"Night For Day" |©Curtas Vila do Conde

Curtas Vila do Conde 2021 | Competição Internacional 5, em análise

O  Curtas Vila do Conde em 2021 apresentou o seu 4º dia de exibições competitivas a 20 de julho. 

Analisamos a sessão “Competição Internacional 5”, onde podemos ver três filmes que nos transmitem algo mais acerca de fraternidade, inteligência artificial e criação de utopias. 

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1 – QUATRO CAMINHOS/ QUATTRO STRADE DE ALICE ROHRWACHER (IT, 8′, 2021) 

Festival Curtas Vila do Conde 2021 Competição Internacional 5
©Curtas Vila do Conde

O confinamento forçado do início da pandemia de Covid-19, ao invés de limitar as possibilidades criativas, foi para Alice Rohrwacher uma oportunidade para explorar as redondezas. A realizadora esteve em isolamento na comunidade rural de Quattro Strade, na Toscânia, e devido às restrições que proibiam o contacto físico, encontrou uma forma alternativa para conhecer melhor os seus vizinhos, com o auxílio de uma velha câmara de 16mm, um par de latas de filme para lá do prazo de validade e o olho mágico de uma lente zoom que faz aproximar as pessoas e os pequenos detalhes. Nesta época claustrofóbica de videochamadas, Rohrwacher redescobre o cinema como uma forma poética, sentimental e humanista de aproximação e de descoberta do outro.

A curta metragem de 8 minutos inaugurou a 5ª sessão competitiva internacional neste 29º Festival Curtas Vila do Conde. Este registo documental da editora, argumentista e realizadora italiana Alice Rohrwacher (a veterana de obras como “Corpo Celeste” ou “Feliz como Lázaro”),  foi exibido ao público no dia 20 de julho, pelas 22h20, na Sala Um do Teatro Municipal de Vila do Conde. Caso tenham perdido a exibição, o filme pode também ser visto mediante subscrição da plataforma MUBI (a qual possibilita um teste grátis inicial de 7 dias).

Obra filmada em 2020, “Quatro Caminhos” teve estreia mundial no festival de cinema italiano “Visioni Italiane”, onde deslumbrou quem a viu. Alice Rohrwacher colocou entre ela e os seus vizinhos a lente de uma pequena e antiga câmara de 16mm, o seu “olho mágico”, que lhe permitiu interagir com maior proximidade num tempo de separação física forçado.

Esta sua câmara cumpre a função magistralmente, conseguindo mediar sem impor quaisquer barreiras. Antes pelo contrário, “Quatro Estradas” convida-nos, de coração aberto, para respirar e viver a pequena comunidade rural que nos é exibida. A narração enigmática, as expressões francas, a bela e serena banda-sonora, a correção de cor marcada pela destreza e contenção, assim se assinalam um sem fim de pequenos pormenores que tornam “Quattro Strade” numa pequena pérola irrepreensível e surpreendentemente comovente. Fraterna, convidativa, esperançosa e, acima de tudo, luminosa, assim é esta pequena curta-metragem.

Classificação: 90/100  

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2 – VO DE NICOLAS GOURAULT ( FR, 20′, 2020)

Festival Curtas Vila do Conde 2021
“VO” | ©Curtas Vila do Conde

Um acidente mortal entre um automóvel auto-conduzido e um peão desencadeia uma investigação acerca do papel dos agentes humanos na formação de automóveis sem condutor. Testemunhos de operadores de veículos guiam-nos através de um turno noturno no qual a paisagem se funde com os dados dos sensores do carro.

Nicolas Gourault, investigador, artista visual e realizador sediado em Paris, opera neste “VO” um estudo acerca de uma matéria que, recentemente, saltou da esfera da ficção científica para a da realidade. No mercado automóvel, existem alguns veículos que quase se conduzem a eles próprios. A investigação para lá de cirúrgica de Gourault explica-nos porque é que o sonho exequível de carros com condução inteiramente autónoma continua a meio gás.

