Maria Madalena

Maria Madalena, em análise

Depois de “Lion”, Garth Davis assina em “Maria Madalena” a sua segunda longa-metragem, criando também um dos filmes religiosos mais ideologicamente ambiciosos dos últimos tempos.

Maria Madalena critica

Em 2016, a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos elevou a comemoração litúrgica de Maria Madalena ao mesmo estatuto que os 12 apóstolos de Cristo. Oficialmente, segundo o Vaticano, Maria Madalena é assim reconhecida como a “Apóstola dos Apóstolos”, assim como a primeira mensageira de Cristo ressuscitado. O estatuto e reconhecimento de Maria enquanto estudante e seguidora de Cristo já havia sido debatido desde a Idade Média, sendo que o termo “Apóstola dos Apóstolos” remonta de textos medievais, mas foi também durante esse período histórico que a sua figura foi mais deturpada e manipulada. Devido às palavras do Papa Gregório no século VI, Maria ganhou a fama de ser uma prostituta redimida pelas palavras de Cristo, por exemplo.

Essa imagem, da meretriz apedrejada e salva pela piedade do Profeta ganhou peso cultural e tornou-se na ideia popular de Maria Madalena durante séculos. De certo modo, a criação deste filme pelo realizador australiano Garth Davis representa um esforço por imortalizar, por meio do cinema, uma ideia de Maria Madalena que renuncia essa deturpação gregoriana. Apoiando-se muito nos documentos do século III e V tidos por académicos como o Evangelho de Maria, Davis construiu algo quase inédito nos anais do cinema ocidental, delineando uma obra de teor religioso e inquestionável fé que, ao mesmo tempo, se afirma como um objeto de intenções panfletárias claramente feministas.

Maria Madalena critica

O Novo Testamento filtrado por uma perspetiva feminista moderna é, sem sombra de dúvida, uma premissa interessante para uma adaptação bíblica, especialmente quando consideramos as restantes escolhas de Davis e de Helen Edmundson e Philippa Goslett, as argumentistas do filme. Mais do que um filme sobre o espetáculo bíblico ou uma orgia de martírio glorificado à la “A Paixão de Cristo”, “Maria Madalena” é um filme de ideias, desdobrando-se em longos diálogos onde ideologia cristã é debatida pelas personagens de um modo tão intelectualizado que quase se torna alienante. Este é um filme capaz de representar os milagres de Jesus Cristo como a cura da cegueira ou a ressurreição de Lázaro e, mais tarde, dissecar as palavras do profeta enquanto metáfora.

Trata-se de um texto audacioso, sem dúvida, mas as ambições das argumentistas nem sempre funcionam a favor da qualidade geral de “Maria Madalena”. Se bem que, para se entender os problemas do texto, há que se entender como é que Davis materializou esta história bíblica no grande ecrã. Trabalhando novamente com Greig Fraser, o diretor de fotografia que já tinha sido nomeado para o Óscar pela primeira longa-metragem do realizador “Lion”, Garth Davis pinta a Judeia do século I com uma estética realista, rica em paisagens arenosas e ricas em cinzas somente coloridas pelos tons matizados do céu azul e do sol amarelado. É algo tão belo como visceralmente material e deliberadamente saturado por texturas grosseiras, o que é exacerbado pela cenografia de Fiona Crombie e pelos figurinos de Jacqueline Durran.

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É, portanto, impossível negar o realismo tátil que as imagens do filme conjuram, mas é igualmente difícil não reconhecer nos tableaux de mulheres com as faces emolduradas por linho em paisagens esquálidas uma teatralidade tão pictórica como profundamente austera. Essa mesma mistura de austeridade dramática com realismo cinematográfico afeta os restantes elementos do filme, especialmente o trabalho dos atores, encurralados numa estética e texto que exigem a pátina do realismo cru ao mesmo tempo que necessitam da curadoria da estilização dramática. Como Pedro e Judas, Chiwetel Ejiofor e Tahar Rahim são bons exemplos desse equilíbrio precário e difícil, conjurando caracterizações que têm um pé na humanidade das personagens e outro na sua magnificência distante de figuras do texto sagrado.

