A Lenda do Dragão, em análise

Depois de O Amigo Gigante, a Walt Disney continua a ser a mais encantadora das produtoras neste verão cinematográfico.

É díficil não assistir a este A Lenda do Dragão sem pensar em O Amigo Gigante (The BFG), filme realizado por Steven Spielberg estreado no passado mês de julho. Ambos os filmes aproximam-se em inúmeros aspetos. Em primeiro lugar, caracterizam-se por contarem histórias sobre amizades improváveis, um  sobre o elo que nasce entre um dragão e um miúdo órfão, o outro sobre uma menina nas mesmas condições, que conhece um gigante gentil. Outro elemento em que convergem é o facto da produção estar a cargo da Walt Disney Pictures e ainda por estrearem no verão, época do ano em que a maioria das estreias no setor comercial tendem a desfrutar de um sabor um quanto amargo.

Na verdade, ao contrário do que se poderia prever, A Lenda do Dragão sai vitorioso como o mais otimista e familiar dos filmes da temporada, a bem dizer dos melhores do género que teremos este ano. Embora seja visto por muitos como um remake de um musical (também da Disney), lançado em 1977 (um pouco exaustivo e lento), A Lenda do Dragão afirma-se mais uma reinvenção de um enredo reiteradamente clássico que nunca sucumbe, por completo, aos efeitos especiais. Se, por teimosia, outros projetos ao longo de 2016 como Capitão América: Guerra Civil ou Batman V Superman: O Despertar da Justiça viviam apenas dos e para os efeitos visuais, A Lenda do Dragão, a que se junta efetivamente O Amigo Gigante e O Livro da Selva (também este da Disney, estreado durante a primavera) privilegiam o digital, esse mecanismo moderno, em prol das mais tradicionais proezas narrativas. Paradoxal e questionável, é certo, contudo já fazia falta um filme que conciliasse tudo o que de melhor se pode esperar de Hollywood: entretenimento, comédia familiar e aventura. Ora, A Lenda do Dragão tem alma, e mais importante, tem magia.

A Lenda do Dragão

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A Lenda do Dragão (um título um quanto mais relevante que o original Pete’s Dragon) segue os primeiros passos de uma criança que perdeu os seus pais num acidente de viação perto de uma floresta, lugar com temíveis segredos, e que sem tardar depara-se com um dragão a que chama Elliot. Subitamente, com um mero cruzar de olhos, nasce uma amizade entre aqueles seres solitários que precisam um do outro. Pete (Oakes Fegley, um dos jovens atores revelação do ano) cuida de Elliot como o seu primeiro animal de estimação, o cão da fábula infantil através do qual aprendeu a ler. Todavia, Elliot é muito mais do que um dito “pet”. Poderá apelar ao modo com o qual ‘natureza’ apodera-se de uma criança, que de um segundo para o outro fica sem rumo (algo que a câmara deixa bem elucidado).

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Mesmo sendo uma criatura mítica, com abordagens nas culturas oriental e ocidental, o dragão irrompe como metáfora das mais contemporâneas questões. Enquanto o Elliot do filme original era um desenho animado que interagia com um humano, servindo sobretudo como amigo imaginário, em A Lenda do Dragão transmite outros domínios. Senão vejamos a crítica à desflorestação, que se assiste em inúmeros territórios ditos protegidos. Aliás, a cor do pêlo de Elliot confunde-se perfeitamente com a tonalidade da floresta onde o animal abre as asas e voa.

A Lenda do Dragão

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No quotidiano do espetador do século XXI, é cada vez mais banal a empatia gerada com uma criatura computadorizada (em CGI), mas esta, que é já uma das peculiares personagens da Disney, simboliza, e muito,  desenho animado de lápis de carvão, ou seja, participa na trama com um sentido exclusivo. Não será ainda Elliot uma recriação (ou importação), do dragão de A Viagem de Chihiro, realizado por Hayao Miyazaki, proveniente do Estúdio Ghibli? Não terá a mesma singularidade que os elementos animados de Mary Poppins, mesmo que passados cinquenta anos?

Noutro campo, é perceptível que A Lenda do Dragão não seguirá o caminho idêntico aos filmes À Procura de Dory ou Zootrópolis, pelo menos no que diz respeito às receitas de bilheteira. Dificilmente A Lenda do Dragão será objeto de merchandising. Isto porque todo o filme parece mais um de produto caseiro de baixo orçamento, que será ignorado por alguns espetadores. No entanto, aí está a possibilidade da Disney criar uma história para as gerações.

A Lenda do Dragão

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Como é óbvio, A Lenda do Dragão não contém apenas esse ser. A lenda é contada vezes sem conta por humanos, em particular por um tal Mr. Meachan (Robert Redford), que afirma já ter contactado com a besta, anos antes. Ao contrário do seu pai, Grace (Bryce Dallas Howard), prefere acreditar apenas no mundo real, no visível, até que conhece Pete e esse mundo de cepticismo começa a não fazer lá muito sentido. Enquanto Redford e Howard  jogam por interpretações seguras, outra criança tem tempo para brilhar, nomeadamente Oona Laurence (de Southpaw – Coração de Aço), que como Fegley, escapa aos clichés infantis. Seja dito de passagem que nos estúdios norte-americanos há um intenso processo de casting no que toca a menores, que muitos filmes como por exemplo Quarto, de Lenny Abrahamson, só vieram acentuar. Não são jovens apenas aptos para filmes de comédia, como a maravilhosa Angourie Rice a salvar o enredo de Bons Rapazes, mas também para dramas melancólicos como este A Lenda do Dragão.

A banda sonora também sustenta esse mundo particularmente fantástico, com muitos sons de violino e piano, num estilo folk-rock, características próprias do interior americano onde decorre a ação do filme (embora tivesse sido filmado na Nova Zelândia). Destaque, por isso, para as cativantes vozes dos artistas mais ou menos populares, entre eles as da banda The Lumineers e a respetiva canção “Nobody Knows” ou para a artista Lindsey Stirling, que acompanha Daniel Hart no seu trabalho de composição.

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Enfim, A Lenda do Dragão é um dos marcos surpreendentes da Disney, bem como uma escape para um mundo realmente envolvente (e intemporal) que as famílias terão oportunidade de revisitar durante décadas. Da mesma maneira como Pete irá sempre revisitar no seu imaginário um dragão chamado Elliot.

O MELHOR: As crianças e a interacção com o animal esverdeado.

O PIOR: A promoção do filme nos dias em que concorre diretamente com Esquadrão Suicida, o marco no cinema dos anti-heróis. 

Consulta também: Guia de Estreias de Cinema | Agosto 2016 


Título Original: Pete’s Dragon
Realizador:  David Lowery
Elenco: Bryce Dallas Howard, Oakes Fegley, Karl Urban, Oona Laurence, Wes Bentley e Robert Redford
NOS | Família, Aventura, Fantasia | 2016 | 103 min

A Lenda do Dragão

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VJ

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