Este artigo contém spoilers sobre a minissérie “A Leste do Paraíso”
Depois de “O Problema Final“, há uma nova minissérie a liderar o Top da Netflix Portugal: “East of Eden” (“A Leste do Paraíso”), com Florence Pugh. A adaptação do romance de John Steinbeck estreou a 1 de outubro, com os sete episódios disponíveis de uma só vez.
No Rotten Tomatoes, a minissérie regista 88% de aprovação da crítica e 81% do público. No Metacritic, a nota é de 80. Ainda assim, há detalhes da adaptação que estão a ir contra a série, sobretudo entre quem leu o livro. Assim, reunimos as quatro críticas mais duras à versão de Zoe Kazan.
1. John Steinbeck teria odiado a adaptação de Zoe Kazan

Num artigo de opinião para o The Wall Street Journal, o autor vai mais longe e afirma que John Steinbeck teria detestado a minissérie. O texto acusa Zoe Kazan e Florence Pugh de caírem naquilo a que chama a “falácia de Wicked”, a ideia de que não existem vilões a sério, apenas anti-heróis incompreendidos. O argumento apoia-se nas próprias notas de Steinbeck, que Zoe Kazan diz ter usado. Nelas, o escritor responde, irritado, a um editor imaginário que achava Cathy demasiado negra, lembrando que o livro é sobre o bem e o mal.
Na série, Kazan dedica vários episódios a o caminho de Cathy até às suas escolhas. Florence Pugh contou à Vulture que a criadora não pretendia absolvê-la, porque a crueldade mantém-se, mas é enquadrada pela violência que a personagem sofreu. Para a publicação, é precisamente aí que a série perde a ousadia do livro.
2. A minissérie da Netflix é “uma maçada sombria, soturna e pesada”

O Newsday resume a série como uma “maçada sombria, soturna e pesada”. No texto, o autor destaca que o grande obstáculo da obra é a própria Cathy, uma personagem que envelheceu terrivelmente e não passa de “o delírio febril de um misógino”. O crítico questiona a viabilidade do projeto atual, disparando: “Quem gostaria de passar por uma minissérie de sete horas com isso?”.
Ainda assim, o crítico nota o esforço de Pugh, mas acredita que nem o desempenho da atriz nem a roupagem feminista salvam a rigidez da trama. Com amarras profundas ao livro, Kazan fica de mãos atadas: “Ela não pode mudar Cathy demais, senão ela vira outra pessoa”. O resultado é um roteiro engessado sobre uma vilã rasa, já que “Steinbeck não se importava muito com a vida interior dela”.
3. Florence Pugh é o destaque, mas o resto é “pálido e mal cozinhado”

Mas não é só Cathy que está a gerar críticas. Por exemplo, o site RogerEbert.com considera que Florence Pugh é tão dominante, que tudo o resto fica “pálido e mal cozinhado” quando ela não está em cena, criando um desequilíbrio notório principalmente na segunda metade da história.
Além disso, personagens centrais sofrem com a transição para a tela. Adam Trask (Christopher Abbott) acaba por se transformar num mero enigma e tem dificuldades em traduzir visualmente o conceito de bondade inerente, soando mais como um símbolo do que como uma pessoa totalmente formada. Por fim, a série sofre com cortes drásticos, como a quase total supressão do núcleo da família Hamilton, e com alguma dificuldade em dar o devido fôlego aos temas morais e filosóficos mais amplos da obra de Steinbeck, deixando figuras como Charles (Mike Faist) menos desenvolvidas do que deveriam.
4. De vilã incontestável para John Steinbeck a “girlboss incompreendida” na Netflix

Por fim, a Slate arrasa a nova adaptação de “A Leste do Paraíso” por transformar uma das maiores vilãs da literatura numa “girlboss incompreendida”. O erro central foi suavizar a maldade pura de Cathy com traumas passados, distorcendo a obra de Steinbeck, onde ela era apenas uma mulher que, nascida sem consciência, “mata e manipula o seu caminho pela vida”.
Para isso, a série recorre a alterações forçadas. O discurso original do pai sobre a autoridade legal foi trocado por uma fala moderna em que a chama de sua “propriedade”, servindo apenas para colocá-lo como “mais um numa parada de exemplos de homens que tratam Cathy mal”. A própria atriz reforçou essa intenção ao declarar que o seu trabalho era “fazer as pessoas simpatizar e talvez apaixonar-se um pouco por ela”.
Essa fixação em reescrever a antagonista destrói a estrutura dramática. Adam Trask passa boa parte da trama estagnado, “sentado numa cadeira na varanda, lamentando a esposa que mal conhecia”, totalmente sem agência. Para piorar, a série usa invenções artificiais, como a aparição fantasmagórica de Charles ou crises forçadas no bordel, que dão crédito excessivo a uma vilã que deveria ser impiedosa, resultando numa adaptação falhada e frustrante.
Onde ver “East of Eden” no streaming?

A minissérie “East of Eden” está disponível na Netflix desde 1 de outubro, com os sete episódios. Não é a primeira vez que o livro chega ao ecrã. O título mais célebre continua a ser o filme de Elia Kazan, de 1955, com James Dean, que cobriu só o final do romance. Já em 1981, a ABC tinha também transmitido uma minissérie em três partes com Jane Seymour.
Na sua crítica para a MHD, José Vieira Mendes não tem dúvidas: “A Leste do Paraíso prova que adaptar um clássico não exige veneração nem vontade de o “modernizar” à força. Exige perceber aquilo que ainda permanece vivo. Zoe Kazan faz isso: regressa a Steinbeck, enfrenta inevitavelmente o filme do avô e encontra uma forma própria de contar a mesma história sem a tornar uma peça de museu”. O autor acredita ainda que “Florence Pugh dá-lhe o centro emocional e moral, mas é a combinação entre escrita, actores, escala visual e tempo narrativo que transforma a série num dos grandes acontecimentos televisivos da temporada”.


