"Lords of Chaos" | © Vice Films

MOTELx ’19 | Lords of Chaos, em análise

Rory Culkin, Emory Cohen e Valter Skarsgård dão vida a algumas das figuras mais infames do black metal norueguês em “Lords of Chaos”, uma cinebiografia assinada pelo realizador Jonas Åkerlund. O filme integra a secção Serviço de Quarto da presente edição do MOTELx.

Não haverá banda mais infame na História do black metal norueguês que os Mayhem. Criado em 1984 por Øystein Aarseth, Jørn Stubberud e Kjetil Manheim, artisticamente conhecidos como Euronymous, Necrobutcher e Manheim, o grupo ajudou a fundar o movimento e subcultura do black metal na Noruega e sua influência ainda é sentida. De facto, o grupo dura até aos dias de hoje, mas já foi muito alterado por várias tragédias. Começado em 1988, eles tiveram como vocalista o talentoso Per Yngve Ohlin, autobatizado como Dead, que se veio a suicidar em 1991. No ano seguinte, depois da dissolução do grupo original, novos músicos juntaram-se aos Mayhem, nomeadamente Varg Vikernes da banda Burzum.

Juntamente com outros membros desta subcultura, ele esteve envolvido em vários ataques incendiários a igrejas e, em 1993, foi condenado pelo homicídio de Euronymous. Houve ainda outros crimes a orbitar em volta dos Mayhem e seus vários membros, incluindo o homicídio de Magne Andreassen, um homem homossexual que tentou abordar o músico conhecido como Faust na rua. O artista, cujo nome legal é Bård Guldvik Eithun, esfaqueou o outro homem 37 vezes e depois pontapeou-o até que este se parou de mover. Ambos os assassinos já se encontram em liberdade, tendo cumprido as suas penas de prisão.

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© MOTELX

“Lords of Chaos” propõe-se a dramatizar tudo isto, desde o nascimento dos Mayhem até à morte violenta de Euronymous, funcionando como o retrato de um tempo, de um lugar e de uma comunidade extremamente específicos. O realizador, Jonas Åkerlund, foi em tempos o baterista para uma das bandas de black metal que começaram o movimento norueguês nos anos 80, os Bathory. Por isso mesmo, é difícil imaginar um cineasta mais apropriado para trazer esta história ao grande ecrã. Afinal, ele não é um observador distante, mas alguém que estava lá, que conviveu e comungou com os jovens rebeldes que proclamavam ser satanistas e nazis, que queriam revolucionar a música e rejeitar qualquer forma de bons costumes. Ele foi um desses jovens.

Tal proximidade com o seu objeto de estudo, faz-se sentir principalmente ao nível de tom. “Lords of Chaos” é um docudrama que está sempre a oscilar entre géneros, como que orientado pelas mentes instáveis de algumas das suas personagens mais violentas. No início, o filme parece quase uma comédia negra, acompanhando o bizarro dia-a-dia dos membros dos Mayhem com um toque de humor sardónico sempre a sombrear até as mais hediondas situações. Assim até ao primeiro advento de violência destrutiva, um choque que reverbera por todo o filme e o transfigura num drama histórico mais sério e também mais paranoico. De repente, parece que o tempo acelera e que o próprio guião começa a perder controlo da história que tenta contar.

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Epítetos de terrorismo doméstico precipitam-se contra disputas da indústria musical e o que antes era uma comunidade unida pelo seu niilismo coletivo, começa a fragmentar-se. O orgulho tido pelo seu desprezo contra a santidade da vida humana torna-se num veneno que consome e destrói os membros dos Mayhem, virando-os uns contra os outros. Quando o segundo grande episódio de violência acontece, as facadas desferidas são tanto contra o corpo de um inocente como contra o humor que ainda poderia sobreviver no filme. A partir daí, estamos perante uma tragédia e o próprio narrador se apercebe disso.

Indo buscar inspiração ao cinema noir, Åkerlund concebeu “Lords of Chaos” como uma espécie de “Sunset Blvd.” do black metal norueguês. Aqui, Euronymous é o nosso narrador que conta a história do seu fado além da cova, filtrando a narrativa potencialmente sensacionalista por uma perspetiva pessoal cheia de ironia e até algum desdém. Quando, depois de uma sôfrega e prolongada cena de morte, o filme se desmancha em lacrimosas tonalidades, quase assumindo-se como uma elegia de Euronymous, a voz desapaixonada de Rory Culkin está presente para gozar com essa mesma choradeira. É bem possível que o músico fosse odiar homenagens sentimentalistas, pelo que o rasgo de humor é tão apropriado quanto é abrasivo para com o espectador.

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© MOTELX

Os jogos tonais aqui descritos dão a esta cinebioografia um nível de ambição bastante incomum no seu subgénero de filme. Contudo, a fuga à convenção também traz problemas acrescidos. É, por exemplo, difícil entender qual a perspetiva do cineasta sobre a história que nos vai contando. Em alguns momentos, ele parece querer que simpatizemos com estes miúdos imaturos que torturam animais por diversão e tratam mulheres como bonecas sexuais sem autonomia. Noutras ocasiões, há uma clara tentativa de mostrar a toxicidade deste comportamento, de desmascarar o artifício do black metal e até de gozar com o modo como estes heróis da subcultura apelavam a símbolos e filosofias que não compreendiam e os marcavam como hipócritas contraditórios.

Apesar do último gesto de narrativa cómica, diríamos que a pedra da Roseta deste filme são as mortes e a nuvem de tragédia que elas deixam sobre os filmes. Longe de retratar a violência como algo excitante ou cinematograficamente tenso, Åkerlund desmistifica a perda de uma vida. Estas são sequências compridas e impiedosas, que mostram como os corpos humanos começam a desabar sobre si mesmos quando o sangue continua a escapar por feridas abertas. É algo feio e grotesco, algo que não entretém ninguém, mas também não choca. Há uma franqueza admirável nestes momentos, especialmente quando os consideramos no contexto de um festival dedicado a cinema que torna o medo numa comodidade económica e artista. Por muitos problemas que possa ter, essas explosões de violência irracional elevam “Lords of Chaos” acima de muitos outros filmes semelhantes.

Lords of Chaos, em análise
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Movie title: Lords of Chaos

Date published: 14 de September de 2019

Director(s): Jonas Åkerlund

Actor(s): Rory Culkin, Emory Cohen, Jack Kilmer, Sky Ferreira, Valter Skarsgård, Anthony de la Torre, Jonathan Barnwell, Sam Coleman, Wilson Gonzalez, Lucian Charles Collier, Andrew Lavelle, James Edwyn

Genre: Biografia, Drama, Terror, 2018, 118 min

  • Cláudio Alves - 72
72

CONCLUSÃO:

“Lords of Chaos” é uma montanha-russa de tons e estilos e tenta contar a história dos Mayhem, desde a sua criação até ao assassinato de Euronymous, seu membro fundador. Bons atores e admiráveis recriações históricas da Noruega dos anos 90, fazem do filme uma cinebiografia admirável, mesmo que esteja longe da perfeição.

O MELHOR: As três cenas mais chocantes e sanguinárias do filme, um suicídio e três homicídios. Além disso, temos de aplaudir o trabalho de ator, especialmente os esforços de Rory Culkin e Jack Kilmer.

O PIOR: A misoginia e niilismo imaturo que acabam por infetar o filme. O modo como “Lords of Chaos” retrata mulheres é bem deplorável, mesmo que possa ser uma escolha justificável ao nível de coerência dramatúrgica.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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