Doze anos atrás, o Queer Lisboa ganhou um irmão nortenho e, desde então, o Queer Porto só tem crescido. Já nem parece um eco do seu companheiro lisboeta, mas sim um grande festival por mérito próprio, sem necessidade de constante comparação. Nesta décima segunda edição, mais se marca a sua grandiosidade com a antestreia daquele que é, certamente, o filme queer mais aguardado e celebrado do ano. Um dia antes da estreia comercial nas salas portuguesas, por parte da Nitrato Filmes, “La Bola Negra”, de Javier Calvo e Javier Ambrossi, vai marcar presença como uma das sessões especiais do Queer Porto, levando o Cinema Trindade ao rubro.
Não podia ser de outra forma. “La Bola Negra” faz as delícias das audiências, críticos e membros da indústria cinematográfica, desde que teve a sua estreia na Competição Oficial em Cannes. Em França, ganhou o prémio de Melhor Realização para a dupla que se nomeia Los Javis – estiveram juntos romanticamente quase tantos anos como profissionalmente, mas este foi seu derradeiro ato de amor antes de uma separação amigável. Desde então, têm colecionado prémios do público, inclusive em Toronto, honra que é considerada uma forte precursora dos Óscares. De facto, com a Netflix a fazer campanha nos EUA e a Espanha a escolher a fita como seu representante, já se fala em “La Bola Negra” como possível candidato a Melhor Filme.
Dito isso, não estou aqui para falar de prémios ou previsões, de louvadas honras e palmarés e afins. Estou aqui para falar sobre “La Bola Negra” como filme. E, felizmente, também nesse sentido ela se afirma enquanto maravilha milagreira, um projeto de paixão por parte dos seus criadores que, depois de anos a trabalhar em teatro e televisão, algumas incursões no cinema e a mentoria de Pedro Almodóvar, aqui assinam sua magnum opus. Essa paixão pulsa pelas veias do organismo cinematográfico e faz-se sentir em todos os aspetos, desde o texto à mise-en-scène, passando por questões de casting e muito mais. Para explorar isso de forma decente, preciso, é claro, de partilhar um pouco da narrativa.
Num gesto que pode ser interpretado como referência às “Horas” de Stephen Daldry, Michael Cunningham e Virginia Woolf, ou como homenagem aos muitos trípticos do teatro e da literatura, “La Bola Negra” entrelaça três narrativas. Passam-se em tempos distintos, em níveis distintos de realidade e de irrealidade, sempre unidos por dois fios temáticos fulcrais. São eles o legado de Federico García Lorca e o paralelismo entre as políticas de esquecimento impostas à Espanha após a queda do Franquismo e a vergonha tão familiar da comunidade queer, especialmente de quem vive em nações tão fundamentalmente conservadoras e religiosas quanto a Espanha.
O primeiro fio narrativo começa em 1937, numa daquelas aldeias espanholas cujo posicionamento na Guerra Civil foi mais determinado pela geografia do que pela ideologia. A população sabe que os italianos vêm aí e, por isso, prepara-se para a sua chegada com pompa e circunstância. Praticam as saudações fascistas e fecharam o Republicano vociferante na leitaria virada em prisão. Só que houve um engano nas ordens dadas aos soldados estrangeiros e, em vez de recrutarem soldados para a sua odiosa causa, os aviões que sobrevoam a localidade tornam-na num cemitério. A carnificina é quase total, mas um trompetista chamado Sebastián consegue fugir, deixando para trás o cadáver da mãe e atirando-se ao rio para escapar ao fogo dos céus.
Quando é encontrado pelos Nacionalistas, apesar do que os fascistas haviam feito à sua gente, o músico jura-lhes lealdade e, mais tarde, faz parte do batalhão que guarda os prisioneiros num hospital de campanha montado em Santander. Lá, Sebastián, cujos desejos homossexuais há muito se fazem evidentes por olhares furtivos e por todo um jogo simbólico com São Sebastião, vê-se com a tarefa de vigiar um Republicano bem-parecido. Ele é o futebolista, ator, soldado e amante de Lorca, Rafael Rodríguez Rapún, uma figura histórica real aqui perdida no mundo da ficção. E não é só a ficção que os Javis inventaram, deve-se dizer.
