"Ma Rainey: A Mãe do Blues" | © Netflix

Ma Rainey: A Mãe do Blues, em análise

O último filme com Chadwick Boseman é a adaptação de uma peça de August Wilson com Viola Davis no papel titular. “Ma Rainey: A Mãe do Blues” está na senda dos Óscares da Academia e deve ir ceifar umas quantas nomeações esta temporada e quiçá até umas vitórias.

Apesar do seu título, “Ma Rainey: A Mãe do Blues” não é necessariamente um texto centrado na figura da lendária cantora. Em muitas medidas, a peça que August Wilson assinou em 1984 é uma complexa salada de anomalias e contradições, tanto no que se refere à sua posição dentro da obra do escritor como no que diz respeito à lógica interna do drama. Trata-se de uma das peças que compõem o ciclo de Pittsburgh que Wilson escreveu sobre a experiência afro-americana ao longo do século XX. Nessa perspetiva, este é o capítulo da saga que se concentra na década de 1920.

Também se trata do único espetáculo dessa célebre coleção que não se passa em Pittsburgh, fazendo de Chicago o seu cenário. Além do mais, difere da maioria das suas peças irmãs pelo facto que extrai a sua premissa de uma personagem verídica. Não que, como já apontámos, Ma Rainey seja o olho deste particular furacão. Mais do que ser heroína, ela é um indicador temático, uma conflagração de ideias em forma de pessoa, um símbolo de ambição e da comunidade preta a exigir o respeito que merece. Se ela serve para estabelecer tema, quem vive esses temas na pele na carne mortificada é o trompetista da cantora, Levee.

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Não que o filme mostre ter grande noção das particularidades do espetáculo em que se baseia, pelo menos acerca de como os seus ritmos se ligam ao seu propósito ideológico. A história principal de “Ma Rainey: A Mãe do Blues” é bastante simples, sendo um retrato de uma dura tarde de gravações num esquálido estúdio. Em palco, muito se fala de Ma Rainey antes de a vermos e grande porção do drama é uma espera Beckettiana pela qual vamos conhecendo os membros da banda e sua relação conflituosa com Levee e seus sonhos doirados de sucesso a solo.

É essencial que a audiência partilhe o mesmo aborrecimento nervoso dos músicos que esperam a sua cantora, deliberadamente atrasada numa performance de poder perante os homens brancos que lhe pagam esmolas para gravar a sua voz. No filme, contudo, essa espera perde gás, visto que tudo começa com uma montagem acrescentada ao texto de Wilson em que vemos Rainey dar espetáculo, primeiro numa tenda sulista, depois num palco urbano. Quando somos apresentados à diva logo ao início, a espera deixa de ser uma antecipação e passa a ser uma pausa frouxa.

Verdade seja dita, há imensos problemas nesta adaptação ao grande ecrã, desde mudanças textuais a forma cinematográfica. A aniquilação da tensão inicial mata muito do apelo estrutural do texto, mas o encurtar significativo do drama também prejudica sua conclusão. “Ma Rainey: A Mãe do Blues” é um crescendo de animosidade e conflitos interpessoais que explodem num rasgo de violência inusitada. É preciso haver observação prolongada para essa reviravolta funcionar e os cortes feitos ao texto original levam a que o derrame de sangue do fim pareça mais despropositado do que realmente é.

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No panorama da forma, o filme padece daquela plasticidade polida que é típica do cinema Netflix. A fotografia digital faz com que tudo pareça ter sido filmado em green screen, apesar dos cenários e os figurinos fazerem tudo o que podem para nos dar noção de materialidade vivida. A montagem também podia ser melhor, perdendo-se em récitas elegíacas quando o espetador precisa de ver reações das outras personagens. Tanto o realizador George C. Wolfe molda o material à imagem das suas estrelas que as figuras secundárias saem um pouco prejudicadas. Felizmente, para todas estas fragilidades, “Ma Rainey: A Mãe do Blues” oferece mil triunfos de compensação. O filme sobrevive aos seus erros e vinga com suas qualidades.

