Nos últimos anos, a Magazine HD tem tido o prazer de marcar presença no Festival Internacional de Cinema de Toronto, mais conhecido como TIFF. Este ano não foi diferente, mas esta edição do evento certamente se destacou pela diferença. Para começar, 2026 marca a inauguração do Mercado agregado ao festival, mais virado para a indústria, possíveis investidores e distribuidores, do que para o público ou a imprensa. Essa inclusão trocou as voltas a um festival em crise de identidade, tentando ser fiel à sua relação próxima com as audiências generalistas ao mesmo tempo que quer atrair a atenção concedida a outros festivais-mercado como Cannes e Annecy.
Esta iniciativa também provocou muita contradição entre os artistas a apresentar seu trabalho e empresas mais interessadas no lucro fácil do que nas qualidades criativas do cinema. E foi assim que um dos festivais de cinema mais importantes do mundo abriu as portas a vendedores de software de inteligência artificial generativa e cuspiu na cara de muitos cineastas que, na própria programação do TIFF e em suas apresentações, reivindicaram que arte, para ser arte, há que ser feita por mão humana e ser uma expressão do artista em vez da quimera sem sentido de algum algoritmo promovido por Silicon Valley.
Enfim, na sua 51ª edição, o TIFF continua a crescer e transformar-se, quiçá a degenerar-se ou a mirar o futuro que muitos de nós, amantes de cinema, queremos prevenir. Pronto, a relação entre a arte e o comércio é sempre meio perigosa, mas esperaríamos uma maior ênfase na celebração do ato criativo naquele que se diz o maior festival de cinema do mundo, aberto ao público. Apesar disso, esse mesmo público fez ouvir sua voz, como faz todos os anos desde a terceira edição do festival, em 1978, quando “Girlfriends”, de Claudia Weill, recebeu o People’s Choice Award inaugural.
Desde então, esta honra tem estado fortemente associada aos Óscares. Raro é o filme que as audiências de Toronto elegem como seu favorito que chega ao fim da temporada de prémios sem umas quantas nomeações da Academia de Hollywood. Recentemente, temos exemplos como “Hamnet,” vencedor do Óscar de Melhor Atriz, “American Fiction” que levou o galardão para Melhor Argumento Adaptado, “Os Fabelmans” com suas muitas nomeações, inclusive para Melhor Filme, e “Belfast” que valeu a Kenneth Branagh o prémio para Melhor Argumento Original. Este ano, “La Bola Negra” foi a obra escolhida.
“La Bola Negra” afirma-se favorito na corrida aos Óscares.

Esta vitória tem muito que se lhe diga. No ano passado, para marcar os cinquenta anos do festival, os organizadores do TIFF decidiram separar o prémio do público em duas honras. Uma delas seria exclusiva para produções internacionais, numa tentativa de valorizar um cinema que tende a ficar na sombra das grandes produções de Hollywood e do brilho do mainstream mais populista. Afinal, já há 15 anos que nenhum filme falado noutra língua que não o inglês havia ganho o prémio. Contudo, cinema feito fora dos EUA e do Canadá continua a ser elegível para o galardão principal. E não é que este ano se quebrou esta maldição?
Los Javis arrecadaram o prémio para Melhor Realização em Cannes por “La Bola Negra,” um épico histórico cheio de ambição literária e teatral, examinando a História de Espanha através de um manuscrito inacabado de Lorca e das semelhanças entre a vergonha sentida pela gente queer numa sociedade conservadora e a própria vergonha de uma nação, feita lei nos anos 70 quando se fez o pacto do esquecimento como parte da amnistia que ajudou a levar Espanha do fascismo Franquista para a democracia de mãos dadas à monarquia. Com piscares de olho ao surrealismo de Lorca, ao mundo do estudo académico, ao sensualismo da imagética católica e até mesmo ao género musical, trata-se de um filme a transbordar de ambição.
A Netflix comprou os direitos para a sua distribuição americana aquando do Festival de Cannes, quiçá na esperança de que o comité espanhol selecionasse a obra como representante oficial na corrida para o Óscar de Melhor Filme Internacional. Com esta honra do público de Toronto, a Netflix vira os olhos para honras ainda maiores. Já se posicionam para levar Melhor Filme, nomeações praticamente asseguradas em categorias como Argumento Adaptado e Canção Original. A ideia de fazer campanha de todo o elenco como atores secundários também tem o que se lhe diga, com Penélope Cruz a possibilitar-se a dupla nomeação – também pelo “Convite” – e o músico feito ator, Guitarricadelafuente, também.
