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M3GAN, em análise

Considerado um fenómeno desde que saiu nos cinemas nacionais, “M3GAN” pode muito bem vir a ser considerado um filme de culto nos próximos anos.

Enquanto a Pixar nos impingiu uma versão animada da ideia de que os nossos brinquedos ganham vida na ausência de seres-humanos, muitos filmes desenvolveram argumentos que mostram bonecos a serem possuídos por entidades malignas. “M3GAN” é mais uma dessas longas-metragens que atribuem vida própria a um ser supostamente inanimado. Contudo, o novo filme de Gerard Johnstone não é um filme de terror como se pode ler na ficha técnica. Aqui não há espíritos a habitarem em corpos de plástico. Em vez disso, o monstro é criado pelo próprio ser-humano, tratando-se de uma obra que critica, de forma brilhante, a nossa atual geração, alertando-nos para os perigos do futuro tecnológico.

No drama, Gemma é uma excelente profissional da área da robótica que desenvolve o protótipo de uma nova boneca que, através da Inteligência Artificial, se conecta emocionalmente com o seu dono. Vendo-se repentinamente no papel de tutora, Gemma desenvolve M3GAN com o principal objetivo de ajudar a sobrinha Cady a superar a morte precoce dos pais, oferecendo-lhe um brinquedo que se torna a sua maior companhia. Porém, à medida que o brinquedo vai desenvolvendo uma relação mais forte com a criança, torna-se altamente protetora e desenvolve instintos assassinos com o intuito de cuidar da sua dona.

M3GAN
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Note-se que os primeiros momentos da longa-metragem são verdadeiras premonições dos acontecimentos demonstrados ao longo do filme. Como tal, a longa-metragem inicia-se com um anúncio comercial de um brinquedo que consegue interagir com as crianças. A música alegre e as cores vibrantes fazem o público questionar se se trata realmente de uma publicidade ou de uma parte do filme. Porém, logo aqui se percepciona a principal temática do filme – a tecnologia. E é exatamente esse o ponto em que assenta a maior crítica construída pela narrativa. No decorrer da ação, é mostrado ao público a dependência, cada vez maior, que temos dos aparelhos eletrónicos. Enquanto os adultos fazem uso da tecnologia através de gadgets como as assistentes virtuais, os mais novos parecem não saber reagir perante a ausência de aparelhos eletrónicos. Da mesma forma, as crianças já não sabem brincar com trapos, pois até um simples peluche necessita da intervenção de um tablet. Numa era assumidamente controlada pelo digital, “M3GAN” alerta-nos para os perigos daquilo que estamos a criar. Afinal de contas, o que o filme nos mostra é que a evolução das coisas está a ganhar proporções tão grandes, que um robô tem a capacidade de pensar por si próprio. Se no início da longa-metragem, um mero peluche parece ser inocente, o evoluir das tecnologias inseridas nos brinquedos acabam por dar origem a M3GAN, uma boneca assassina.

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Além do mais, o peluche inofensivo parece também estar envolvido na morte dos progenitores da protagonista, sendo este o segundo momento da longa-metragem que serve de gatilho para o desencadear dos principais acontecimentos do filme. Ao fim e ao cabo, a morte dos pais de Cady são também um paralelismo com o final de “M3GAN”, pois o filme inicia-se com uma morte provocada pelo Homem – um acidente de carro – e termina com outras tantas mortes provocadas por uma boneca construída por um ser-humano.

Por fim, o acidente que vitima o casal é o prelúdio que dá origem ao aparecimento do robô. Ao ficar orfã, Cady vai viver para casa da tia Gemma, uma mulher que se encontra no auge da sua carreira e que não sabe lidar com a presença constante da sua sobrinha. Apesar de se preocupar com Cady, Gemma não está acostumada a interagir com crianças, apesar de trabalhar no desenvolvimento de brinquedos para os mais novos. Perante a dificuldade de interagir com a sobrinha, a profissional da área da robótica decide desenvolver M3GAN, um robô que através da Inteligência Artificial consegue conectar-se emocionalmente com Cady, quase substituindo a presença da tia. Esta é a segunda grande crítica apontada pela narrativa, dirigida aos adultos que cada vez menos dedicam tempo aos filhos, compensando-os com a oferta de brinquedos tecnológicos.

M3GAN
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Embora a longa-metragem não seja um filme de terror, pelo menos no sentido literal da palavra, “M3GAN” tem a capacidade de aterrorizar os espectadores ao perspectivar um futuro dominado pelas tecnologias. Numa era em que temos já conhecimento do desenvolvimento de robôs feitos com Inteligência Artificial, assusta saber o quão facilmente estes seres adquirem competências que se podem opor àquelas para as quais foram programados. Neste caso, M3GAN assume uma superproteção da criança, função essa que deveria ser desempenhada pela sua cuidadora.

Analisando os aspetos mais técnicos de “M3GAN”, importa destacar o trabalho digital que conseguiu transformar a atriz Amie Donald numa boneca. Do mesmo modo, deve-se ressalvar o desempenho da atriz que consegue facilmente suscitar risos aos espectadores através das subtis piadas por si contadas. Os exemplos mais ilustrativos acontecem quando a boneca de titânio interpreta o tema Titanium, de David Guetta, e quando esta executa uma dança do Tik-Tok antes de cometer um crime, mostrando a atualidade da longa-metragem. Em suma, trata-se de um filme que mistura a comédia com o horror humano, sendo talvez uma das obras que em breve se tornará num filme de culto.

Já tiveste a oportunidade de assistir a “M3GAN” de Gerard Johnson?

M3GAN, em análise
M3GAN

Movie title: M3GAN

Movie description: Quando a irmã de Gemma perde a vida num acidente de automóvel, esta torna-se cuidadora da sua sobrinha. Sentindo-se pouco preparada para tomar conta de Cady, Gemma desenvolve uma boneca programada através da Inteligência Artifical, M3GAN, que se conecta emocionalmente à criança, com o objetivo de fazer companhia a Cady e ajudá-la a recuperar da perda repentina dos pais. À medida que o robô vai evoluindo, acaba por desenvolver instintos superprotetores que tornam M3GAN violenta.

Date published: 12 de January de 2023

Country: EUA

Duration: 102

Director(s): Gerard Johnson

Actor(s): Allison Williams,, Violet McGraw, , Amie Donald,, Ronny Chieng

Genre: Terror

  • Jéssica Rodrigues - 85
85

CONCLUSÃO

Em “M3GAN” Gerard Johnson traça o cenário da geração atual, em que a sociedade é dominada pela tecnologia. Apesar de não ser um filme de terror, o cenário desenhado tem a capacidade de horrorizar o espectador ao confrontá-lo com um futuro em que a Inteligência Artificial evolui ao ponto de adquirir capacidades de pensamento autónomo. Do mesmo modo, a obra de Johnson critica o pouco tempo que os pais dedicam agora aos filhos, substituindo a sua presença por aparelhos eletrónicos, deixando as crianças desamparadas perante a ausência da tecnologia.

Pros

  • Argumento brilhante que consegue horrorizar de uma forma bastante diferente;
  • Trabalho digital que transforma Amie Donald numa boneca;
  • Introdução de piadas muito subtis que conferem um tom cómico ao filme;
  • Crítica assente na atualidade tecnológica

Cons

  • No momento em que M3GAN arranca a orelha ao miúdo, o efeito criado torna-se estranho.
  • Existe uma lacuna quanto ao terror presente no filme, podendo existir momentos mais assustadores ao longo da ação.
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  1. Joaquim chiçano 16 de Janeiro de 2023

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