“O travestismo é a fantasia da possibilidade. A guerra é todo o oposto.”

A trama em torno de Sebastián e Rafael nasce de uma peça de teatro em modo de historicismo especulativo, algures entre “O Beijo da Mulher-Aranha” e a tradição shakespeariana de fazer da História matéria-prima para o drama. “La piedra oscura”, de Alberto Conjejero, imagina esse elo entre dois homens inflamados de desejo ilícito num contexto em que a sua revelação significa a morte. Não que Rafael tenha esperanças de sobreviver ao seu interrogatório. Os fascistas mantêm-no vivo por informação e quando não conseguirem isso dele, o homem deixará de lhes ser útil. Mais um alvo a abater, mais uma vida perdida entre o meio milhão que a Guerra Civil espanhola ceifou.
Cinco anos antes, numa Granada onde as gerações mais jovens sonham com um amanhã liberado e os mais velhos se apegam ao tradicionalismo, Carlos é o filho varão de uma família abastada. Sob pressão do patriarca, ele apresenta-se como candidato ao clube hiper-exclusivo do casino local. Para isso, aparece diante de uma vetusta assembleia de juízes que votarão com bolas pretas e brancas. Se a maioria dessas esferas marmóreas for clara, ele será aceite. Se for escura, a rejeição fica oficializada. Devido aos rumores sobre sua homossexualidade, Carlos é prontamente excluído. O pai exige que ele negue os maldizeres, a mãe suplica-lhe que fuja para Madrid, e os amigos mais próximos cantam a liberdade e dançam a seguiriya.
Esta narrativa provém de “La Bola Negra,” ou o que dela sobra. São quatro páginas escritas por Lorca nos últimos anos da vida, antes do seu assassinato em Granada, causado tanto pelas suas ações políticas de esquerda quanto pela sexualidade assumida. Temos uma lista de personagens, uma cena introdutória e um esboço que sugere tratar-se da primeira obra do escritor a refletir e lidar diretamente com questões de identidade queer. Lorca foi morto antes de levar esse texto para a frente e, se há mais que aquelas quatro páginas, está tudo perdido ou destruído como, efetivamente, ocorreu com muitos textos de autores à revelia do regime Franquista. No seu filme, Los Javis propõem-se a fazer o impossível e imaginar “La Bola Negra” completada.
Por fim, deparamo-nos com Alberto, um antigo estudante de teatro e dramaturgo que abandonou essa carreira para se dedicar a estudos históricos no âmbito académico. Em 2017, ele está na Turquia, pesquisando canções tradicionais e gravações antigas que sugerem uma dimensão queer, porventura lesbiana ou até trans, pouco estudada na tradição musical da região. Entre telefonemas com o namorado devoto em Madrid, engates no Grindr, e essa procura sem fim em arquivos e bazares, Alberto descobre que o avô morreu. Foi o pai da sua mãe, um homem que ele nunca conheceu, mas que, aparentemente, lhe deixou algo no testamento. Lá volta o académico a Espanha, quiçá para desvendar os segredos da História familial.
A mãe é de pouca ajuda e, na verdade, não quer saber nada do pai falecido. Pode-se dizer que o odeia por tê-la abandonado a si e à sua mãe desde o nascimento, e que também se manifesta muito contra um filho que nunca parece ter entendido. Talvez pela sua sexualidade, talvez pela ingratidão que lhe vê espelhada, ou pela herança de traumas de geração para geração. Alberto não quer saber dos desejos da mãe que tanto quer esquecer a herança paterna, especialmente porque o homem era Franquista. Mas enfim, lá vai ele à ruralidade espanhola onde um advogado ancião lhe passa para as mãos dois documentos – um poema e uma peça de teatro, ambos assinados por Lorca. Na sua posse, Alberto tem “La Bola Negra.”
