“La Bola Negra”, dos Javis, e “Coward”, de Lukas Dhont, são dois filmes queer sobre guerra, medo e juventude sacrificada. Mas enquanto o belga sussurra a dor nas trincheiras, os espanhóis fazem explodir Lorca, Franco, o melodrama e a memória numa bomba de cinema.
Foi preciso chegar aos últimos dias da Competição para Cannes 2026 encontrar o seu filme mais livre, mais insolente, mais estranho e, provavelmente, mais irresistível: “La Bola Negra”, dos espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi, mais conhecidos como Los Javis. Um filme que entrou nas salas do papais dos Festivais, não propriamente em bicos de pés ou de vestido comprido, mas com botas, batom, canhões, teatro, música, Lorca na garganta e uma vontade imensa de dizer à História, que desculpe que a conversa ainda não terminou.
A bola preta que a Espanha atirou contra os seus próprios filhos
“La Bola Negra” atravessa três tempos da história espanhola do século XX — 1932, 1937 e 2017 — para contar três histórias masculinas: Carlos, interpretado por Milo Quifes; Sebastián, vivido pelo músico Guitarricadelafuente; e Alberto, por Carlos González, atravessadas pelo desejo, pela repressão e por essa grande especialidade ibérica que é transformar a moral em polícia de costumes. Há uma Espanha antes da Guerra Civil, outra mergulhada no conflito e uma terceira, já contemporânea, aparentemente livre, mas ainda cheia de fantasmas, cadáveres simbólicos e familiares que preferem não levantar certas pedras porque, lá está, pode sempre sair debaixo delas uma verdade inconveniente.
A tal bola negra do título é uma imagem simples e venenosa: a esfera escura lançada para excluir alguém de um clube, de uma comunidade, de uma família, de uma vida possível. Não é preciso uma execução pública. Não é preciso uma sentença militar. Basta o gesto respeitável da rejeição. Basta o preconceito com boas maneiras. Basta uma sociedade inteira a decidir, com ar sério e mãos limpas, quem pertence e quem deve desaparecer.

No centro do filme está na verdade o poeta, dramaturgo Federico García Lorca, (1898-1936) poeta, dramaturgo, músico, homem de teatro, andaluz, republicano, homossexual, génio popular e sofisticado ou melhor, a sua presença-ausência. Lorca é aqui mais do que uma referência cultural. É ferida aberta, fantasma, santo profano, poeta assassinado por uma Espanha que confundia beleza com ameaça, desejo com crime e poesia com subversão. Os Javis não querem apenas homenagear Lorca. Querem continuá-lo. Querem imaginar as páginas que ficaram por escrever quando o fascismo lhe interrompeu a vida aos 38 anos. É uma ambição enorme, quase insolente. Mas às vezes o cinema precisa precisamente dessa insolência para tocar o sublime.
Um excesso assumido de géneros
Formalmente, “La Bola Negra” é um filme de excessos assumido. Tem melodrama, musical, guerra, travestismo, mães devastadas, corpos masculinos filmados como território de desejo e vulnerabilidade, fantasmas de teatro, feridas políticas e uma banda sonora que não tem medo de carregar nos metais, nos tímpanos e na emoção operática. Há filmes que têm pavor de parecer demasiado emocionais. Este não. Este quer mesmo sangrar em público.
A aparição de Penélope Cruz como cantora de cabaret recrutada para entreter tropas franquistas é uma daquelas entradas que só o cinema espanhol consegue fazer sem fugir à verosimilhança. Ela surge como se viesse de uma zarzuela bombardeada pela História, canta, ocupa o plano, electriza o filme e deixa no ar uma ideia central: o travestismo, o palco, a fantasia e a performance podem ser espaços de possibilidade quando a guerra é exactamente o contrário: a morte da possibilidade.