Mais um ensaio documental do que uma obra motivada por pretensões artísticas desmedidas, “VO” distingue-se na programação deste  Curtas Vila do Conde 2021 pela natureza analítica dos seus esforços. E por referir uma natureza mais analítica não se pretende descartar a criatividade envolvida nesta criação, longe disso. Ao longo de vinte minutos recorre-se a diversas fontes de informação: de relatórios judiciais a testemunhos, sendo a representação visual destas peças do puzzle igualmente vasta e até inventiva.

Entre imagens reais do acidente, excertos de noticiários, captura de imagens noturnas reais dentro e fora de veículos, animação tradicional ou animação modular, “VO” nunca peca por defeito e, no seu tom, consegue chegar a ser duro e incriminatório. Não obstante, sempre de forma cuidadosa e sem ter a ambição de ser categórico, substituindo-se a regras jurídicas ou elevando-se como moralista.

São levantadas questões, inteligentemente, e é problematizada a forma como dependemos da tecnologia (e como esta depende de nós). Um calafrio percorre-nos a espinha, a escuridão abate-se. No final, “VO” parece algo incompleto, talvez porque tal também é verdade quando falamos acerca do mecanismo que aqui é colocado em cheque.

Objeto, utilizador, criador. Uma trindade indissociável e que aqui é estudada com cuidado por Nicolas Gourault.

Classificação: 70/100 

3 – NIGHT FOR DAY DE EMILY WARDILL (PT/AUS, 47′, 2020 )

  Festival Curtas Vila do Conde night for day
“Night For Day” |©Curtas Vila do Conde

A expressão “Night for Day” refere-se a uma técnica através da qual é possível criar uma ilusão de que algo que foi filmado durante o dia decorre durante a noite. Neste filme a ilusão é a ligação criada entre os dois momentos narrativos de “Night for Day”, definidos por dois depoimentos: de um lado, Isabel do Carmo (…) recorda o seu tempo como fundadora das Brigadas Revolucionárias em 1970 e os primeiros tempos de liberdade em Portugal; do outro lado, dois jovens que lideram uma “start-up”, que tenta programar computadores para que possam reconhecer imagens em movimento, trocam ideias sobre tecnologia. O filme “recorta” estes dois depoimentos como conversas que dialogam entre si (…)

O que aconteceria se uma revolução comunista desse à luz uma utopia techno? pergunta Emily Wardill

Co-produção entre a Áustria e Portugal, surgida a partir da mente da artista e cineasta britânica Emily Wardill, “Night For Day” é uma obra documental que joga com montagem experimental e que clama por interpretação. São dois os momentos distintos que se vêem montados em “Night For Day”: uma conversa livre e intelectual acerca de utopias , limites e possibilidades da tecnologia, em inglês, entre um jovem americano e um presumivelmente europeu, dois astrofísicos; outra, uma entrevista a Isabel do Carmo, médica que recorda a intervenção dos militantes comunistas no pré e pós-25 de abril e o esforço de resistência que co-fundou.

Esforço admirável e repleto de momentos que imploram por interpretações diversas, “Night For Day” peca contudo pela inconstância na força dos seus destaques. Talvez usando como prisma parcial a minha condição enquanto cidadã (e mulher) portuguesa, o relato do salazarismo através da voz de Isabel do Carmo, nomeadamente em torno de uma resistência no feminino que se viu esquecida entre os heróis da História, parece-me amplamente mais relevante do que algumas considerações mais gerais e amplas que vão surgindo no diálogo em inglês. Queria saber mais acerca dessas mulheres, as suas histórias, os seus infortúnios e vitórias.

O mesmo se pode dizer em relação à composição estética de “Night For Day”. Há imagens fascinantes e montadas de forma impecável, mas subsistem também capturas mais fracas. A recorrência de um espaço interior, por exemplo, o apartamento onde Isabel do Carmo foi entrevistada, acaba por empobrecer o filme como objeto de arte. Por vezes, o visual cai na banalidade (quando não é essa a sua intenção) e o refúgio último acaba por ser apenas a força das palavras. No audiovisual deve, sempre que possível, verificar-se um casamento perfeito entre os dois mediums. 

Classificação: 75/100 

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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