Esta é a base narrativa do filme que se desenrola em constante dança – metafórica e não só – passando de uma história para outra, saltando entre tempos, factos e ficções. Também saltam de estilos e, por vezes, de códigos de género cinematográficos, arriscando-se à luxúria de um romance aqui, de um musical acolá. Aliás, há uma fascinante relação entre as figuras e a música. Carlos dança, Sebastián toca, e Alberto ouve, estuda, tenta desvendar a verdade escondida no som. Do realismo de 2017 até aos devaneios surreais em que a narrativa de 1932 culmina, a fotografia também vai mudando, com Gris Jordana a mudar de tipos de stock, apesar de filmar tudo em película de 35mm com o contraste bem elevado.
Dicotomias e marcas diferenciadoras não têm o intuito de separar, mas de trazer as histórias a um diálogo recíproco. Quando Carlos nega a sexualidade perante o júri, a montagem de Alberto Gutiérrez vai mostrando o protagonista mais moderno em engates virtuais. Quando a voz de Sebastián canta “La Nieve,” parece fazer o luto metafísico de Carlos e embalar Alberto nos seus respetivos capítulos. O erotismo da imagética católica é outro elemento que ecoa, quiçá rima como num poema com leituras potencialmente paradoxais. Porque tanto é o desejo reprimido a achar expressão na arte do seu opressor como é presença material de uma instituição essencial para o sustento do fascismo em Espanha por tanta década que durou.
E aqui deparamo-nos com uma realidade muito importante nas análises de “La Bola Negra.” Refiro-me à especificidade espanhola do projeto e a como Los Javis fazem poucas concessões a audiências sem conhecimentos prévios sobre a História de Espanha no século XX ou sobre Lorca. Em entrevistas, os realizadores já falaram muito sobre como estudaram o autor na escola, sem que sua homossexualidade fosse nunca mencionada, e que parte do ímpeto de fazer o filme partiu de querer virar as voltas a estas narrativas fundamentadas na vergonha. Uma vergonha que se vê na cultura e na política. O que é o Pacto do Esquecimento, ligado à Amnistia de 1977, senão uma capitulação à vergonha em nome de um status quo incerto?
“O coração de um maricas é um oceano cheio de segredos.”

O paralelismo mais forte do texto faz-se entre a repressão do desejo e a repressão da nação, o pessoal, um reflexo inexorável do político, e a vergonha do homossexual, equiparável à vergonha coletiva de Espanha para com seus crimes, seus amores, suas loucuras, boas e más. A ordem imposta sobre o caos através do esquecimento é a vergonha feita legislação. Nesse sentido, mais do que estar em conversa com “As Horas” ou “Titanic” ou “O Beijo da Mulher-Aranha” ou tantas outras obras de Hollywood, “La Bola Negra” pertence à mesma linhagem de “O Silêncio dos Outros” e “Mães Paralelas.” Note-se que Pedro Almodóvar e seu irmão tiveram mão em todos estes filmes, figurando aqui como produtores.
Não é necessário explicar tais coisas no texto, porque estas ideias são subentendidas ou, pelo menos, deviam ser e, feita justiça, Los Javis não têm de explicar o seu país a uma hipotética audiência estrangeira e ignorante. Só o facto de situar a parte mais moderna da trama em 2017, diz-nos muito, pois aponta para a crescente manifestação contra as limitações impostas pelo Esquecimento, inclusive a permanência de ruas e monumentos ao fascismo. Também foi o ano em que Pedro Sánchez foi eleito pela primeira vez, ao que se seguiu um mandato que, entre outras ações em torno da História de Espanha, viu Franco ser exumado do Vale dos Caídos, colmatando o culto desse sítio enquanto Meca do fascismo espanhol.
Essas densidades textuais que quase sugerem um ensaio universitário sobre Lorca, desejo queer e História do Franquismo feita em filme, não devem induzir o espectador a esperar daqui um exercício em dialética materialista, mais virado para estímulos intelectuais que emocionais. O academismo é negado, apesar de haver personagens do mundo académico – incluindo uma estudiosa de Lorca interpretada por Glenn Close! – e centra-se no sensualismo, no sentimento forte e na paixão que terá levado estes dois cineastas a manterem-se fiéis ao sonho de “La Bola Negra”. De facto, o princípio do prazer é deveras importante e constitui, por si só, uma forma de resistência.