A principal magia da fita encontra-se no elenco, todo ele escolhido a dedo e a dar alguns dos melhores desempenhos do ano cinematográfico. Como líder da banda, Colman Domingo é um poço sem fundo de charme. Sua presença é um edifício de carisma estucado com genuína simpatia se bem que com algumas rachas de frustração à vista. Glynn Turman faz de Toledo, o pianista de Ma Rainey, um ancião com muitos anos de experiência cuja fachada démodé é produto de cicatrizes emocionais e escudos erguidos em autodefesa mental. Ele é um veterano dos palcos e tudo na sua postura e discurso nos indica isso.

Como Slow Drag, Michael Potts não chama muito a atenção, mas ele é a cola que mantém os ânimos leves entre os membros da banda e suas visões antagónicas do mundo e da vida. Dusan Brown é um sucesso como o sobrinho gaguejante de Ma Rainey, oferecendo tanta vulnerabilidade como humor, um tom trémulo apoiado numa base de aço. Por outro lado, Taylour Paige dá vida à amante da cantora com melosa sensualidade, delineando as gradações de pragmatismo mercenário e libertinagem que fazem da sua personagem um íman para a câmara.

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Com isso dito, as estrelas do espetáculo são Viola Davis como Ma e Chadwick Boseman como Levee. Começando pela atriz Oscarizada, há que se ver a performance de Davis como uma interpretação do texto de Wilson ao invés de uma cópia da Ma Rainey histórica. A cara coberta de maquilhagem suada e o corpo moldado pelo figurino encorpado definem a imagem grotesca da diva, mas é a performance da atriz que nos mostra como Ma é uma ideia do dramaturgo sobre artistas afro-americanos a reclamarem o respeito que a sociedade branca tanto teima em lhes negar. Quaisquer mostras de arrogância são parte de um jogo social, uma estratégia calculada e não um laive de petulância. Trata-se de um trabalho maravilhosamente atípico de Davis.

É claro que, tal como Levee rouba o holofote a Ma Rainey, também Boseman o faz à sua estrela feminina. No seu último filme antes de uma morte prematura causada pelo cancro, o ator famoso por ser o “Black Panther” da Marvel dá tudo o que tem, tanto física, como mentalmente, até espiritualmente poderíamos dizer. Há um desespero latente a todos os seus monólogos, uma natureza febril que tanto funciona para nos alertar para a interioridade de Levee como para tecer uma tapeçaria de significado meta textual. Tal como a personagem, Boseman nunca vai ver os mais altos triunfos dos seus sonhos. Não é um desempenho subtil, mas é poderoso, uma tour-de-force que nos traz lágrimas aos olhos e exige o aplauso de pé. Bravo!

Ma Rainey: A Mãe do Blues, em análise
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Movie title: Ma Rainey's Black Bottom

Date published: 14 de January de 2021

Director(s): George C. Wolfe

Actor(s): Chadwick Boseman, Viola Davis, Colman Domingo, Glynn Turman, Michael Potts, Taylour Paige, Dusan Brown, Jeremy Shamos, Jonny Coyne

Genre: Drama, Música, 2020, 94 min

  • Cláudio Alves - 75
  • Virgílio Jesus - 70
73

CONCLUSÃO:

“Ma Rainey: A Mãe do Blues” não faz justiça ao texto original de Augiut Wilson, mas tanto o seu elenco como o seu design dão nova vida cinematográfica ao drama. No fim, temos vontade de nos levantarmos do sofá e aplaudir como se estivéssemos a ver um espetáculo ao vivo.

O MELHOR: Todo o elenco, com especial destaque para Boseman, Davis e Turman.

O PIOR: As adições disfuncionais à peça e a aparência mortiça da fotografia digital.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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