No meio destas conversas, assim como o impacto emocional da obra, é fácil perder o fio à meada e ignorar a obra de arte no centro do furor, suas complexidades e diálogos, tanto internos como externos. Por exemplo, mais do que tornar a Guerra Civil Espanhola num espetáculo de fascistas erotizados, Los Javis e o dramaturgo Alberto Conejero traçam uma conversa intergeracional e interfilme. Devia-se ver “La Bola Negra” em complemento com “O Silêncio dos Outros” e as “Mães Paralelas,” formando um manifesto muito Almodovariano (ele e o irmão estão envolvidos nas três fitas) contra a perda de uma memória coletiva, contra o apagamento, contra o esquecimento.
O cinema queer fez as delícias das audiências e júris do TIFF.

Mas “La Bola Negra” não foi o único grande vencedor com temáticas LGBTQ+. Como um filme espanhol ganhou o prémio principal do público – algo que não acontecia desde as “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” em 1988 – outro filme teve que ser escolhido para o International People’s Choice Award. Recaiu a honra sobre “Elsinore,” uma coprodução entre a Irlanda e o Reino Unido em que Andrew Scott interpreta o ator Ian Charleson, mais conhecido pelo seu papel em “Momentos de Glória.” Esse filme, vencedor do Óscar em 1981, presenteia esta cinebiografia com o seu tema musical, icónica composição de Vangelis, mas é mais como um gesto de frustração que de êxtase.
Charleson é assombrado pelo sucesso passado e pela realidade de um corpo que definha com o flagelo da SIDA. A fita foca-se sobretudo naquela ocasião em que, aquando de uma dramática desistência de Daniel Day-Lewis, o ator viu-se honrado com o papel principal numa produção de “Hamlet.” Já se falava muito do impacto sentimental da obra quando esta passou em Telluride, mas as audiências canadianas tiveram ainda mais afeto por esta tragédia passada no mundo do teatro e nos epítetos de uma epidemia que para sempre marcará a História LGBTQ+. Com este prémio, Scott caminha na direção de muitas nomeações na temporada que aí vem, mas bem sabemos quanto a Academia resiste a honrar atores abertamente queer.
De facto, só Colman Domingo por “Rustin” e Ian McKellen por “Deuses e Monstros” se podem considerar enquanto nomeados para Melhor Ator, interpretando personagens gay depois de já também eles mesmos terem saído do armário. Duas pessoas em 99 anos é um absurdo. Enfim, talvez esta seja a grande chance de Scott, apesar de o filme ter tantos fãs quanto detratores, que o veem como pouco mais do que um exercício para atores sem substância, além do elenco. O mesmo não se diz sobre “Ancestors,” nova obra de David Yurpin, também ela situada na Inglaterra dos anos 80, sobre a crise da SIDA na comunidade queer e a procura de um jovem pelo amigo que simplesmente sumiu.
Com a aclamação crítica internacional, é mais fácil recomendar “Ancestors” que “Elsinore.” Assim, ditou o júri da associação FIPRESCI, que conferiu ao filme a sua maior honra. De facto, há ainda mais obras de cinema queer a destacar entre as honradas pelos juízes e audiências do TIFF. Por agora, destacamos “L’estranea,” exibido no contexto da programação Midnight Madness que se foca em filmes de terror, género, muito choque e mau gosto. A fita é uma reinterpretação da história de Fausto, com Jasmine Trinca no papel de uma socialite italiana presa num ciclo vicioso de pactos com o Diabo. Valeria Bruni Tedeschi é a versão feminina e sáfica de Mefistófeles, sempre na sua gabardina saída de um giallo antigo e uma nova proposta ignominiosa na ponta da língua. O filme representará a Itália nos Óscares.
Há muito mais a falar sobre as fitas que passaram em Toronto, desde a ressaca de Berlim, Cannes e Veneza chegada ao Canadá até estreias mundiais e muitas estrelas de Hollywood. A Magazine HD até teve a oportunidade falar com Jesse Eisenberg e Julianne Moore!


