Jonathan Freedland em entrevista: “Black Mirror reflete muitas das minhas preocupações”

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MHD: Ficou surpreendido quando viu alguns dos eventos que aconteceram no livro “Matar o Presidente” a desenrolarem-se na vida real?

JF: “Matar o Presidente” imagina a situação em que um demagogo volátil e imaturo é eleito para a Casa Branca. Dois dos seus assessores mais antigos concluem que ele representa um perigo para os EUA e para o mundo – e decidem que é um dever patriótico retirá-lo do cargo. Maggie Costello, que trabalha na Casa Branca, descobre o plano e tem de decidir o que está certo: parar um homicídio e deixar o mundo livre à mercê de um potencial tirano cada vez mais louco, ou cometer traição contra o seu Comandante.

Como pode ver, nenhum destes eventos se desenrolou na vida real. Mas têm surgido várias surpresas. Por exemplo, o meu livro abre com um presidente ficcional, cujo nome nunca é mencionado, a ordenar um ataque nuclear à Coreia do Norte. Quando escrevi o livro, o conflito com a Coreia do Norte parecia hipotético. Admito que agora o cenário pareça menos hipotético.

No meu livro também tenho dois antigos militares nos cargos de Secretário de Defesa e de Chefe de Equipa. Quando escrevi eu não sabia que eles – Mattis e Kelly – eram generais e estariam agora nesses cargos.

No meu livro o Presidente e a sua equipa mostram uma impressionante simpatia com a “direita alternativa”, que leva a que sejam realizados grandes debates sobre se o presidente é de facto racista. Quando escrevi o livro, os tumultos em Charlottesville e tudo o que seguiu ainda não tinham acontecido.

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No meu livro os funcionários da Casa Branca referem-se à filha do presidente como “A Princesa”. Quando escrevi não tinha ideia de que isso se tornaria no apelido da filha do verdadeiro Presidente dos EUA.

Por isso, admito que fiquei surpreendido – e um pouco chocado [por ver os casos do livro a acontecerem na vida real]. E os leitores também. Há quem me chame Nostradamus [médico conhecido pela sua suposta capacidade de vidência] e há quem me peça para escolher os seus números da lotaria! Mas tudo aquilo que fiz foi olhar para o que tinha acontecido em 2016 e começar a imaginar aquilo que poderia acontecer em 2017, 2018 e por aí adiante.

Jonathan Freedland

MHD: Estava à espera que “Matar o Presidente” fosse tão bem-recebido pelo público?

JF: Tu nunca sabes como os leitores vão reagir até eles começarem a ler. Estava na esperança que esta história tocasse os leitores, mas a extensão do seu entusiasmo foi uma grande surpresa e prazer para mim. A reação tem sido extremamente positiva e isso é uma bela sensação. Eu acredito que muitos [leitores] acharam purificante ler o livro, assim como eu achei purificante escrevê-lo.

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MHD: Dada a importância dos videojogos e das redes sociais nos seus últimos livros, qual é a sua opinião sobre a internet e a sociedade?

JF: Estou extremamente preocupado com algumas dessas tendências, especialmente com o impacto que elas terão na próxima geração. Estou preocupado pelo facto de os media sociais permitirem que as eleições sejam pirateadas e as notícias falsas sejam divulgadas, mas também pela realidade em que tanto as crianças como os seus pais estejam igualmente viciados nos seus telemóveis. A série “Black Mirror” reflete muitas das minhas preocupações de uma forma brilhante. Recomendo a produção, uma vez que é uma forma de aviso do futuro.

 

MHD: Por último, tem alguns conselhos para jovens escritores?

JF: Tenho três dicas. Primeira, lê muito. Segunda, lê mais do que uma vez os livros que gostas. Na segunda leitura, tenta perceber aquilo que o autor fez.

Por ultimo, sê curioso. Faz pergunta às pessoas, faz com que elas te contêm as suas histórias. Eventualmente uma delas irá lançar uma ideia.

MHD: Jonathan foi um prazer conhecê-lo e muito obrigada pela entrevista!

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Catarina Fernandes

Mestre em Ciências da Comunicação e fotógrafa amadora. Seriófila compulsiva e apaixonada por literatura, assim como pelo cinema e pela sua história. (Extremamente) Viciada em música e concertos.

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