Lady Bird, em análise

Lady Bird”, o filme em que Greta Gerwig se estreia como realizadora a solo, já foi merecidamente nomeado a cinco Óscares – Melhor Filme, Realização, Atriz, Atriz Secundária e Argumento Original. Gerwig tornou-se assim somente a quinta mulher a ser nomeada para o galardão de Melhor Realização, depois de Lina Wertmüller em 1975, Jane Campion em 1993, Sofia Coppola em 2003 e Kathryn Bigelow em 2009.

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Na sinfonia de imagens e som que compõe a maioria dos filmes narrativos, ocasionalmente encontramos pequenas notas de graça. Tratam-se de vislumbres, de passagens sem grande peso no enredo como o pragmatismo doméstico de Sarah Paulson em “The Post” ou a forma quase automática como Mafalda fecha a porta do frigorífico depois do filho dos seus patrões a ter deixado aberta em “Chama-me Pelo teu Nome”. São rasgos de banalidade humana que, na sua inocuidade, trazem o gosto da realidade vivida ao que vemos no grande ecrã. Tais notas permitem-nos, enquanto membros da audiência, imaginar e aceitar que o mundo em cena se estende muito além dos limites do enquadramento narrativo, que cada uma das pessoas em frente à câmara é o protagonista das histórias pessoais que são as suas vidas.

“Lady Bird” é composto unicamente por estas notas. Por outras palavras, o filme com que Greta Gerwig se estreia na cadeira de realizadora a solo não tem grande história ou uma estrutura narrativa particularmente evidente. Isto não é uma manifestação de qualquer tipo de abstração avant-garde ao estilo do que se costuma encontrar nos recantos mais obscuros do circuito dos festivais de cinema. Na verdade, “Lady Bird” aproxima-se mais do tipo de retrato impressionista de uma vida e do ato de viver e crescer que se pode encontrar em filmes como “Mr. Turner” de Mike Leigh ou “Boyhood” de Richard Linklater, colagens de momentos mais ou menos aleatórios desprovidos de um fio condutor dramático a impor-se sobre a sequência de eventos.

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Especificamente, “Lady Bird” conta a história de um ano na vida de Christine McPherson, mais conhecida pelo nome que dá título ao filme. Ela está no último ano do secundário e vive em Sacramento, na Califórnia, com o seu irmão adotado, a namorada dele, o pai deprimido e desempregado, e Marion, sua mãe, uma enfermeira psiquiátrica que quer o melhor para a filha, mas que nem sempre sabe expressar o seu afeto. Apesar do foco em dinâmicas familiares, Greta Gerwig não está somente interessada no seio familiar, alargando o seu olhar a toda uma comunidade de pessoas em redor da sua protagonista. Também a temática do filme se expande para além do drama familiar, examinando laços de amizade, a ligação de uma pessoa ao lugar onde nasceu, insegurança económica, classismo, a pressão de se ser homossexual numa comunidade religiosa e até a glorificação da costa leste como um El Dorado cultural dos EUA.

Apesar de tudo isso, “Lady Bird” é um filme que esconde a sua ambição através de uma aura de modéstia superficial. O que separa esta comédia juvenil de “Mr. Turner” e “Boyhood” é precisamente o modo como, ao contrário de Mike Leigh e especialmente Richard Linklater, Greta Gerwig nunca sublinha a grandeza do seu feito ou a dificuldade do seu projeto. Como os maiores mestres, a realizadora e argumentista enaltece a ilusão de que a sua obra é algo ligeiro, sem sinais de esforço, como uma brisa de ar fresco que não deve ser nunca olhado como um monumento à sua virtuosidade. Com isso dito, “Lady Bird” é uma obra de virtuosismo esmagador.

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A nível de texto, tema e criação de personagens, Gerwig é magistral, indo buscar muita inspiração à sua própria juventude e assim concebendo um retrato de Sacramento e suas pessoas que vibra com intimidade. Essa mesma intimidade é sentida entre a audiência e todas as personagens, mesmo aquelas com papéis mais reduzidos. Exemplos disso mesmo são um professor deprimido, uma jovem rejeitada pelos pais, um rapaz escondido nas profundezas do armário e muitos outros. Pelo final, sentimos que os conhecemos a todos, que sentimos a sua dor e seu júbilo, preocupamo-nos com eles e sentimos que, se assim desejassem, realizadora poderia construir uma série de filmes sobre cada figura que passa em frente à câmara.