Infelizmente, nem todos os intérpretes de “Maria Madalena” conseguem alcançar tal equilíbrio tonal e técnico, tal como é o caso de Joaquin Phoenix no papel fundamental de Jesus Cristo. Na narrativa edificada pelo argumento de Edmundson e Goslett, Cristo assume o papel de coprotagonista a partir do momento em que confronta a família de Maria, cujo pai e irmãos estão certos que ela está possuída depois desta ter recusado uma oferta de casamento. Essa centralidade na estrutura do filme não seria um problema, não fosse a prestação de Phoenix a maior fragilidade de todo este edifício fílmico. Ao contrário de Ejiofor e Rahim, o ator de “O mentor” não modula os seus usuais tiques e maneirismos e sucumbe à complexidade verbosa seu diálogo.

Maria Madalena critica

Este Jesus Cristo é distante, alienado, como uma divindade há muito separada da humanidade. Também é rude, abrasivo e quase patético, assemelhando-se mais a um chefe carrancudo de uma comuna hippie que a um grande profeta e revolucionário. A grandiosidade da figura de Cristo é assim transmitida não por Phoenix, mas pelas reações dos atores em seu redor, resultando num enorme desequilíbrio dramático. Em cenas partilhadas somente com Rooney Mara no papel titular, esta dinâmica torna-se particularmente alarmante. Afinal, face à magnificência dessa atriz é custoso aceitar a mediocridade dos seus colegas.

Em 2010, depois de alguns anos a trabalhar em televisão e projetos independentes sem grande glória, Rooney Mara afirmou-se no panorama do cinema contemporâneo com o seu papel em “A Rede Social” de David Fincher. Com pouco mais de cinco minutos em cena, a atriz conseguiu construir uma presença esmagadora cujo impacto reverbera pelo resto do filme e assim assegurou a sua presente carreira. A esse minúsculo papel secundário, seguiu-se Lisbeth Salander em “Os Homens Que Odeiam as Mulheres”, que lhe valeu uma nomeação para o Óscar, e, desde então, a atriz americana tem vindo a construir um currículo invejável, cheio de filmes de autor e prestações que ricamente modulam o minimalismo característico do seu estilo e daí fazem florescer sublimes caracterizações, tão misteriosas quanto humanas.

Maria Madalena critica

“Maria Madalena” é o mais recente triunfo da atriz, mesmo que a sua tez marmórea e aparência delicada façam dela uma escolha um tanto ou quanto incongruente para o papel de uma mulher que sempre viveu sob o sol do Médio Oriente e numa existência consumida pelo trabalho físico. O que lhe falta em verosimilhança visual, Mara compensa com pormenores de fisicalidade e gesto que sugerem toda uma vida fora da moldura da narrativa. Ao mesmo tempo, Mara traz plasticidade emocional a um filme muitas vezes atordoado numa espécie de apatia reverencial, sendo tão boa a invocar vulnerabilidade emocional em tempos de sofrimento como um sorriso traquinas em instantes de humor ou surpresa face ao seu adorado profeta. “Maria Madalena” não é um filme imaculado, sofrendo de inúmeros problemas resultantes das suas ambições estéticas, tónicas e ideológicas. Contudo, quando Garth Davis foca a sua câmara em Mara e deixa que a atriz filtre a densidade textual do argumento, repentinamente o filme eleva-se acima de tais fragilidades e, por momentos, o espectador é capaz de sentir a grandiosidade de algo maior que a pequenez do ser humano.

 

Maria Madalena, em análise
Maria Madalena

Movie title: Mary Magdalene

Date published: 2018-04-01

Director(s): Garth Davis

Actor(s): Rooney Mara, Joaquin Phoenix, Chiwetel Ejiofor, Tahar Rahim, Irit Sheleg, Lubna Azabal, Ariane Labed, Denis Ménochet

Genre: Drama, 2018, 120 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO

Entre o dramatismo da teatralidade religiosa e a crueza do realismo cinematográfico, “Maria Madalena” pinta um retrato curioso da Apóstola dos Apóstolos, apoiando-se numa prestação maravilhosa de Rooney Mara para alcançar os epítetos ideológicos e emocionais do seu audacioso argumento.

O MELHOR: Rooney Mara.

O PIOR: Joaquin Phoenix.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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