Também há Glenn Close, num papel de uma especialista norte-americana em estudos queer, e Lola Dueñas, essa presença sempre capaz de transformar uma mãe ferida numa instituição melodramática. Tudo isto podia descambar numa grande mistura de géneros cinematográficos, sem sentido. Às vezes quase descamba. Mas é precisamente nesse quase que o filme vive: entre a grande arte e o folhetim, entre a política e a ópera, entre Almodóvar e Lorca, entre a raiva histórica e o prazer descarado de fazer cinema.
“La Bola Negra” é bastante melhor do que “Coward”. Porque arrisca mais, respira mais largo, tropeça com mais grandeza, inventa mais cinema. Pode ser demasiado espanhol, demasiado queer, demasiado teatral, demasiado musical, demasiado tudo. Mas antes demasiado tudo do que cuidadosamente nada. Mas é para jáum dos mais fortes candidatos à Palma de Ouro 2026.
“Coward”: a coragem triste de quem não quer morrer
“Coward”, de Lukas Dhont, é outro filme sobre rapazes esmagados pela ideia de coragem. Só que aqui estamos na frente belga da Primeira Guerra Mundial, em 1916, com lama, medo, fardas, corpos cansados e uma palavra terrível pairando sobre todos: cobarde. A palavra é quase uma bala. Durante séculos, homens foram empurrados para a morte apenas para não ouvirem esse insulto. O cinema de guerra, muitas vezes, ajudou à festa, transformando carnificinas em mitologias de virilidade, patriotismo e peito aberto.
Dhont tenta fazer o contrário. O realizador de “Girl” e “Close” não está interessado no heroísmo tradicional, nem no general de olhar grave, nem no soldado que morre com a fotografia da noiva no bolso. O que lhe interessa é o intervalo entre a violência: os homens que esperam, que cantam, que tremem, que representam peças improvisadas, que se vestem de mulher para entreter outros soldados, que descobrem formas frágeis de intimidade no meio do absurdo.

Pierre (Emmanuel Macchia), o jovem soldado que chega à guerra ainda contaminado pela fantasia da bravura masculina, encontra Francis (Valentin Campagne), antigo alfaiate e agora espécie de artista de variedades e de sobrevivência. Francis canta, organiza espectáculos, veste-se de mulher, cria uma pequena comunidade sentimental dentro da máquina de destruição. E é aí que o filme encontra a sua melhor ideia: a guerra, lugar máximo da masculinidade obrigatória, pode paradoxalmente abrir brechas inesperadas para homens que, em tempo de paz, talvez vivessem ainda mais vigiados.
Várias maneiras de ser homem
Há uma frase, ou pelo menos uma ideia, que atravessa “Coward”: para alguns, a paz também pode ser uma prisão. Parece escandaloso dizê-lo num filme sobre a Primeira Guerra Mundial, mas é justamente aí que Dhont toca no nervo. A guerra mata, claro. Mas a sociedade civil também sabe matar de forma mais lenta: pelo silêncio, pela vergonha, pela moral, pela família, pela obrigação de ser “homem” de uma só maneira.
“Coward” é, nesse sentido, um filme de guerra contra a mitologia da guerra. A sua pergunta é simples e poderosa: quem é o verdadeiro cobarde? O rapaz que tem medo? O soldado que não quer matar? O homem que deseja outro homem? Ou o mundo adulto, patriótico, masculino e muito respeitável que precisa de mandar jovens para o matadouro para depois lhes chamar heróis em cerimónias oficiais?
Dhont filma tudo isto com a sensibilidade que já conhecemos. Gosta dos rostos em sofrimento, dos corpos em tensão, da emoção à flor da pele, dos silêncios que quase pedem legenda sentimental. Por vezes, insiste demasiado. A câmara parece querer arrancar cada hesitação ao rosto de Pierre, cada respiração, cada lágrima em potência. Há momentos em que o filme podia confiar mais no que já filmou e sublinhar menos o que quer que sintamos.