Até entre as facções Franquistas, emerge como uma contradição da sua ideologia. A câmara encontra-se em constante tensão entre o homoerotismo dos soldados em comunhão desnuda e a paranoia pavorosa de Sebastián. O seu entretenimento vem da boémia libertina madrilena, uma sensação do burlesco que dá pelo nome de Nené e que Penélope Cruz interpreta como o “Anjo Azul” de Dietrich cruzado com o monstro propagandista de Maggie Smith em “Oh! Que Bela Guerra!” como uma quimera. Mas, no resguardo dos bastidores, entre dois números musicais atrevidos, ela revela o que realmente pensa sobre Sebastián e reconhece nele a diferença que o faz ser um guerreiro nacionalista tão brega e inconvincente.
Cruz é o grande destaque do elenco, mas todos estão de parabéns, incluindo os quase estreantes, como o músico Guitarricadelafuente, no papel de Sebastián, e Milo Quifes, no papel de Carlos. Lola Dueñas, outra “Chica Almodóvar” tal qual Cruz, traz uma componente tragicómica às suas cenas como a mãe de Alberto, mas é a subtileza de Carlos González que faz com que essas cenas funcionem tão bem. Até temos uns piscares de olho à audiência bem informada, com o dramaturgo queer Alberto Cortés a dar vida a Lorca. Esses flashbacks a preto e branco são meio desnecessários, com uma linguagem bem anacrónica, mas servem para estabelecer uma continuidade entre o autor de “La Bola Negra” e os artistas não-normativos que hoje trabalham e vivem com mais liberdade.
O filme de Los Javis não é perfeito e não vai agradar àqueles que querem dele um panfleto antifascista, em que tudo é didático e explicado até ao mais ínfimo detalhe e à conclusão. Há quem o acuse de se deleitar na tragédia, sem dar valor ao amor que o filme perspira, incluindo aqueles momentos finais entre Alberto e seu namorado, sempre lá para o reconfortar, mesmo quando o parceiro insiste em não fazer parte fraca. Todo o filme é um apelo à vida vivida na sua plenitude, negando vergonhas que nos agrilhoam enquanto indivíduos e enquanto nações, enquanto comunidades. Que se mate a vergonha e se enterre o esquecimento. Que se exalte a memória histórica, por mais dolorosa que seja. Nós somos a nossa História, incluindo os capítulos censurados.
A Bola Negra
Conclusão:
- Na senda do Óscar e da cidade invicta, “A Bola Negra” de Javier Calvo e Javier Ambrossi faz a sua antestreia portuguesa no Queer Porto antes de chegar às salas nacionais dia 5, pela mão da Nitrato Filmes. Galardoado em Cannes e muito badalado noutros festivais, este é um filme de ambições desmesuradas e um coração ardente a condizer, pronto a apaixonar audiências ao mesmo tempo que levanta questões importantíssimas sobre o papel do “esquecimento” no discurso histórico e a identidade das nações.
- Para esse efeito, constrói paralelismos entre a vergonha que promulga o esquecimento e, tacitamente, prolonga a vida ao fascismo, e a vergonha incutida nas comunidades queer pelos conservadorismos sociais. Quer sejam noções sobre o que é ser realmente um homem ou sobre a influência católica, “La Bola Negra” constrói um discurso polivalente, ao mesmo tempo em que faz malabarismos com três histórias interligadas pelo sangue, pelo desejo e pelo legado do escritor Federico García Lorca. Assim se faz o retrato da Espanha, com três homossexuais a viver os dilemas do seu tempo, em 1932, 1937 e 2017.
- Com tanta ideia em jogo, é escusado dizer que nem tudo funciona em “La Bola Negra.” Glenn Close provavelmente está a mais, num papel puramente mecânico, e a presença de Lorca, enquanto personagem, no terceiro ato parece uma tentativa demasiado forçada de puxar a lágrima. O estudioso do poeta e o espectador que vê cinema pela sua utilidade política, também poderão ter muitas objeções. Mas, para mim, o filme apaixona, comove, faz pensar e assombra, até quando dá um passo em falso. De facto, é um dos grandes títulos do ano cinematográfico – visionamento obrigatório, totalmente imperdível!