Ainda mais extraordinária é a economia formal de “Lady Bird” e a sua estruturação. Este é um filme que trespassa a ambição de um grande romance do século XIX sobre toda uma sociedade, mas que se centra no mundo de adolescentes no secundário e tem a parca duração de 93 minutos. Não há um único plano desperdiçado ou um segundo desnecessário neste mosaico de momentos da vida de Lady Bird. Certas cenas são resolvidas em dois planos perfeitamente cortados pelo editor Nick Houy e Gerwig concebe transições com som e composição de modo a sugerir uma linha rítmica de absoluta fluidez. Tendo em conta que a realizadora e argumentista ganhou fama como a grande rainha do “mumblecore”, um movimento cinematográfico inebriado em indulgência arrítmica, tal abordagem é de particular surpresa.

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Essa mesma economia e precisão milimétrica, fazem com que certos momentos de maior pausa sejam ainda mais sentidos e desconcertantes do que seriam nas mãos de um realizador menos talentoso. Falamos principalmente das cenas entre Lady Bird e Marion, que, desde o primeiro plano num quarto de hotel barato até a um telefonema comovido no final, constituem o centro emocional do filme. Quando, por exemplo, Lady Bird está a tentar comprar um vestido para o baile de finalistas, repare-se como Gerwig nunca leva a câmara para o interior do gabinete de provas, mantendo-se sempre focada na figura matriarcal e suas reações mais ou menos acídicas, desapontadas e confusas.

Outro grande exemplo destas pausas calculadas é a cena que acompanha Marion no carro, perto do final. Depois da filha a ter magoado, ora por incapacidade de se exprimir ou por vontade impulsiva de magoar de igual maneira Lady Bird, Marion faz algo de que se arrepende imediatamente, mas que é irreversível. Ao invés de centrar o momento na fúria entristecida da adolescente, Gerwig constrói quase toda a sequência num grande plano de Laurie Metcalf no papel de Marion, deixando-nos testemunhar e ponderar pausadamente o seu arrependimento, angústia e mágoa maternal em tempo real. Mesmo em rasgos de crueldade ou instantes de confusão emocional, Gerwig nunca abandona assim a perspetiva humanista, capaz de criar empatia com qualquer uma das suas personagens.

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É evidente que, não obstante a qualidade textual e a mestria de Gerwig atrás das câmaras, “Lady Bird” não seria o filme que é sem os seus atores. Para terminar esta análise, fazemos assim uma enumeração de alguns dos grandes feitos do melhor elenco cinematográfico dos últimos anos. Uma salva de palmas a Saoirse Ronan por dar a Lady Bird tanto carisma abrasivo como momentos de sufocante vulnerabilidade juvenil. Mais uma salva de palmas a Laurie Metcalf e Tracy Letts por tornarem os pais da protagonista em personagens tão ou mais complexas que a filha. A Timothée Chalamet por criar uma personagem pretensiosa que é totalmente distinta do seu Elio em “Chama-me Pelo teu Nome” e a Lucas Hedges por trazer tanto charme como desespero ao namorado gay de Lady Bird. A Beanie Fieldstein por ser a melhor amiga imaginável num filme sobre a escola secundária e a Lois Smith por trazer humor e um brilho no canto do olho a uma freira sábia, a Stephen McKinley Henderson por ilustrar o peso da depressão num docente dedicado, a Jordan Rodrigues por revelar as inseguranças de um irmão mais velho e Marielle Scott pela evocação de traumas passados nunca vistos pelo espectador. Acima de tudo uma salva de palmas a Greta Gerwig por “Lady Bird”, um grande filme que esconde bem a sua grandeza.

 

 

Lady Bird, em análise
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Movie title: Lady Bird

Date published: 2018-03-02

Director(s): Greta Gerwig

Actor(s): Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith, Stephen Henderson, Odeya Rush, Jordan Rodrigues, Marielle Scott

Genre: Comédia, Drama, 2017, 93 min

  • Cláudio Alves - 95
  • Daniel Rodrigues - 65
  • Filipa Machado - 70
  • Rui Ribeiro - 90
  • Inês Serra - 70
78

CONCLUSÃO

Mais do que uma exploração autobiográfica ou uma carta de amor a Sacramento, “Lady Bird” é uma tapeçaria de humanidade, onde cada fio da sua trama foi cuidadosamente criado e manejado por Greta Gerwig. Um elenco do outro mundo e a precisão formal e textual da realizadora fazem desta comédia uma joia imperdível.

O MELHOR: As interações de Saoirse Ronan e Laurie Metcalf.

O PIOR:
O humor um pouco forçoso e muito gritado de uma cena em que um professor de Educação Física tenta tomar conta do clube de teatro. É hilariante, mas parece pertencer a outro filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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