Ainda assim, “Coward” tem uma beleza inegável. O cabaret nas trincheiras, os homens vestidos de mulher, a música como abrigo, a ternura como indisciplina, tudo isso funciona. O amor aqui não é fuga romântica. É sabotagem. É recusa. É uma pequena traição à lógica militar, à masculinidade de quartel e à ideia grotesca de que morrer por uma bandeira é sempre mais nobre do que viver segundo o próprio desejo.
O problema é que Dhont, mesmo quando acerta, raramente surpreende tanto como gostaria. “Coward” é bonito, sensível, nobre, por vezes comovente. Mas também é mais previsível na forma como organiza a sua emoção. Sabemos muitas vezes para onde o plano vai, para onde a lágrima vai, para onde o trauma vai. É um filme honesto, mas menos livre. Um filme que toca, mas não incendeia. Um filme que pergunta muito bem o que é a cobardia, mas não tem a coragem formal de se atirar verdadeiramente para o abismo.
O que os dois filmes têm em comum: o direito ao medo, ao desejo e ao futuro
Vistos juntos, “La Bola Negra” e “Coward” formam um díptico poderoso sobre juventudes sacrificadas por causas alheias. Num, a Guerra Civil Espanhola e a longa sombra franquista. No outro, a Primeira Guerra Mundial e a máquina europeia de triturar rapazes. Em ambos, jovens homens são obrigados a representar papéis que não escolheram: o soldado, o patriota, o macho, o mártir, o filho obediente, o corpo útil para morrer.
E em ambos a estética queer não é ornamento, nem piscadela contemporânea, nem etiqueta simpática para festival. É uma forma de ler a História a partir dos corpos que ela tentou apagar. O desejo entre homens aparece como resistência porque desafia a lógica dominante da guerra: a guerra quer corpos disciplinados, intercambiáveis, sacrificáveis; o desejo devolve-lhes singularidade. A guerra quer obediência; o amor cria desvio. A guerra quer heróis mortos; estes filmes querem rapazes vivos.
Também há nos dois uma relação muito forte com o teatro e a performance. Em “Coward”, o espectáculo improvisado nas trincheiras é abrigo contra a morte. Em “La Bola Negra”, o palco, o cabaret, o travestismo e o melodrama tornam-se formas de reescrever a memória. Num caso, representa-se para sobreviver ao dia seguinte. No outro, representa-se para vingar os mortos e devolver-lhes aquilo que lhes foi roubado: corpo, desejo, voz, visibilidade.

Dois filmes, duas ambições, duas temperaturas
A grande diferença está na ambição e na temperatura. “Coward” é um filme de câmara emocional dentro de uma guerra. “La Bola Negra” é uma guerra estética declarada contra a História oficial. Dhont trabalha a ferida com delicadeza. Os Javis abrem-na com faca, música e purpurina. Dhont filma o medo. Os Javis filmam a insurreição do desejo. Dhont comove. Os Javis arrasam.
No fundo, os dois filmes recusam a velha mentira de que coragem é não ter medo. Talvez coragem seja precisamente o contrário: admitir o medo, desejar apesar dele, não aceitar morrer pela fantasia viril dos outros, cantar quando nos mandam calar, vestir uma saia quando nos querem fardados, amar quando nos querem úteis, obedientes e sacrificáveis.
“La Bola Negra” e “Coward” lembram-nos que a História está cheia de rapazes que não queriam ser heróis. Queriam apenas viver. Uns foram chamados cobardes. Outros foram expulsos pela bola preta da sociedade. O cinema, quando é realmente necessário, serve para isto: devolver-lhes o nome, o corpo, a canção e a ferida. E, neste caso, se “Coward” lhes oferece uma elegia triste e sensível, “La Bola Negra” oferece-lhes uma vingança luminosa, excessiva e feroz.
Porque há filmes que choram os mortos. E há filmes que os põem a cantar contra os carrascos.
JVM

