"Lunana: A Yak in the Classroom" | © Huanxi Media Group

Lunana: A Yak in the Classroom, em análise

Tanto no seu enredo como nos bastidores, “Lunana: A Yak in the Classroom” é uma história de perseverança humana e obstáculos superados. A obra realizada por Pawo Choyning Dorji representa o Butão nos Óscares, tendo conquistado uma nomeação para Melhor Filme Internacional.

Comparado com outras nações, o Butão não tem uma indústria cinematográfica especialmente robusta. Isso mesmo se reflete na irregularidade com que o país se candidata à corrida para o Óscar de Melhor Filme Internacional. A primeira vez que o fizeram foi em 1999, com “The Cup” de Khyventse Norbu. A segunda aconteceu há dois anos, quando “Lunana: A Yak in the Classroom” foi enviado para consideração da Academia de Hollywood. Contudo, o filme foi desqualificado visto que a sua seleção não tinha passado por um comité aprovado pelos Óscares. Tão tarde veio a triste notícia que nem houve tempo de tentar reverter a situação.

No entanto, nem o Butão nem a sua cena cinéfila desistiram. Passada a temporada dos prémios de 2020/1, começaram os esforços para o ano seguinte. Num gesto quase inédito na história dos Óscares, o mesmo filme foi enviado novamente, no rescaldo da desclassificação. Desta vez, estabeleceu-se um Comité Oficial do Cinema Butanês formado por vários nomes ilustres da sua indústria nacional, incluindo Khyventse Norbu. Mesmo com mais um ano de consideração, a escolha continuou clara – “Lunana: A Yak in the Classroom” devia representar o país internacionalmente. Louvamos a persistência e temos que admitir ter sido escolha acertada.

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Apesar da campanha humilde e falta de recursos, o filme conseguiu ganhar a atenção de suficientes membros da Academia para passar à segunda fase de votações, quando os mais de 90 candidatos foram reduzidos a 15. A parti daí, a falta de projeção global ou máquina publicitária deixou de ter tanta importância. Para votar na última fase antes das nomeações, os votantes são obrigados a ver todos os finalistas sem exceção. E assim foi que, ao oferecer uma alternativa inspiradora e muito mainstream, o Butão conseguiu superar cinemas nacionais mais sofisticados, desafiadores, famosos. Esta foi uma daquelas ocasiões em que David se sagrou campeão contra Golias.

Mas, quando se ignora toda esta narrativa dos prémios, será que “Lunana: A Yak in the Classroom” merece toda esta atenção? Pelo menos, na métrica da ambição, temos que aplaudir os esforços dos cineastas, tão empenhados em contar esta história particular que arrastaram uma equipa de filmagens até um dos pontos mais remotos do mundo. De facto, a escola em Lunana, uma vila rural perdida algures nos Himalaias, é considerada a escola mais isolada do globo. Durante o Inverno, o clima das montanhas é tão agreste que sair do vale em que a povoação se situa é impossível. Há que esperar pelo degelo da Primavera para reentrar a modernidade.

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Dizemos isto pois, apesar de estarmos em pleno século XXI, as condições em Lunana apontam para tempos mais antigos. Eletricidade quase não existe e internet muito menos. A maior parte dos habitantes nunca viu uma câmara ou um filme sequer. As janelas das casas não são vidro, mas papel, e o combustível de preferência é o estrume dos iaques criados pela comunidade. Quando o clima piora, os excrementos ressequidos podem ser o que separa a vida da morte, o frio dos Himalaias um inimigo fortíssimo até para aqueles que cresceram nos seus sopés. Fazer um filme em tais condições é um pesadelo.

Além disso, na busca por autenticidade, o realizador decidiu não só filmar na comunidade isolada, como escolher o seu elenco com base nas pessoas de Lunana. Tirando o ator principal, Sherab Dorji, praticamente todos os outros intérpretes estão a representar pela primeira vez. Ainda para mais, passando-se o filme num ambiente escolar, os papéis secundários mais importantes são todos eles crianças. Por outras palavras, este cineasta é homem louco, inebriado pelo propósito humanista e pela vontade de mostrar as dificuldades, a miséria, e a nobreza de quem vive naquele que é chamado o país mais feliz do mundo.

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Esta maravilhosa história de bastidores e o sucesso dos prémios pode ofuscar o filme em si. Isso acontece, em parte, porque “Lunana: A Yak in the Classroom” é um trabalho imensamente convencional, quase prosaico nas suas escolhas narrativas. Trata-se no enredo habitual de um peixe fora d’água. Neste caso, ele é Ugyen, um professor desleixado que sonha em emigrar para fora do Butão e ter carreira enquanto cantor. Em jeito de punição pela sua falta de empenho profissional, a administração educativa designa o jovem pedagogo como o novo professor de Lunana. Assim lá vai esse rato da cidade para o campo, viver meio ano nos Himalaias.

Como seria de esperar, o convívio com a gente da vila acaba por derreter o gelo no seu coração, inspirando Ugyen a tornar-se um melhor professor. De facto, ele torna-se numa pessoa melhor, cheio de compaixão e um desejo de melhorar a vida dos alunos. Com o passar do tempo, ele aprende o valor do sacrifício pessoal em nome do bem comunitário, e compreende os costumes dessa gente isolada. Aliás, o título do filme devém do seu engenho com os iaques. Usando as cinzas do estrume queimado, ele escreve nas paredes, a fundação da sala de aula convertendo-se em ardósia. É lógico, portanto, que o iaque passe a habitar a escola, qual mascote da turma.

Assim se monta uma narrativa que celebra a educação e a humildade de quem educa, sua importância enquanto membro da comunidade, seu lugar de destaque na vida do aluno. Também se celebram as paisagens naturais do Butão, sendo a fotografia o elemento formal que mais se afirma em “Lunana: A Yak in the Classroom.” Nessa vertente, a estratégia destemida do realizador paga os seus dividendos, conferindo ao filme toda a majestosa monumentalidade das montanhas, a paisagem mudando à medida que as estações passam e a neve nos cumes começa a descer o vale. Pelas imagens dignas de postal, esta obra lá se defende enquanto expressão audiovisual. É muito convencional, mas há brio na execução e poder no sentimentalismo.

Lunana: A Yak in the Classroom, em análise
lunana a yak in the classroom critica

Movie title: Lunana: A Yak in the Classroom

Date published: 20 de March de 2022

Director(s): Pawo Choyning Dorji

Actor(s): Sherab Dorji, Ugyen Norbu Lhendup, Kelden Lhamo Gurung, Pem Zam, Sangay Lham, Chimi Dem, Tashi Dema , Tshering Dorji, Dorji Om, Tandi Sonam, Sonam Tashi

Genre: Drama, Família, 2019, 110 min.

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“Lunana: A Yak in the Classroom” é uma bela longa-metragem de estreia para o realizador Pawo Choyning Dorji. Entre paisagens coloridas e um apelo mainstream, o filme é um bom candidato para os Óscares da parte do Butão.

O MELHOR: O esplendor natural de Lunana e suas circundantes montanhas.

O PIOR: O convencionalismo perfuntório do guião. Assim que o filme começa, o espetador perspicaz será capaz de prever tudo o que vai acontecer sem erro.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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