realista e intencional, que a realização de Stahelski vai escalando os seus cenários neo-noir com todas as octanas visuais dignas de um “Bertolucci”, com uma filmagem larga, firme e rápida. Mas é Dan Laustsen quem fornece o tinteiro contrastante e o candeeiro incandescente para o seu quadro carnavalesco ir roubar aquele lado mais gótico da Art Déco Nova-Iorquina dos anos 20. Agora, combinem essa irreverência vintage com um feeling “kubrickiano”, e o resultado é como se Bruce Lee e Chow Yun-fat unissem as suas forças na dimensão “Tron”. Assim sendo, com uma personalidade tão vincada, Wick é uma espécie de James Bond em esteróides no país das maravilhas.

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Sofia (Halle Berry) com o seu cão Sam.

E é com esse sentimento de nómada viajante, que a trilogia engrandece o seu apelo universal, transportando Jonathan à sucursal africana do Continental, sediada na cidade marroquina de Casablanca, aonde a anfitriã Sofia (Halle Berry) aguarda a chegada do seu ilustre colega para uma travessia no deserto. Mas é naquelas estreitas e amplas ruelas do mercado portuário da medina de Essaouira, que Stahelski eleva o pedigree das suas rixas de rua, revelando-nos uma cinquentona Halle Berry tão felina e feroz com o seu “dog-fu”, que quase se parece com um John Wick de saias. Ela que treinou intensivamente como uma lutadora MMA, e até partiu três costelas só para estar ao nível do seu parceiro de crime, mas quem rouba os holofotes por inteiro são os dois cães belgas furtivos, que se atiram aos abonos de família dos adversários como uma refeição deliciosa para mais tarde recordar.

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Mas nem tudo são favas contadas em John Wick 3 – Implacável, que pese embora o manifesto esforço em camuflar alguns buracos na sua armadura argumentativa, limita-se a enquadrar os intervenientes no contexto pontual da sua narrativa principal, sem que haja o devido insight dessas personagens secundarizadas. É certo que Kolstad, nunca nos dera como agora, tantas achegas sobre o enigmático passado do senhor Wick: quando ele revisita a academia de ballet dirigida por uma velha raposa conhecida (Angelica Huston), ou vagueia pelo Saara até lhe ser concedida uma audiência com o manda-chuva daquilo tudo…Mas quer seja por uma limitação formalista inerente a este género de ação para consumo fácil, ou uma jogada de bastidores para assegurar a sobrevivência do franchise, a verdade é que todos os “lollipops” audiovisuais e elenco carismático, não conseguem disfarçar que Wick continue a ser “weak” na explanação do seu enredo multifacetado.

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John Wick (Keanu Reeves) e o seu némesis Zero (Mark Dacascos).

E chegamos ao derradeiro nível para defrontar o boss final, tal como se estivéssemos a jogar mentalmente um estimulante e custoso videojogo. Zero (Mark Dacascos) é o último calo na jornada redentora de John, e ambos não poderiam oferecer-nos uma química mais eletrizante para baixar o pano deste terceiro ato. Hiroyuki Sanada (47 Ronin) estava para ser o vilão, mas Dacascos é chamado à última da hora por Stahelski como plano B, e ainda bem que assim foi, já que a sua prestação é de uma classe superior. O duelo entre os dois irmãos de armas é pujante e eloquente, mas é vítima da maximização de todos os confrontos musculados que o antecederam, acusando a extenuação da repetição contínua dos seus movimentos.

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(…) Os “lollipops” audiovisuais e elenco carismático, não conseguem disfarçar que Wick continue a ser “weak” na explanação do seu enredo multifacetado.

John Wick 3 – Implacável é mais bizarro, arrojado e diversificado que as rendições anteriores, mas a sua fórmula “smash ‘em up” já começa a dar mostras de alguma fadiga estrutural, que poderá atingir o seu ponto de saturação caso o guião de Kolstad insista em dar-nos tão pouco sumo para tanta fruta. Mas, por agora, enquanto John Wick for como aquele miúdo porreiro do fundo da rua com quem todos querem brincar, então só nos apraz dizer: – brinquemos todos juntos até fartar!

John Wick 3 - Imparável
John Wick 3: Implacável

Movie title: John Wick: Chapter 3 - Parabellum

Movie description: Neste terceiro filme do franchise cheio de ação e adrenalina, o super-assassino John Wick (Keanu Reeves) regressa em fuga e com a cabeça a prémio pelo valor de 14 milhões de dólares e, por este motivo, tem um exército de assassinos de caça ao homem no seu rasto que querem conseguir a recompensa a todo o custo. Depois de matar um membro da Alta Cúpula dentro do terreno do Hotel Continental, John Wick é excomungado e luta para sair com vida da cidade de Nova Iorque, mas os homens e mulheres mais implacáveis do mundo esperam por ele em cada virar de esquina.

Date published: 2019-05-24

Director(s): Chad Stahelski

Actor(s): Keanu Reeves, Halle Berry, Laurence Fishburne, Ian McShane, Lance Reddick

Genre: Ação, Crime, Thriller

  • Miguel Simão - 85
  • Luís Telles do Amaral - 79
  • João Fernandes - 75
  • Marta Kong Nunes - 85
  • Maria João Bilro - 70
  • Catarina d'Oliveira - 70
  • Daniel Rodrigues - 60
75

CONCLUSÃO

John Wick 3 - Implacável é, seguramente, o grande blockbuster do Verão a abater este ano, sendo já um campeão das bilheteiras só na primeira semana de estreia. Depois do seu inesquecível papel como "Neo" em "The Matrix", Keanu Reeves sente-se como peixe na água na pele de John Wick, e mais uma vez volta a elevar a fasquia no que a stunts e combate corpo a corpo diz respeito. John Wick 3 - Implacável é mesmo implacável na qualidade exibicional, só peca por não nos emaranhar mais na sua intrigante realidade distópica.

O Melhor: Keanu Reeves é um "one man show"; Halle Berry surpreende pela forma física e destreza de movimentos; o regresso de Mark Dacascos é nostálgico; coreografias de luta impressionantes; cenas de ação do outro mundo; cinematografia estilizada cria contraste de luz e cor impactante; banda sonora eletrónica de alta voltagem.

O Pior: Argumento pouco aprofundado; personagens sem história própria; combates extenuantes e repetitivos; John Wick 4 regressa em 2021.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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