Legion, a primeira temporada em análise

Legion é a série de super-heróis que tu não sabias que precisavas.

* CONTÉM SPOILERS

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Atualmente estamos na era dos super-heróis na televisão, que começou com os sucessos de Arrow, Flash e Gotham. A partir daí o género tornou-se bastante recorrente com Supergirl, Legends Of Tomorrow, Agents of SHIELD, Daredevil, Jessica Jones, Luke Cage e Iron Fist.

Contudo estas produções seguem o mesmo padrão: narrativas maioritariamente lineares, que começam por explorar a origem dos seus heróis. Também a estética é bastante semelhante. Apenas Gotham e as séries da Netflix têm um tom mais peculiar e sombrio.

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É no meio de tantas séries iguais de super-heróis que Legion chega como uma lufada de ar fresco. É certo que a seleção de adaptar a história de David Haller, filho do Professor X, não agradou a maioria. Do universo X-Men existem várias personagens complexas que mereciam ser adaptadas primeiro. Mas a verdade é que a escolha foi a mais acertada.

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Legion acompanha David Haller (Dan Stevens), um jovem diagnosticado com esquizofrenia que passou seis anos institucionalizado. No Hospital Psiquiátrico, sempre acompanhado de Lenny (Aubrey Plaza), o protagonista apaixona-se por Syd Barrett (Rachel Keller), que o tenta convencer que as vozes da sua cabeça são reais. Depois de um incidente no hospital, que termina com o escape de David e a morte de Lenny, o protagonista junta-se a um grupo de mutantes que tenta derrotar a Divisão 3, a força anti mutante do governo.

Paralelamente a esta história, apercebemo-nos que Lenny afinal não morreu. À medida que os episódios se desenrolam ela continua a aparecer nas visões do mutante. Numa reviravolta simultaneamente prevista e imprevista, devido à forma como foi revelada, descobrimos que Lenny é o assustador Monstro de Olhos Amarelos, o vilão Shadow King.

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Noah Hawley (Fargo) transforma a história do mutante mais conturbado num exercício estético de cores, formas, sons e movimento. Os primeiros momentos do piloto marcam de imediato o estilo da série. Na montagem de introdução acompanhamos a vida de David ao som de “Happy Jack” de The Who. E apercebemo-nos que à medida que o protagonista envelhece, torna-se cada vez mais perturbado – amaldiçoado. Neste momento questionamo-nos se os poderes do protagonista estão a surgir ou se ele está mesmo doente.

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Legion obriga-nos a fazer esta questão várias vezes, enquanto nos perdemos ao tentar perceber o que é real ou não. Hawley usa o estado mental de David para brincar com as nossas perceções. Porém, isto não é um elemento negativo. Pelo contrário. Este sentimento de desordem não nos dá uma posição privilegiada, logo cada desenrolar da série é uma surpresa.

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Para contar a jornada de David, Noah Hawley embarca (e leva-nos com ele) numa viagem alucinogénia. Não é só no guião que reside o sucesso de Legion. A série usa e abusa de elementos cinematográficos. A fotografia, a realização, a banda-sonora (com Pink Floyd, The Who, Talking Heads, Robert Plant, Nina Simone e T.Rex) estão excelentes. Também é de sublinhar as referências e aplicação de características do cinema mudo e de Bollywood.

Tal como as memórias de David, a história de Legion é um mosaico, reconstituído de uma maneira que não é perfeita. Porém não significa que a visão psicadélica de Hawley esteja errada. Tendo em conta a história do mutante, esta é a forma mais acertada.

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Também o elenco é um ponto forte de Legion. Dan Stevens (A Bela e o Monstro) está excelente ao mostrar convicção total nas inúmeras emoções de David. As suas expressões corporais são tão bem executadas pelo ator que nós conseguimos sentir a dor e tensão física, bem como distinguir os momentos em que David é ele próprio e quando ele é consumido por Shadow King.

Contudo Aubrey Plaza foi a maior surpresa do elenco. Habituada a produções de comédia – por exemplo, a série Parks and Recreation e o filme  Mulheres Procuram-se Para Ir a Casamento – a atriz conseguiu desdobrar-se em várias versões, cada mais horríveis e irónicas, vestindo de forma natural o ar psicadélico e doentio.

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Todavia, o maior feito de Legion prende-se com a criação de um mundo autónomo do universo X-Men. Embora todos saibamos quem é o pai de David, o nome de Charles Xavier nunca foi mencionado, mesmo quando foi apresentada a história do protagonista. Apenas tivemos um deslumbre no penúltimo episódio da famosa cadeira de rodas do Professor X. Legion conseguiu manter Xavier a distância de um braço, mas abraçando-o.

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Claro que esta não é uma série para todos. É necessário entrar nesta produção com a mente aberta e evitar comparações com outras adaptações de super-heróis.

Além disso não é o género de série que devemos ver em maratona, uma vez que pode ser necessário algum tempo para absorver os episódios e tentar perceber o que realmente está a acontecer. Contudo, é impossível largar. Ao final de cada episódio queremos ver sempre mais. A cada capítulo somos atirados para novas histórias, novos pormenores, novas versões das personagens e mais dúvidas. Contudo, mesmo em modo maratona, Legion faz o bom trabalho de voltar a explicar de forma subtil as certezas absolutas.

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Legion é a série refrescante que o universo dos super-heróis na televisão precisava há muito. Não significa que haja demérito naquilo que têm vindo a ser feito – Marvel e Netflix têm desenvolvido um bom trabalho. Mas Noah Hawley conseguiu demarcar-se dos restantes projetos e abrir mais portas para este género. A estreia de Legion poderá definir o próximo grande patamar nas histórias de heróis.

Legion - Temporada 1
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Name: Legion

Description: David Hallerm, diagnosticado com esquizofrenia, é um homem atormentado por vozes e visões. Depois de um encontro estranho com uma paciente da mesma clínica psiquiátrica em que está internado, David começa a pensar na possibilidade de que as visões possam ser reais. Esta revelação é o primeiro passo rumo à descoberta da sua nova identidade, Legion.

  • Catarina Fernandes - 93
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CONCLUSÃO

O MELHOR – A primeira temporada de Legion marca um ponto de viragem nas produções de super-heróis. Além do ótimo desempenho do elenco, existe uma preocupação, e um belíssimo trabalho, com a fotografia, realização e argumento.

O PIOR – A complexidade do enredo pode obrigar os espetadores a pausarem entre os episódios para absorver os acontecimentos dos capítulos.

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Catarina Fernandes

Mestre em Ciências da Comunicação e fotógrafa amadora. Seriófila compulsiva e apaixonada por literatura, assim como pelo cinema e pela sua história. (Extremamente) Viciada em música e concertos.

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