LEFFEST ’17 | As Guardiãs, em análise

Em “As Guardiãs”, Xavier Beauvois cria um emocionante retrato da vida rural de várias mulheres durante os anos da 1ª Guerra Mundial em França. Este é o único filme francês em competição nesta edição do Lisbon & Sintra Film Festival.

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Em França, durante a 1ª Guerra Mundial, os homens partiram para o campo de batalha. Para trás ficaram as mulheres, destituídas de seus filhos, maridos e irmãos, mas decididas a sobreviver. Em “As Guardiãs”, o cineasta francês Xavier Beauvois retrata a vivência da família Sandrail durante os anos de guerra, quando sua quinta e terras ficaram singularmente ao cuidado de Hortense, a matriarca enviuvada cuja única ajuda é inicialmente a sua filha Solange, cujo marido está a combater na frente ao lado dos outros dois filhos de Hortense. A estas duas mulheres junta-se Francine, uma jovem incansável contratada para ajudar com aos afazeres da quinta e que acaba por se tornar quase que numa parte da família. Desde 1915 até aos anos de rescaldo imediato da guerra, o filme retrata a vida deste trio de heroínas que nunca veem o campo de batalha, explorando o seu quotidiano, seus desejos, seus crimes, o melodrama dos seus conflitos e solene resiliência do seu trabalho.

Esta história é uma adaptação de um livro originalmente publicado em 1924 de Ernest Pérochon, marcando assim a primeira vez que Beauvois adapta um romance para o grande ecrã. Este é um filme de estreias relativamente modestas para o realizador pois trata-se também da primeira vez em que este cineasta de gostos classicistas filmou em formato digital. Por muito nova que a tecnologia de filmagens possa ser, no entanto, a mão e olho por detrás da câmara são as da veterana diretora de fotografia Caroline Champetier, cujo currículo inclui experiências de Godard, alucinações de Carax, reflexões de von Trotta e tragédias de Fontaine. Em “As Guardiãs”, a mestria da sua arte é bem patente, sendo que, por muito digitais e polidos os tableaux de vida rural possam ser, a sua aparência é de uma solenidade extrema, assemelhando-se quase a pinturas de Millet às quais foram concedidas vida e movimento.

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Tão solene e ancorado numa reprodução do passado histórico como a fotografia é o resto da concretização visual do mundo desta narrativa, desde os cenários realistas aos figurinos adequadamente simples e modestos. Fora desse campo de materialidade, no entanto, o filme padece de alguns floreados indesejados. Referimo-nos principalmente à banda-sonora de Michel Legrand, outro lendário veterano do cinema francês, cujas melodias passam metade do filme em busca de um choroso melodrama e, quando este finalmente se manifesta, já há muito se tornaram fontes de irritação sónica. Não é que a música seja horrenda, pelo contrário, é a sua agradável doçura que parece trair a vida dura das personagens em cena, como se o filme não se conseguisse investir por completo nas vidas de trabalho árduo que pretende retratar e preferisse a confortável distância de um drama histórico tradicional.

Tal dinâmica entre a severidade de um retrato realista das provações de mulheres em tempo de guerra e a convencionalidade confortável de um telefilme de época é uma constante ao longo do filme. Inicialmente, é a severidade realista que parece ganhar, com a montagem a aglutinar inúmeras sequências de trabalho como que a sugerir uma existência de repetição laboriosa e marcada por uma nobreza nascida de corpos quebrados sob o sol do impiedoso verão. Tal abordagem resulta numa obra vagamente soporífera, mas isso depressa muda quando Francine inicia uma relação amorosa com o filho mais novo de Hortense, durante a sua breve estadia em casa antes de uma nova viagem até à frente. A partir daí, os ritmos do filme aceleram e a observação realista do trabalho rural é subjugada aos epítetos emocionais de um drama de enganos, rumores cruéis e mentiras destruidoras.

Felizmente, Beauvoirs é um excelente diretor de atores e o seu elenco está bem preparado para o desafio proposto pela evolução tonal da narrativa. Como Hortense, Nathalie Baye transmite não só a fisicalidade de alguém que trabalhou a vida inteira nos campos, mas também a rigidez expressiva de uma mulher que sobreviveu a inúmeras perdas ao longo dos seus anos, perdas que deixaram cicatrizes invisíveis na sua pessoa. Quando o guião faz de Hortense uma figura quase antagónica dentro do drama, é a dignidade intrínseca à presença de Baye que impede a personagem de cair no poço da unidimensionalidade, sendo que, por muito dúbias que sejam as suas escolhas, o espetador está sempre ciente do preço que Hortense tem de pagar, nem que seja somente ao nível espiritual. Laura Smet, a filha de Baye dentro e fora do ecrã, é adequadamente capaz de transmitir a fragilidade de Solange, sem invalidar a sua resiliência valerosa em tempos de crise.

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No entanto, nem Smet nem Baye conseguem ofuscar a verdadeira estrela do filme, Iris Bry. “As Guardiãs” é o primeiro filme desta prodigiosa jovem, cuja face pálida, olhos claros e cabelos rubros parecem ter sido explicitamente criados para um dia serem capturados pelo olhar de uma câmara. É nela que o registo desafetado e gestualmente económico que Beauvoir tanto explora na sua filmografia se evidencia de modo mais glorioso, sendo que, sem muito ilustrar na sua expressão ou voz, Bry consegue traçar o arco evolutivo de Francine com estonteante certeza e claridade. O realizador parece ter-se apercebido da joia que tinha diante da sua objetiva, pois é a ela que Beauvoir subordina os últimos momentos do filme, encerrando a sua obra num grande plano de Bry, radiante e resiliente, cantando face às adversidades que a vida lhe impôs.

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Tal final, por muito belo que seja, é extremamente frustrante para quem, ao fim de quase duas horas e meia de filme, deseje ver algum tipo de conclusão fechada. A estrutura narrativa do filme parece ativamente trabalhar no sentido de frustrar o público com linhas narrativas nunca resolvidas, movendo o enredo a uma velocidade ensandecida na última meia hora. É principalmente nesses momentos que “As Guardiãs” é consumida pela ocasional banalidade do seu drama e das suas escolhas musicais, parecendo uma série de episódios de uma minissérie que foram forçosamente mutilados para caberem na duração de um filme. Por outro lado, a ambiguidade do final, remete para a continuidade das suas personagens e suas vidas. “As Guardiãs”, com todos os seus problemas e virtudes, é somente uma pequena parte da vida das suas personagens, cuja vida transcende quaisquer limites impostos pela narrativa.

 

As Guardiãs, em análise
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Movie title: Les gardiennes

Date published: 21 de November de 2017

Director(s): Xavier Beauvois

Actor(s): Nathalie Baye, Laura Smet, Iris Bry, Cyril Descours, Olivier Rabourdin, Nicolas Giraud, Mathilde Viseux

Genre: Drama, 2017, 138 min

  • Claudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO

“As Guardiãs”, tal como outras obras da filmografia de Xavier Beauvoirs, é vítima da modéstia absoluta no estilo do seu autor, cuja severidade é sempre subjugada a impulsos classicistas e românticos que nem sempre são muito apropriados à narrativa realista em questão.

O MELHOR: A presença luminosa de Iris Bry, especialmente em momentos de trabalho físico como uma detalhada sequência em que observamos o fabrico de carvão vegetal.

O PIOR: Um sonho pós-traumático cheio de tiros, câmara lenta e violência bélica que parece ter vindo de outro filme, ao mesmo tempo que trai a perspetiva feminina tão celebrada no resto da narrativa.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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